Quantos museus de automobilismo no mundo conseguem triplicar sua visitação em seis anos antes mesmo de abrir as novas portas? O antigo Musée des 24 Heures du Mans saiu de um fluxo modesto para 208.500 visitantes anuais entre 2018 e 2024 — e ainda assim o Automobile Club de l'Ouest decidiu que aquilo não era suficiente. A estrutura original de 1961, remontada em 1991, havia ficado para trás. Não em história, mas em linguagem.
O que nasce em 28 de maio de 2026 não é uma reforma cosmética. O M24 Motorsport Museum é uma ruptura conceitual, física e narrativa com o modelo de museu que o automobilismo praticou por décadas — aquele modelo onde o carro está ali, você o vê, tira uma foto e vai embora sem entender por que ele importa.
De vitrine de carros a máquina de contar histórias
O antigo museu funcionava como uma linha do tempo estática: carros enfileirados, placas explicativas, pouca interação. Pierre Fillon, presidente da ACO, foi direto ao ponto na apresentação do projeto no Salão Rétromobile, em Paris:
"Os visitantes não vêm mais só para ver um carro atrás do outro. Eles querem entender e sentir como era. Eles querem fazer parte de uma história. O M24 está na encruzilhada entre nosso patrimônio e nosso futuro."
A resposta arquitetônica veio com Frédéric Audevard, responsável pelo projeto que expandiu a área de exposição para 8.600 m² — um terço a mais do que a estrutura anterior comportava. O telhado original recebeu revestimento de zinco, e uma cobertura verde foi adicionada à extensão nova, integrando o edifício à paisagem da região de La Sarthe. Foram 23 empresas envolvidas na construção, a maioria delas locais.

A cenografia, concebida por Raphaël Daguet, divide a experiência em dois blocos narrativos: o primeiro dedicado à história das 24 Horas de Le Mans e do endurance em geral; o segundo abrindo o olhar para a Fórmula 1, o rali, os rally-raids, o IndyCar e a cultura automobilística americana. Cada carro funciona como ponto de entrada para uma era específica — não como objeto de contemplação, mas como gatilho de narrativa.
Uma coleção que une dois acervos históricos
A parceria entre a ACO e Richard Mille, formalizada em 2022 com a criação da empresa MACO, é o que torna o acervo do M24 verdadeiramente singular. De um lado, o patrimônio centenário da organização que comanda a corrida mais longa do calendário do WEC. Do outro, a coleção pessoal de Mille — construída ao longo de décadas com peças de endurance, F1, F2, rali, hill climbing e categorias americanas como o CanAm.
"A ideia não é acumular carros, mas contar histórias. Destacar peças extraordinárias da mesma forma que exibimos obras de arte, para despertar emoção, curiosidade e admiração."— Richard Mille, na apresentação do projeto.
O resultado são mais de 120 veículos em exposição, entre eles o Bentley 3 Litros vencedor de 1924 — o mais antigo sobrevivente de uma vitória nas 24 Horas —, o Ford GT40 de 1965, a Matra 670B, a Ferrari F2002 de Michael Schumacher e o Lancia Stratos. Objetos raros completam o acervo: destaque para o macacão usado por Ayrton Senna, revelado durante a coletiva de imprensa no Rétromobile. O museu também receberá peças em rotatividade, como o Porsche 959 vencedor do Dakar de 1986, emprestado pelo Porsche Museum, e planeja duas exposições temporárias por ano.
Hamilton como patrono e a Mercedes W09 que fez história
Neto — mas não nos gramados. No paddock. Lewis Hamilton foi anunciado como patrono do M24, um papel que vai além de emprestar o nome ao projeto. O heptacampeão da Fórmula 1 terá exposta no museu a Mercedes W09, monoposto com o qual conquistou seu quinto título mundial em 2018 — um carro que redefiniu os parâmetros de dominância técnica na era híbrida da F1, com 11 vitórias em 21 corridas naquela temporada.
Hamilton foi categórico sobre o que o espaço representa:
"O que foi construído aqui vai muito além de um museu de automóveis. O M24 conta histórias das corridas, das pessoas envolvidas e das tecnologias que fizeram das 24 Horas de Le Mans e do automobilismo algo tão especial."
A presença da W09 posiciona o M24 num patamar incomum para um museu de endurance: trazer para dentro de Le Mans um símbolo da Fórmula 1 moderna, categoria que nunca disputou as 24 Horas, mas que compartilha com o circuito da Sarthe a mesma linguagem de excelência técnica e sacrifício humano. Na avaliação do SportNavo, é exatamente essa ampliação de escopo — do endurance para o universo completo do automobilismo — que diferencia o M24 de qualquer iniciativa anterior no circuito francês.
Impacto real para o turismo e para os fãs da categoria
Os números justificam a ambição. Fillon e Mille estabeleceram a meta de 300.000 visitantes anuais nos primeiros dois ou três anos — crescimento de quase 50% sobre o pico anterior. O M24 funcionará durante todo o ano, com entrada gratuita para portadores de ingresso das 24 Horas de Le Mans durante a semana da prova, programada para os dias 10 a 14 de junho de 2026.
A estrutura também contempla um restaurante, uma loja e salas de seminário para eventos corporativos — transformando o museu em polo cultural permanente, não apenas em ponto de passagem no fim de semana da corrida. O presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, esteve presente na apresentação oficial, sinalizando o respaldo institucional ao projeto que a ACO e Richard Mille constroem desde 2022.
A pedra fundamental foi lançada em 28 de maio de 2025, data que coincidiu com o 120º aniversário do ACO. Exatamente um ano depois, o museu abre as portas ao público. A construção está concluída — falta apenas o mundo descobrir o que há dentro.










