A última vez que o ultraciclismo brasileiro foi sacudido por uma morte em prova foi no contexto das grandes travessias de estrada — eventos que carregam no nome a promessa de aventura, mas que raramente exibem nos regulamentos a lista de riscos reais. Na madrugada de sábado, 9 de maio, a ciclista mineira Eliana Tamietti, 48 anos, conhecida no meio esportivo como Lili, morreu durante o BikingMan Brasil, prova de 555 quilômetros com saída e chegada em São José dos Campos (SP), passando pela Serra da Mantiqueira. Ela havia pedalado 219 dos 555 quilômetros previstos quando o rastreamento GPS parou de registrar avanço, por volta das 4h27. Não havia mais movimento para frente — só o deslocamento do resgate levando o corpo para Itajubá.

O diretor da prova, Vinícius Martins, confirmou ao G1 que Eliana sofreu uma queda após um possível mal súbito enquanto pedalava em trecho de estrada de terra próximo a Piranguçu, no Sul de Minas. Ela estava acompanhada de outros três ciclistas, o grupo havia feito uma breve parada e, poucos segundos depois de seguir sozinha, o acidente aconteceu. O socorro — SAMU, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil — foi acionado imediatamente, mas o óbito foi constatado ainda no local.

"Ela teve um mal súbito, não se sabe exatamente o que foi. Ela estava em cima da bicicleta e bateu no barranco", afirmou Martins. "O socorro chegou e já foi constatado o óbito. Não houve transferência."

A perícia descartou falha mecânica na bicicleta e irregularidade na estrada como causas do acidente. O registro preliminar da Polícia Civil apontou "mal súbito, queda e morte", mas a causa exata aguarda o laudo de necropsia. O dado do GPS revela um detalhe que agrava o cenário fisiológico: Eliana havia passado pelo ponto mais alto da prova, a 1.812 metros de altitude, no quilômetro 199, por volta das 2h20 da manhã — ou seja, pedalou sozinha durante mais de duas horas na madrugada, após cruzar a Serra de Luminosa, um dos trechos mais exigentes do percurso.

219 quilômetros pedalados na madrugada antes do colapso

O número 219 não é apenas o ponto onde o GPS parou. Ele sintetiza o tipo de esforço que o ultraciclismo impõe ao organismo: quase dois dias de pedal acumulado, privação de sono, variação de altitude e temperatura, alimentação fragmentada em barras energéticas consumidas sobre a bicicleta. Eliana havia completado as edições de 2024 e 2025 do BikingMan — o que demonstra que ela conhecia a prova e seu próprio corpo dentro dela. Em 2023, foi vice-campeã mineira de ciclismo contra o relógio. Em 2023 e 2024, venceu duas vezes a prova Caminhos de Rosa 300 km. Não era uma atleta inexperiente.

A comparação mais precisa para entender o que acontece com o sistema cardiovascular nessas condições vem de outra área: pense em um motor de avião rodando em potência de cruzeiro por 20 horas seguidas, sem janela de manutenção. A fadiga muscular é visível e mensurável. O que não aparece no medidor é o desgaste silencioso do coração — arritmias induzidas por eletrólitos, espasmos coronarianos desencadeados por hipotermia noturna, ou eventos isquêmicos que não geram dor em atletas com alta tolerância à dor. Nenhum desses sinais é rastreado por GPS.

Segundo apuração do SportNavo, o ultraciclismo mundial já registrou mortes em provas similares — a Race Across America (RAAM), com 4.800 quilômetros, e o BikingMan Oman, com percursos em deserto, figuram entre os eventos com histórico de óbitos relacionados a eventos cardíacos e colapso por calor. O denominador comum quase sempre é o mesmo: atleta experiente, condições físicas aparentemente adequadas, e um colapso que surge sem aviso prévio…

… e aí vem o problema. Provas de ultra-resistência não exigem, na maioria dos regulamentos brasileiros, eletrocardiograma de esforço máximo ou teste de esforço com monitoramento de 24 horas como pré-requisito de inscrição. Um atestado médico padrão — o mesmo exigido para uma corrida de rua de 5 km — costuma ser suficiente para assinar a ficha de inscrição de um evento de 555 quilômetros.

O que os protocolos de segurança raramente preveem no ultraciclismo

Eliana começou a pedalar aos 42 anos, em 2019, motivada por problemas de saúde relacionados ao sobrepeso. Em seis anos, passou de sedentária a atleta de ultraciclismo com dois títulos nacionais e duas finalizações do BikingMan. A trajetória, que ela contou em 2024 no podcast Endorfina, é inspiradora — e também ilustra uma característica específica desse perfil de atleta: pessoas que descobrem o esporte na meia-idade e evoluem com velocidade acima da média, muitas vezes sem passar por avaliação cardiológica compatível com o nível de esforço que passam a exigir do corpo.

Empresária, mergulhadora e aprendiz de saxofonista — como ela mesma se descrevia —, Eliana era o tipo de atleta que o ultraciclismo celebra: aquela que transforma a bicicleta em ferramenta de reinvenção pessoal. A equipe do BikingMan prestou homenagem destacando sua "coragem, generosidade, espírito aventureiro e paixão pela bicicleta". O elogio é justo. Mas ele também expõe uma tensão que o meio esportivo evita discutir com clareza: quanto dessa coragem é protegida por estrutura de segurança real?

"Até o momento, não há informações conclusivas sobre as circunstâncias da sua morte. Apesar do rápido atendimento e de todos os esforços das equipes de resgate, ciclistas e suporte presentes no evento, Eliana não resistiu. Pedimos respeito e sensibilidade nesse momento de luto", comunicou a organização do BikingMan.

A nota é cuidadosa, mas o vazio que ela deixa é sintomático. "Não há informações conclusivas" é a resposta honesta de uma organização que aguarda laudo pericial — mas é também o tipo de resposta que se torna recorrente em eventos de ultra-resistência porque o protocolo de triagem médica raramente vai fundo o suficiente para capturar o risco real antes da largada.

O que a morte de Eliana Tamietti exige da regulamentação brasileira

O Conselho Federal de Medicina e entidades como a Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte já publicaram diretrizes recomendando eletrocardiograma de repouso e teste ergométrico para atletas acima dos 35 anos que participam de provas de alta intensidade. A questão é que "recomendação" e "exigência" são categorias muito diferentes quando o assunto é regulamentação de eventos esportivos no Brasil.

Provas de ultraciclismo operam, em sua maioria, como eventos privados, com regulamentos próprios e sem supervisão de uma federação nacional unificada que imponha padrão mínimo de triagem médica. A Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) regula o ciclismo competitivo federado — mas o ultraciclismo de aventura vive numa zona cinzenta entre o esporte federado e o turismo ativo, o que dilui a responsabilidade sobre quem define os critérios de segurança.

O sepultamento de Eliana Tamietti estava marcado para as 15h deste domingo, 10 de maio, no Parque Renascer Cemitério e Crematório, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O laudo de necropsia ainda não havia sido concluído até o fechamento desta reportagem. Enquanto o resultado não sai, o BikingMan Brasil segue sem resposta oficial sobre o que matou uma das suas atletas mais experientes — e o debate sobre triagem cardiológica obrigatória em provas de ultra-resistência no Brasil volta para a pauta, desta vez com um nome e um rosto.