"O Haiti é uma boa equipe e está ranqueado em um nível semelhante ao nosso, então sentimos que isso oferece um teste perfeito enquanto nos preparamos para a estreia." A frase é do técnico neozelandês Darren Bazeley — e, paradoxalmente, ela resume o que Carlo Ancelotti também precisava escutar antes de 19 de junho. Se o rival que vai ao amistoso com a intenção de testar a si mesmo considera o Haiti um adversário de nível equivalente, o Brasil deveria prestar atenção redobrada ao que aconteceu nesta terça-feira, 2 de junho, no Chase Stadium, em Fort Lauderdale.

O Haiti nas Eliminatórias e o mito do adversário fácil no Grupo C

A narrativa dominante coloca o Haiti como o ponto mais fraco do Grupo C da Copa do Mundo, ao lado de Brasil, Marrocos e Escócia. A leitura tem algum fundamento estatístico — o ranking FIFA da seleção caribenha é modesto —, mas ignora um dado concreto: o Haiti terminou a terceira fase das Eliminatórias da Concacaf em primeiro lugar isolado, com 11 pontos, sem sofrer uma única derrota. Ao longo da campanha, eliminou Costa Rica e Honduras, seleções com histórico consolidado de Copas. Não é a trajetória de uma equipe que se classifica por acidente.

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A contra-leitura, portanto, é legítima. O técnico Sébastien Migné montou um bloco defensivo disciplinado que concede em média 1,10 gol por partida, ao mesmo tempo que apoia o ataque em transições rápidas protagonizadas por Duckens Nazon — maior artilheiro do elenco atual, com 18 gols em 45 jogos na temporada 2024/25 entre Kayserispor e seleção — e Wilson Isidor, do Sunderland, que aparece como a nova esperança ofensiva para esta Copa. Isidor viveu jejum de três meses sem marcar na Inglaterra, mas Migné construiu a preparação contando com o seu ressurgimento justamente neste ciclo de amistosos.

O amistoso contra a Nova Zelândia, transmitido pelo SporTV, foi o primeiro de dois jogos desta semana para os haitianos. O segundo acontece na sexta-feira, 5 de junho, diante do Peru. A estreia no Mundial está marcada para 13 de junho, em Boston, contra a Escócia — o que significa que Migné tem uma semana de trabalho intenso antes de entrar em campo pela primeira vez na competição.

Jean-Ricner Bellegarde e a engrenagem tática que o Brasil não pode subestimar

Há um personagem neste elenco que merece atenção especial dos analistas brasileiros: Jean-Ricner Bellegarde, meia do Wolverhampton, é o eixo de criação do Haiti. Junto a Wilson Isidor — que alterna entre a ponta e o centro do ataque — e ao veterano zagueiro Adé, de 36 anos, formado na LDU do Equador, Bellegarde representa a espinha dorsal técnica de uma equipe que não tem estrelas de vitrine, mas tem organização funcional.

A Nova Zelândia chegou ao amistoso com média de 2,55 gols marcados por partida e Chris Wood — artilheiro da seleção nas Eliminatórias e peça-chave do Nottingham Forest, onde fez dupla com Igor Jesus na temporada 2025/26 — como referência ofensiva central. Esse duelo de propostas opostas é precisamente o tipo de jogo que revela a solidez de uma defesa sob pressão. A retaguarda haitiana, que inclui o capitão Johny Placide no gol — embora lesionado para este amistoso —, tem mostrado capacidade de resistir a ataques físicos e diretos, o estilo que a Nova Zelândia pratica com consistência.

Como registrado por SportNavo ao longo desta fase de preparação, os adversários do Grupo C têm perfis táticos radicalmente distintos entre si. Marrocos aposta na organização posicional europeia; a Escócia usa pressão intensa e bolas longas; o Haiti joga no contra-ataque com velocidade nas transições. São três problemas táticos diferentes que Ancelotti precisará resolver em sequência, começando pelo Marrocos em 13 de junho e chegando ao Haiti em 19 de junho.

A síntese que o amistoso desta terça oferece à comissão técnica brasileira

Há um paralelo histórico que ilumina a discussão. Na Copa de 1974 — única participação anterior do Haiti em Mundiais —, a seleção caribenha foi eliminada na fase de grupos com três derrotas, incluindo um 7 a 0 para a Polônia de Grzegorz Lato. Mas a comparação direta com aquele elenco seria anacrônica: o futebol haitiano de 2026 é estruturalmente diferente, com jogadores atuando em ligas europeias e um técnico francês experiente no comando.

A síntese que o amistoso contra a Nova Zelândia oferece é esta: o Haiti não vai ao Brasil para participar — vai para competir. A campanha invicta nas Eliminatórias da Concacaf, com vitórias sobre Costa Rica e Honduras, não foi obra do acaso, e os números defensivos (1,10 gol sofrido por jogo) indicam que Migné construiu uma equipe que sofre pouco, mesmo que marque com menos regularidade (média de 1,4 gols marcados nos últimos cinco jogos, com 0,5 nos amistosos mais recentes). O risco para o Brasil não é o Haiti ganhar — é o Brasil jogar mal e perder pontos que podem ser decisivos para a classificação como primeiro do grupo.

"O Haiti mostrou competitividade durante as eliminatórias da Concacaf", apontam as análises pré-jogo, "e a seleção caribenha não deve se intimidar diante de adversários ranqueados acima."

A partida de 19 de junho, no estádio a ser confirmado pela FIFA, será a segunda rodada do Grupo C para ambas as seleções — o que significa que o placar do duelo Brasil x Marrocos (13 de junho) vai condicionar diretamente o grau de risco que Ancelotti pode assumir. Se o Brasil chegar à segunda rodada com três pontos, o amistoso desta terça serve como o roteiro de um oponente já estudado. Se chegar empatado ou derrotado, o Haiti se transforma em partida obrigatória de vitória — e aí, como numa partitura que começa no grave e exige uma resolução no agudo, cada detalhe observado hoje em Fort Lauderdale terá peso de nota decisiva.