Confesso: em março de 2026, eu achei que a visita de Ancelotti a Mirassol seria o ponto de virada na relação entre o técnico italiano e Neymar. O treinador foi pessoalmente ver o Santos jogar, o craque estava no radar, o clima parecia de reaproximação. Errei. Neymar foi poupado por controle de carga naquela partida, Ancelotti não o viu em campo, e o atacante ficou fora da convocação para os amistosos contra França e Croácia. Hoje entendo por quê — e o problema é mais estrutural do que conjuntural.
Xaud entrega a decisão e não recua
O presidente da CBF, Samir Xaud, foi inequívoco em todas as declarações recentes: a convocação de Neymar para a Copa do Mundo de 2026 pertence exclusivamente a Carlo Ancelotti. "Fica a critério do mister, já falei que ele tem 100% de autonomia, então a responsabilidade é dele", disse Xaud ao SporTV durante a Data Fifa de maio. A postura não mudou nem diante da pressão nas redes sociais, que cresceu desde que a lista para os amistosos foi divulgada em 16 de abril.
"Particularmente, não recebo pressão. E isso não afeta nosso trabalho e quem define isso. Temos um grande líder que está tratando e foi contratado para isso. Deixo na mão dele, e os jogadores têm que fazer por onde." — Samir Xaud, presidente da CBF, à ESPN
A declaração é mais do que protocolar. Xaud revelou que recebe a lista de convocados apenas dez minutos antes do anúncio público — o que confirma que a comissão técnica opera com autonomia real, não apenas retórica. Nesse modelo, nenhuma campanha de torcedores ou ex-jogadores nas redes sociais chega perto de alterar a decisão de Ancelotti.
A visita a Mirassol e o episódio que ninguém esperava
A ida de Ancelotti a Mirassol para observar Neymar in loco foi programada com antecedência pela comissão técnica da Seleção. O problema: o Santos optou por poupar o atacante naquela rodada do Brasileirão 2026, alegando controle de carga. Xaud garantiu que não houve "desencontro" intencional, mas o efeito prático foi o mesmo — o técnico italiano não viu o jogador em ação quando foi especificamente vê-lo jogar.
"A comissão faz sua programação com antecedência e essa programação foi repassada, e ele, infelizmente, não estava apto para o jogo. Isso pode acontecer, não temos controle disso e, como era programado, demos continuidade à nossa ida para Mirassol." — Samir Xaud, à ESPN
Para um técnico metódico como Ancelotti, que avalia atletas por volume de minutos em campo e regularidade física, esse episódio pesa. Não se trata de punição ao jogador, mas de ausência de dado concreto para análise. O Santos poupou Neymar em um jogo que era, na prática, uma janela de observação direta da comissão técnica da Seleção… e aí vem o problema.
O que Ancelotti efetivamente observa antes de convocar
A metodologia da comissão técnica de Ancelotti para montar a lista da Copa é baseada em acompanhamento médico contínuo via CBF. Xaud confirmou que os médicos da entidade mantêm contato regular com todos os clubes cujos jogadores estão no radar do treinador — não apenas o Santos. O critério declarado publicamente é objetivo: "Os melhores, os mais bem condicionados, vão", resumiu o presidente da CBF ao SporTV.
Para Neymar, isso se traduz em três variáveis mensuráveis antes da convocação definitiva, prevista para maio: volume de minutos acumulados no Brasileirão 2026, sequência de jogos sem interrupção por lesão ou poupamento, e desempenho técnico verificável em campo — gols, assistências, participações em finalizações. Uma pesquisa Quaest realizada entre 10 e 13 de abril mostrou o Brasil dividido: 47% favoráveis à convocação do atacante, 45% contrários. Esse racha na torcida reflete exatamente a incerteza sobre a condição física real do jogador.
O SportNavo mapeou os compromissos do Brasil antes do Mundial: amistosos contra Panamá (30 de maio) e Egito (6 de junho), além de uma concentração na Granja Comary, em Teresópolis, confirmada por Xaud. A convocação definitiva sairá antes desse ciclo final. Neymar tem, portanto, um prazo curtíssimo para acumular minutos regulares no Santos e aparecer em condições de ser avaliado pela comissão técnica.
A Copa começa em 11 de junho — e o relógio não espera
O Brasil estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos no dia 13 de junho, pelo Grupo C, que inclui ainda Haiti e Escócia. O torneio, que reúne 48 seleções em 12 grupos, vai até 19 de julho. Ancelotti tem um elenco praticamente formado, com goleiros Alisson, Ederson e Bento já confirmados na lista divulgada em abril, e o restante do grupo em processo de definição.
Para Neymar entrar nessa lista, a equação é simples na teoria e complexa na prática: jogar, ser titular, completar partidas sem poupamento e entregar números que justifiquem uma vaga em detrimento de atletas que estão em ritmo de jogo pleno na Europa. É o mesmo cenário que Ronaldo Fenômeno viveu em 2006 — convocado pela história, cobrado pelo presente, e com o físico como árbitro final da decisão.









