A manhã ainda estava fresca em Teresópolis quando um homem de 76 anos atravessou o gramado da Granja Comary e parou ao lado da comissão técnica sem dizer uma palavra. Só observou. Luiz Felipe Scolari — o Felipão — foi convidado pela diretoria da CBF para passar o dia inteiro com atletas e comissão técnica, e a cena que se formou ali tinha uma carga simbólica que vai muito além de qualquer visita protocolares: era o único treinador vivo a ter conquistado uma Copa do Mundo com o Brasil sentado na mesma arquibancada de Carlo Ancelotti.
A memória que vale mais do que qualquer esquema tático
O Brasil não ergue a taça desde 30 de junho de 2002, no Estádio Internacional de Yokohama, quando Ronaldo marcou duas vezes e enterrou a Alemanha por 2 a 0. Quem estava no banco naquele dia era Scolari — hoje dirigente do Grêmio e figura de relações institucionais sólidas dentro da CBF. A boa relação com Rodrigo Caetano, diretor de seleções, e com o gerente Cícero Souza foi o que abriu as portas da Granja para essa visita, que não estava no roteiro original da convocação.
Ancelotti chega à Seleção com um currículo europeu sem paralelo — quatro Champions League, títulos em cinco países diferentes —, mas nunca dirigiu uma equipe nacional em Copa do Mundo. Felipão fez exatamente o oposto: construiu sua reputação no futebol de clube, mas é no torneio de seleções que sua marca mais profunda está gravada. A troca de experiências que a CBF organizou não é um gesto de nostalgia; é um reconhecimento de que existe um tipo de conhecimento que não se aprende em prancheta.
"Felipão tem uma relação muito boa com Ancelotti e também com alguns jogadores do grupo", segundo fontes da CBF próximas à organização da visita.
O goleiro Weverton, por exemplo, foi treinado por Scolari no Palmeiras. Neymar, ausente do treino desta quinta-feira (28) por conta de uma lesão de grau dois na panturrilha direita, trabalhou sob o comando de Felipão entre 2013 e 2014, na preparação para a Copa do Mundo em casa. São fios de continuidade que conectam gerações — e que Ancelotti, recém-chegado ao futebol brasileiro, ainda está construindo.
Danilo de volta e o peso de cada presença no grupo
Enquanto Felipão circulava fora de campo, o segundo treino da Seleção em Teresópolis teve uma novidade dentro das quatro linhas: Danilo participou normalmente da atividade após ter sido poupado na quarta-feira (27), quando atuou pelo Flamengo na fase de grupos da CONMEBOL Libertadores. O protocolo de preservação é padrão para jogadores que disputam partidas até 48 horas antes do início dos trabalhos com a Seleção, e o lateral cumpriu o rito sem intercorrências.
A única ausência entre os convocados já apresentados continuou sendo Neymar. O diagnóstico de grau dois na panturrilha direita coloca em risco a participação do camisa 10 nos amistosos preparatórios e, dependendo da evolução, pode afetar diretamente a estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 em 13 de junho contra Marrocos. Com 16 dias entre hoje e essa data, o estafe médico da CBF trabalha com janelas apertadas.
- 31 de maio — Brasil x Panamá, amistoso, 17h (horário de Brasília)
- 6 de junho — Brasil x Egito, amistoso, 19h (horário de Brasília)
- 13 de junho — Brasil x Marrocos, Copa do Mundo, 19h (horário de Brasília)
O que Felipão carrega desde 2002 e como isso chega até Ancelotti
Há um dado que o SportNavo mapeou ao longo das últimas semanas de preparação da Seleção que ajuda a contextualizar essa visita: desde o título de Scolari, o Brasil disputou quatro Copas do Mundo, chegou a duas semifinais (2006 e 2014) e foi eliminado nas quartas de final nas outras duas (2010 e 2022). O único técnico nesse intervalo que chegou perto de replicar o ambiente de 2002 foi o próprio Felipão em 2014 — mas a derrota de 7 a 1 para a Alemanha na semifinal em Belo Horizonte enterrou qualquer possibilidade de revisitar aquele legado pelo caminho da vitória.
O que Scolari traz para a conversa com Ancelotti não é uma fórmula. É a memória visceral de como se constrói coesão de grupo em um ambiente de pressão extrema — como se gerencia o vestiário quando o país inteiro projeta seus sonhos coletivos sobre 23 jogadores. Ancelotti sabe montar times vencedores de Champions; sabe o que é ter Karim Benzema e Vinícius Júnior no pico da forma. Mas o peso específico de uma Copa do Mundo com a camisa amarela é outra densidade.
"Ele acompanhou o trabalho inteiro da comissão técnica pela manhã e também conversou com os jogadores", segundo a CBF, descrevendo a visita como uma troca de experiências organizada deliberadamente pela diretoria.
A relação de Scolari com Ancelotti é de longa data e vai além do respeito profissional. Os dois partilham uma visão de futebol que prioriza o equilíbrio emocional do grupo sobre sistemas táticos rígidos — e essa convergência de filosofia é o que torna a conversa entre eles potencialmente mais produtiva do que qualquer sessão de vídeo. Felipão não foi à Granja para corrigir Ancelotti; foi para depositar uma camada de experiência que só se acumula quando se vive o torneio mais assistido do planeta com a responsabilidade de um país de 215 milhões de pessoas nas costas.
O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 em 13 de junho diante de Marrocos — adversário que eliminou Portugal e Espanha no Mundial do Qatar em 2022 e chega a esta edição como uma das seleções africanas mais organizadas taticamente da história recente. Antes disso, os amistosos contra Panamá (31 de maio) e Egito (6 de junho) servirão para Ancelotti calibrar o time e, quem sabe, absorver mais um pouco do que o homem que foi à Granja nesta quinta carrega desde aquela noite de julho em Yokohama — como um acorde antigo que, quando tocado no momento certo, muda o tom de tudo que vem depois.








