Se a comissão técnica de Carlo Ancelotti tivesse que bater o martelo hoje, Neymar estaria fora da Copa do Mundo. Não por falta de talento, não por questão tática — mas por um edema de dois milímetros na panturrilha direita que o tirou do campo no duelo entre Santos e Coritiba em 17 de maio e que, desde então, não permitiu que ele pisasse no gramado da Granja Comary sequer uma vez durante a pré-temporada do Mundial. A resolução, porém, ainda não chegou: Ancelotti definiu o dia 12 de junho como prazo máximo para avaliar se o camisa 10 terá ou não condições de disputar o torneio.
A lesão que chegou na hora errada e o cronograma sem margem
A lesão grau 2 na panturrilha direita diagnosticada no Santos tem um agravante que vai além do músculo: o momento. Rodrigo Lasmar, médico da Seleção Brasileira, indicou que o quadro pode exigir até três semanas de recuperação. Neymar está descartado para os dois amistosos preparatórios — contra o Panamá, no domingo 31 de maio, no Maracanã, e contra o Egito, no dia 6 de junho, em Cleveland — e também para a estreia da Copa contra Marrocos, marcada para 13 de junho. O cenário otimista, confirmado pela comissão técnica ao Estadão, é que ele esteja apto para a segunda partida, contra o Haiti, em 19 de junho.
O regulamento da FIFA permite a substituição de um jogador de linha até a véspera da estreia, desde que a lesão seja comprovada — o que é exatamente o caso. Isso significa que, se em 12 de junho o quadro médico ainda for desfavorável, Neymar pode ser cortado formalmente sem que o Brasil perca uma vaga na lista de convocados. A CBF já demonstrou nervosismo com a situação: na manhã de 18 de maio, data da convocação, Ancelotti tinha duas listas prontas — uma com Neymar, outra sem ele.
O que a história das Copas exige de um jogador que chega lesionado
A memória enciclopédica do futebol brasileiro tem exemplos duros sobre o custo de levar jogadores em recuperação para Mundiais. Na Copa de 1962, no Chile, Pelé disputou apenas dois jogos antes de se machucar na coxa direita e desfalcar o Brasil nas quatro partidas restantes — o time venceu o torneio assim mesmo, com Amarildo herdando a camisa 10. Em 1998, na França, Ronaldo foi a campo na final contra a França horas depois de uma crise convulsiva; o Brasil perdeu por 3 a 0. Em 2014, Neymar foi cortado após fratura na terceira vértebra lombar no confronto com a Colômbia, nas quartas de final, e o Brasil terminou com o 7 a 1 histórico diante da Alemanha, em Belo Horizonte.
O próprio Neymar carrega um histórico de lesões em Copas que pesa sobre qualquer análise objetiva. Em 2018, na Rússia, chegou recuperando-se de uma fratura no quinto metatarso do pé direito, sofrida em fevereiro; jogou os cinco jogos do Brasil, mas claramente abaixo de sua capacidade máxima, com aproveitamento de 3 gols em 450 minutos. Em 2022, no Catar, machucou o tornozelo direito na estreia contra a Sérvia (2 a 0) e perdeu as duas partidas seguintes. Voltou nas quartas de final, marcou na prorrogação contra a Croácia, mas o Brasil caiu nos pênaltis por 4 a 2. Desde aquela tarde de dezembro de 2022, conforme registrado pelo SportNavo, Neymar acumula menos de 5 mil minutos em campo — um dado que resume uma carreira consumida por lesões recorrentes.
O que Ancelotti precisa ver nos próximos 15 dias
A exigência da comissão técnica não é apenas de cura clínica. Ancelotti, que ao longo desta preparação tem trabalhado com quatro jogadores de frente — Raphinha, Vinicius Júnior, Matheus Cunha e Rodrygo disputando posições —, precisa ver Neymar treinando com o grupo, absorvendo carga de trabalho e demonstrando mobilidade suficiente para entrar em campo sem risco de agravamento. A panturrilha, músculo-motor nas arrancadas e nas mudanças de direção, é exatamente o ponto crítico para um jogador cujo repertório técnico depende de acelerações curtas e fintas em espaço reduzido.

Uma recuperação de lesão grau 2 nessa região funciona como um temporal sem trovão: por fora parece que passou, mas o risco de recaída é real enquanto o tecido não está completamente consolidado. A comissão médica da CBF não vai — e não deve — liberar Neymar para treinos de alta intensidade antes que a ressonância magnética de acompanhamento confirme a resolução do edema. Esse exame, provavelmente realizado entre os dias 9 e 11 de junho, vai determinar o que Ancelotti anunciará em 12 de junho.
"A ideia é entregar apto ou quase apto na apresentação da Seleção", disse Rodrigo Zogaib, coordenador do Núcleo de Saúde do Santos, à CNN Brasil — uma declaração que, na prática, não se concretizou.
A presença de Felipão na Granja Comary nesta semana, a convite de Ancelotti, tem um subtexto que vai além da palestra motivacional. Luiz Felipe Scolari, campeão do mundo em 2002 com o Brasil, conhece como ninguém o peso psicológico de carregar um nome maior do que o momento físico permite. Em sua fala ao grupo, o técnico gaúcho de Passo Fundo foi direto:

"Saibam que um tem que fazer pelo outro e tem que cobrar e aceitar do outro. Aceitar é muito difícil. Vocês têm um cara que irá comandar vocês e que conhece. Portanto, aceitem, dialoguem, conversem", disse Scolari aos jogadores reunidos no CT da CBF.
Os cenários e quem sai ganhando ou perdendo em cada um deles
Se Neymar se recuperar a tempo e entrar em campo contra o Haiti em 19 de junho, o Brasil ganha um jogador que, mesmo abaixo do pico, representa um diferencial de criação que nenhum outro convocado possui da mesma forma — 79 gols em 129 jogos pela Seleção, artilheiro histórico do país, à frente de Pelé com 77. O risco, nesse cenário, é que ele jogue com carga reduzida nas fases iniciais e precise ser poupado justamente nas rodadas eliminatórias.
Se for cortado em 12 de junho, Ancelotti terá espaço para chamar um substituto — e nomes como Evanilson, Gabriel Barbosa ou até Luiz Henrique entrariam na disputa. O Brasil jogaria a estreia contra Marrocos, em 13 de junho, com a estrutura que já vem sendo testada nos amistosos: Raphinha, Vinicius Júnior, Matheus Cunha e Rodrygo revezando as quatro posições ofensivas, sem um camisa 10 de referência clássica.
O efeito cascata de um corte vai além do campo. Psicologicamente, a ausência de Neymar retiraria da Copa um dos maiores catalisadores de expectativa popular em torno da Seleção — o jogador que, apesar de tudo, ainda mobiliza o torcedor brasileiro como nenhum outro desde Ronaldo Fenômeno. Taticamente, porém, o grupo de Ancelotti tem mostrado, desde os amistosos contra França e Croácia em março, que funciona com ou sem ele.
O prazo é 12 de junho. Neymar tem até lá para provar que o músculo aguentou — e que os 15 dias mais decisivos de sua carreira não terminaram antes de começar.








