Dois anos sem troféus. Seis lesionados no elenco principal. Um técnico com futuro incerto. Três episódios de violência no vestiário. A lista é curta, mas pesa como uma temporada inteira de decepções — e é exatamente esse inventário que Florentino Pérez terá de enfrentar na coletiva convocada nesta terça-feira, 12 de maio, com poucas horas de antecedência, na Cidade Real Madrid.
Uma temporada que o Santiago Bernabéu vai querer esquecer
A 2025/26 foi, estatisticamente, uma das piores da história recente do Real Madrid. O clube terminou a La Liga em segundo lugar, com 77 pontos em 35 jogos, mas a 14 pontos do Barcelona — distância que, no vocabulário do futebol europeu, não é gap, é abismo. A derrota por 2 a 0 no Camp Nou no último domingo selou o título catalão com antecedência e expôs um problema estrutural que vai além de resultados pontuais.
Na Champions League, a eliminação nas quartas de final para o Bayern de Munique — com 6 a 4 no agregado — teve a crueldade de um thriller que termina no terceiro ato. Na Copa del Rey, a queda precoce para o Albacete foi a cena que nenhum sócio do Bernabéu esperava assistir. O Real Madrid marcou 70 gols na liga, sofreu 33, venceu 24 partidas. Em outra temporada, esses números disputariam o título. Mas o Barça de Flick jogou num nível diferente — e o Madrid não soube responder.
O vestiário que ninguém controla
Os números escondem o que os bastidores revelam com mais brutalidade. Nas últimas semanas, vieram a público três episódios que descrevem um grupo sem coesão: a briga entre Federico Valverde e Aurelien Tchouaméni, que terminou com o uruguaio hospitalizado após levar um soco do francês; o tapa de Antonio Rüdiger em Álvaro Carreras durante um treino; e a viagem de Kylian Mbappé à Itália durante o período oficial de recuperação de lesão. Três episódios, três sinais de que o pressing alto que falta ao time dentro de campo existe, de forma distorcida, fora dele.
Esse tipo de fratura interna é familiar a quem acompanhou o Chelsea na era pós-Abramovich ou o Manchester United nos anos que se seguiram à saída de Sir Alex Ferguson. Quando o vestiário perde o fio condutor, a técnica individual não basta. O Real Madrid tem talento de sobra — tem, também, seis atletas do elenco principal fora por lesão neste momento — mas carece do que os ingleses chamam de team spirit: aquela liga invisível que transforma onze indivíduos num organismo coletivo.
Arbeloa e a herança impossível de Xabi Alonso
Álvaro Arbeloa assumiu o comando em janeiro, após a saída de Xabi Alonso, e acumula 14 vitórias, um empate e sete derrotas em 22 partidas — rendimento que, em qualquer clube da Premier League ou da Bundesliga, já teria gerado uma demissão formal. No Real Madrid, onde a cultura do galáctico ainda dita as regras não escritas, o ex-lateral direito carrega o peso adicional de ser um técnico em formação num cargo que exige autoridade imediata.
Segundo informações dos bastidores do clube, a diretoria convocou a reunião do Conselho de Administração justamente para fazer uma reflexão profunda sobre os rumos esportivos e administrativos. Nas palavras do comunicado oficial, Florentino Pérez falará com os jornalistas na sala de imprensa do centro de treinamento — sem especificar temas. Essa ausência de pauta prévia, num presidente que raramente aparece publicamente, é em si uma declaração. Quando Florentino convoca coletiva surpresa, o mercado europeu já sabe: algo muda.
Florentino diante do espelho que ele mesmo construiu
Há uma ironia estrutural na posição de Florentino Pérez neste momento. O presidente que reinventou o conceito de clube-empresa no futebol mundial — que transformou o Real Madrid numa marca bilionária, que financiou a Superliga Europeia como projeto pessoal — agora precisa responder por dois anos consecutivos sem um único troféu. A última vez que o clube viveu seca comparável foi no início dos anos 2000, antes justamente da sua gestão.
O mercado de transferências de verão será o termômetro real desta coletiva. A janela de julho abre com o clube precisando de ao menos um volante de nível internacional, um lateral-esquerdo confiável e — dependendo do que Florentino anunciar hoje — um novo técnico com autoridade suficiente para recompor o vestiário. Nomes como Carlo Ancelotti, que conhece o clube como poucos, e Jurgen Klopp, livre desde que deixou o Liverpool, circulam nas redações europeias com frequência crescente.
O Real Madrid recebe o Real Oviedo na quinta-feira, dia 14, pelo Bernabéu, pela 36ª rodada da La Liga — um jogo sem qualquer valor esportivo para o time da casa, contra um adversário já rebaixado para a Segunda División. Mas a partida acontece dois dias após esta coletiva, e o que Florentino disser hoje vai moldar o ambiente desse estádio por meses. Se Arbeloa for demitido antes de quinta-feira, quem comanda o time contra o Oviedo? E se for mantido, com qual autoridade moral ele entra em campo?








