O vestiário do Etihad Stadium já conhece a cena: o técnico de cabelos grisalhos desenhando linhas no quadro branco, corrigindo ângulos de pressão, exigindo que o pivô baixe exatamente três metros antes do passe vertical. Quem viveu aquilo por uma temporada inteira foi Enzo Maresca, então assistente de Pep Guardiola em 2022/23. Agora, segundo informações do Standard Sport e confirmadas por Fabrizio Romano, o italiano de 45 anos assinou em princípio um contrato de três anos com o Manchester City para substituir o próprio mestre.
Os dez anos que redesenharam o futebol inglês
Guardiola chega ao fim de uma gestão de 10 temporadas com números que dispensam adjetivos: 6 títulos da Premier League, 1 Champions League (2023) e um total de 20 troféus pelo clube. Nenhum técnico na história do futebol inglês moderno construiu um sistema tão coeso durante tanto tempo num único clube.
O modelo tático de Guardiola no City se sustenta sobre três pilares mensuráveis. Primeiro: posse de bola média acima de 60% em praticamente todas as temporadas, com circulação que força o adversário a reorganizar sua linha defensiva continuamente. Segundo: pressão alta estruturada — o City não pressiona por impulso, pressiona por gatilho, com linha de pressão que sobe coletivamente quando o goleiro adversário recebe o esférico. Terceiro: compactação vertical entre linhas, reduzindo o espaço entre meio-campo e defesa para menos de 25 metros em fase defensiva.
O resultado prático aparece nos dados de recuperação de bola no terço ofensivo — o City liderou essa métrica na Premier League em múltiplas temporadas. Não é acidente; é design.
"Um dos melhores técnicos do mundo, Enzo Maresca — eu o conheço muito bem, mas o trabalho que ele fez no Chelsea não recebe crédito suficiente. Ganhar a Conference League, o Mundial de Clubes, classificar para a Champions numa liga tão difícil com um time jovem — é excepcional", disse Guardiola ao ser questionado sobre seu ex-assistente.
O que Maresca fez com o manual que recebeu
Maresca não é um clone de Guardiola. Trabalhou como assistente no City na temporada 2022/23, mas antes disso já havia passado pelo sub-21 do clube em 2020/21, absorvendo a metodologia de base. Quando assumiu o Leicester City, aplicou um 4-2-3-1 com posse elevada e saída de bola pelos zagueiros — reconhecível para quem conhece o DNA do City, mas com adaptações ao plantel disponível. O resultado foi a promoção à Premier League em 2024.
No Chelsea, o sistema evoluiu para um 4-1-4-1 com o pivô baixo como distribuidor primário — função que Rodri exercia no City com maestria. Maresca conquistou a Conference League e o Mundial de Clubes em 2025, mas a relação com a diretoria do Chelsea se deteriorou após ele admitir publicamente que havia conversado com o City sobre a possível vaga, ainda enquanto estava empregado em Stamford Bridge. A saída em 1º de janeiro de 2026 foi consensual, mas reveladora: Maresca já tinha o próximo passo mapeado.
Segundo apuração do SportNavo com base em fontes britânicas, Maresca utilizou o período de inatividade para estudar tendências táticas globais, incluindo o trabalho do treinador de vôlei Julio Velasco — referência em sistemas de leitura coletiva e tomada de decisão sob pressão.
Os três problemas táticos que Maresca não pode ignorar
A transição não é apenas de técnico — é de geração de elenco. O City de 2026 já não é o mesmo de 2023. Rodri, o metronomo do meio-campo, acumula histórico de lesões. Kevin De Bruyne está na reta final da carreira. A ausência de um pivô de elite com capacidade de cobrir 11 quilômetros por jogo e executar mais de 80 passes com 90% de precisão é o maior vácuo estrutural que Maresca vai herdar.
Quando Maresca usa pivô baixo, ele exige que o jogador seja simultaneamente receptor, distribuidor e referência de posicionamento para as linhas de pressão. Quando usa pivô baixo, ele também libera os laterais para sobrecarregar as faixas — o que demanda atletas com capacidade aeróbica e leitura de jogo acima da média.
Três desafios concretos se impõem:
- Reposição do pivô: sem um substituto direto para Rodri, o 4-1-4-1 de Maresca perde o eixo de distribuição e a linha de pressão perde referência de ativação.
- Manutenção da posse: o City médio de Guardiola circulava a bola com 600 a 700 passes por jogo. Maresca precisará de jogadores que aceitem a responsabilidade de iniciar jogadas sob pressão — algo que não é automático numa transição de comando.
- Transição ofensiva: Guardiola nunca foi um técnico de contra-ataque, mas soube explorar transições rápidas quando o espaço aparecia. Maresca no Chelsea mostrou maior rigidez posicional — funciona com elenco de qualidade, mas pode ser explorado por equipes que saibam sair rápido.
O City planeja uma cerimônia de despedida para Guardiola após o último jogo da temporada, contra o Aston Villa no domingo, com a celebração integrada ao título do time feminino na Women's Super League — um gesto institucional que marca o encerramento de uma era com a sobriedade que o momento exige.
Maresca assume oficialmente no início da pré-temporada de 2026/27, com a primeira rodada da Premier League prevista para agosto. O mercado de transferências de verão — que fecha em 1º de setembro — será o primeiro teste real do novo comando: as contratações que o italiano fizer nas próximas semanas vão revelar se ele pretende adaptar o elenco ao seu sistema ou adaptar o sistema ao elenco que recebe.










