O helicóptero do presidente da CBF, Samir Xaud, ainda não havia pousado completamente na Granja Comary quando Luiz Felipe Scolari já circulava pelas dependências do centro de treinamento em Teresópolis, nesta sexta-feira, 29 de maio. Felipão chegou na véspera de um dos períodos mais intensos de preparação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026 — e sua presença, ao lado da cúpula da CBF, diz mais sobre o momento do que qualquer comunicado oficial.
Felipão na Granja e o peso simbólico de 2002
Scolari é o último técnico a erguer uma Copa do Mundo pelo Brasil. Foi em junho de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, com uma equipe que venceu todas as sete partidas da competição e marcou 18 gols — a campanha mais dominante da história do Brasil em Mundiais. Nenhum treinador brasileiro ou estrangeiro repetiu o feito nos quatro torneios seguintes. Quando ele aparece num treino comandado por Carlo Ancelotti, o peso desse currículo entra junto com ele.
A presença de dirigentes como Gustavo Feijó, diretor de seleções da CBF e ex-presidente da Federação Alagoana de Futebol, reforçou o caráter institucional do treino desta sexta. Mas foi Felipão quem trouxe o elemento que nenhum organograma da confederação consegue reproduzir: a experiência de ter gerenciado um vestiário com Ronaldo, Ronaldinho, Rivaldo e Roberto Carlos — quatro estrelas de clubes diferentes, com egos proporcionais aos salários — e transformado isso num coletivo campeão.
O que Ancelotti trabalhou enquanto Felipão observava
Mesmo sob chuva fraca na Região Serrana do Rio de Janeiro, o treino desta sexta foi de alta intensidade. Ancelotti separou os jogadores considerados titulares e trabalhou especificamente em exercícios com campo reduzido, além de dinâmicas voltadas para situações ofensivas pelos lados do campo. Numa das movimentações mais exploradas, Wesley recebia a bola pela direita para cruzar na área, enquanto Alex Sandro repetia a ação pelo lado esquerdo — uma indicação clara de que o técnico italiano quer largura e profundidade simultâneas na construção ofensiva.
Antes de o treino começar, Ancelotti reuniu o grupo para uma conversa. O hábito de falar com os jogadores antes das atividades é uma das marcas registradas do técnico — algo que também Felipão praticava com frequência em 2002, construindo uma comunicação direta que reduzia ruídos num elenco recheado de vaidades. A semelhança de método não é coincidência: ambos chegaram ao topo do futebol mundial gerenciando elencos de altíssimo nível técnico e igualmente alto potencial de conflito interno.
"Ancelotti tem a calma que a Seleção precisava. Mas calma sem direção não leva a lugar nenhum", disse Scolari em entrevista recente a veículos esportivos brasileiros, sem citar o nome do colega diretamente.
O que Felipão pode ensinar que nenhum assistente técnico entrega
Há uma diferença estrutural entre o que Ancelotti acumulou na Europa e o que Felipão construiu especificamente com o Brasil. O técnico italiano tem cinco títulos da Champions League — nenhum outro treinador chegou perto disso. Mas todas as suas conquistas foram em clubes: Milan, Real Madrid, Bayern de Munique, Chelsea, Juventus. A Copa do Mundo é outro organismo. O jogador defende país, não empregador. A pressão não vem do dono do clube — vem de 215 milhões de pessoas.
Scolari sabe o que é lidar com esse peso. Em 2002, o Brasil entrou no torneio com um grupo que havia sofrido na fase de qualificação — o time ficou em terceiro lugar nas Eliminatórias Sul-Americanas, atrás de Argentina e Equador. A pressão era máxima antes mesmo da primeira bola rolada no Japão. Felipão respondeu construindo uma hierarquia clara dentro do vestiário, delegando liderança para Cafu e para Ronaldo, e mantendo uma linha tática que priorizava solidez defensiva antes do show ofensivo. O Brasil daquele ano não era só Ronaldo — era um time que sabia o que fazer quando não tinha a bola.
Ancelotti, por sua vez, enfrenta um problema semelhante em 2026: tem talentos individuais de altíssimo nível — Vinicius Jr., Rodrygo, Endrick —, mas ainda busca a coluna vertebral do time, o eixo que segura o jogo quando o espetáculo não acontece. Essa é exatamente a expertise que Felipão domina como ninguém dentro do futebol brasileiro.
A cúpula da CBF e o sinal que o ambiente manda
A presença simultânea de Samir Xaud, Gustavo Feijó e Felipão num único treino não é rotina. A CBF costuma manter uma distância operacional do dia a dia da comissão técnica — pelo menos na aparência pública. Quando a cúpula aparece no gramado da Granja Comary com menos de 30 dias para a estreia do Brasil na Copa, o recado é claro: o nível de atenção institucional sobre cada detalhe aumentou. A Copa do Mundo de 2026 será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, com a estreia do Brasil prevista para o mês de junho, e qualquer tropeço no período preparatório já começa a ser monitorado de perto.

Levantado em matéria do SportNavo com base nas informações desta sexta, o encontro entre Felipão e Ancelotti na Granja Comary não gerou declarações públicas conjuntas — mas o simbolismo do encontro fala por si. Dois treinadores que somam, juntos, seis títulos da Liga dos Campeões e uma Copa do Mundo num único espaço de treinamento, com a CBF assistindo de perto, é o tipo de cena que raramente acontece por acaso.
"Quando você ganha uma Copa do Mundo, aprende que o título não é seu — é do grupo", afirmou Scolari em entrevista ao canal SporTV em 2023, numa frase que resume sua filosofia de gestão de elenco.
A Seleção Brasileira retoma os treinos na Granja Comary no sábado, 30 de maio, com mais um período de trabalho tático antes do último amistoso preparatório programado para esta janela. Se Felipão voltar ao campo — ou se a conversa desta sexta se transformar em algo mais sistemático entre as duas gerações —, Ancelotti terá à disposição algo que nenhuma análise de dados consegue simular: a memória muscular de quem já viveu o momento e sobreviveu ao peso de 215 milhões de expectativas. Uma receita não se aprende lendo o cardápio — ela se transmite na cozinha, de mão em mão.








