É um relógio suíço com pavio curto.
A imagem resume o que o Santos enfrenta a partir do dia 18 de maio: um processo técnico, minucioso, de 105 artigos e 89 emendas, que precisa ser conduzido com precisão cirúrgica — mas que carrega dentro de si a tensão de quem sabe que qualquer passo em falso pode explodir na cara de todos. O Conselho Deliberativo (CD) do clube começa nessa data a votação do novo estatuto social, e o que está em jogo não é apenas burocracia interna: é quem manda no Peixe, por quanto tempo e sob quais condições.

O protagonista da reforma e o que ele colocou na mesa
A Comissão de Estatuto, nomeada pelo presidente Marcelo Teixeira, chegou com propostas que inflamaram os bastidores da Vila Belmiro. A mais controversa: elevar de três para cinco anos o tempo mínimo de associação para ter direito a voto, e de cinco para dez anos para candidatura ao Conselho. Para efeito de comparação, o Corinthians — que aprovou em 2024 o voto do Fiel Torcedor para eleições presidenciais — caminha na direção oposta, ampliando participação. O Santos propôs restringi-la. Diante da pressão e das emendas apresentadas pelos conselheiros, a Comissão recuou.
"A Comissão se convenceu dos argumentos e acolheu as emendas para manter os prazos atuais: três anos para votar e cinco para ser candidato ao Conselho", garantiu Fernando Akaoui, presidente da Mesa do CD.
Sobre a presidência, houve flexibilização parcial — a exigência original de três mandatos como conselheiro para candidatura caiu para dois. Se essa proposta for rejeitada, o CD votará a exigência de um mandato e, por último, a manutenção do modelo atual, que não exige mandato prévio algum.
Os coadjuvantes que tensionam o processo santista
O conselheiro Matheus Cury — crítico aberto das mudanças — levantou uma suspeita que não passou despercebida: a votação começa exatamente no mesmo dia em que Carlo Ancelotti anunciará a convocação da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo, o que concentraria a atenção da imprensa em outro assunto.
"Não sei se foi coincidência ou se o objetivo é tirar o foco do Santos, já que a imprensa estará toda voltada à convocação. De qualquer forma, o associado precisa ficar atento", disse Cury.
Akaoui rebateu afirmando que a convocação está marcada para as 17h e a reunião do CD começa às 19h30, e que os artigos mais polêmicos provavelmente não serão deliberados na primeira sessão. A votação se estende pelos dias 21 e 22 de maio — e possivelmente além. Nos dias 19 e 20, não haverá sessão: o Santos enfrenta o San Lorenzo pela Sul-Americana na Vila Belmiro, e a Conmebol assume o estádio 24 horas antes do jogo.
A cota SAF e o que ela representa para o torcedor-sócio
O ponto que mais afeta o poder real do associado está no modelo societário. O estatuto vigente limita a venda de ações de uma eventual SAF a 49% — o que mantém o controle majoritário nas mãos do clube-associação. O novo texto propõe elevar esse teto para 90%, abrindo caminho para que um investidor externo assuma o controle efetivo do Santos. Trata-se de uma mudança estrutural que ultrapassa qualquer ajuste de prazo: enquanto os 89 artigos corrigidos pelo CD equivalem a ajustes em regras de condomínio, essa cláusula altera quem é o dono do imóvel. Na avaliação do SportNavo, é justamente esse ponto — e não os prazos de associação — que definirá o legado desta reforma para as próximas gerações de sócios santistas.
Caso o CD aprove o novo estatuto, o órgão terá 30 dias para convocar uma Assembleia Geral, onde os associados — com direito a voto conforme as regras que forem aprovadas — darão a palavra final. O Santos volta a campo nos dias 19 e 20 de maio contra o San Lorenzo, pela Sul-Americana, antes de retomar as sessões estatutárias no dia 21.








