Três coisas: estrutura jurídica, carga tributária e poder de voto. Tudo o que está em jogo na discussão sobre a possível transformação do Palmeiras em SAF se resume a esses três eixos — e entender cada um deles é o que separa o debate sério do barulho político.
O modelo que já existe no papel desde Galiotte
O Palmeiras possui, desde a gestão de Maurício Galiotte, um estudo detalhado sobre como se tornar uma Sociedade Anônima do Futebol sem necessariamente ter um dono privado. O mecanismo prevê que 100% das ações permaneçam com a própria associação — ou seja, o clube viraria SAF apenas no formato jurídico, sem vender participação a investidor externo. A consequência imediata seria tributária: o clube passaria a recolher impostos na alíquota de SAF, que historicamente foi inferior à cobrada de clubes associativos.
O comentarista Danilo Lavieri, da Live do Palmeiras no Canal UOL, explicou o mecanismo com precisão:
"O Palmeiras tem, desde a gestão do Galiotte, um estudo pronto para virar SAF de associação. O que significa isso? É virar SAF sem dono, só no papel. E aí o Palmeiras pagaria imposto que nem SAF, mas continuaria como uma associação."
Essa lógica, porém, recebeu um golpe direto na quarta-feira (13 de maio): a Câmara dos Deputados aprovou a redução de impostos para os clubes associativos, aproximando as alíquotas dos dois modelos. Com isso, parte do argumento econômico que sustentava a migração para SAF perde força imediata — pelo menos enquanto a nova legislação não for regulamentada e aplicada na prática.
Leila defende o modelo, PVC defende Leila
A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, acendeu a discussão ao declarar, em entrevista à CazéTV, que é favorável à transformação em SAF — não necessariamente do Palmeiras, mas como modelo para o futebol brasileiro. A fala tinha alvo claro: o Flamengo, que lidera um movimento para redução de impostos para clubes associativos.
"Tudo o que for para influenciar e fazer com que os clubes se transformem em empresas, eu estou de acordo. Não quer pagar mais? Transforme-se em SAF. Não precisa vender o clube. Se transforme em SAF e 100% das ações podem pertencer à associação", disse Leila.
O jornalista Paulo Vinicius Coelho saiu em defesa da dirigente, separando a opinião pessoal dela da política institucional do clube:
"Ela não falou que o Palmeiras tem que virar SAF. Ela falou que ela é a favor do modelo SAF em comparação ao modelo associativo. Isso não está em discussão dentro do clube", afirmou PVC no UOL. A distinção é relevante do ponto de vista jurídico: para que a transformação aconteça, seria necessária aprovação do Conselho Deliberativo, de uma assembleia e dos associados — três instâncias que Leila, até o momento, não mobilizou formalmente.
Quando faz declarações favoráveis ao modelo SAF, Leila alimenta um debate que fortalece sua posição frente a adversários políticos no futebol brasileiro. Quando deixa claro que não levou a proposta ao Conselho, ela protege sua gestão de um desgaste interno que poderia custar caro numa eventual reeleição.
O pano de fundo que complica o discurso palmeirense
A discussão sobre SAF no Palmeiras não existe no vácuo. Ela vem acompanhada de um episódio que levantou questionamentos sobre conflito de interesses envolvendo a própria Leila Pereira. A Crefisa, empresa financeira comandada pela presidente alviverde, negociou um empréstimo de R$ 80 milhões ao Vasco — clube que disputa o mesmo Campeonato Brasileiro que o Palmeiras. Nas cláusulas originais do acordo, o Vasco deixaria 20% das ações da sua SAF como garantia, o que daria à Crefisa poder de veto dentro da estrutura do clube carioca.
O advogado Pedro Henrique Zaithammer, do escritório Suttile&Vaciski, abordou o caso no Estadão, apontando que a situação poderia se enquadrar na Lei Geral dos Esportes (Lei nº 14.597/2023), que proíbe que a mesma pessoa física ou jurídica controle ou tenha participação acionária em duas ou mais equipes que disputem a mesma competição. As cláusulas foram posteriormente alteradas, mas o episódio deixou marcas no discurso de Leila sobre governança e transparência.
O comentarista Paulo Massini, também na Live do Palmeiras no UOL, foi direto ao resumir o estado atual do modelo SAF no Brasil:
"A SAF, no modelo que estamos vivendo, foi demonizada, mas existem outros modelos que podem ser saudáveis. No Brasil, conta-se em uma mão quais SAFs são saudáveis. Vasco e Botafogo, por exemplo, deram com os burros n'água."Massini defendeu criatividade para atrair capital externo sem necessariamente vender o controle do clube — uma posição que serve como pulmão do debate para quem não quer nem o modelo associativo puro nem a SAF com dono.
Quando se analisa o histórico recente, o Palmeiras de 2016 para cá conquistou quatro Brasileirões, duas Libertadores e uma Copa do Brasil — tudo como clube associativo, com Leila e a Crefisa como pilar financeiro central. Esse dado estatístico é a maior arma dos que resistem a qualquer mudança estrutural: por que mexer em time que venceu?
Enquanto a discussão segue em aberto nos bastidores, o clube entrou em campo nesta quarta-feira (13) com escalação alternativa para enfrentar o Jacuipense pelo jogo de volta da quinta fase da Copa do Brasil, no Estádio do Café, em Londrina, a partir das 21h30. Abel Ferreira escalou Marcelo Lomba; Khellven, Gustavo Gómez, Benedetti e Jefté; Emiliano Martínez, Lucas Evangelista, Mauricio e Felipe Anderson; Erick Belé e Luighi — poupando titulares após construir vantagem de três gols no Allianz Parque. O jogo é, por si só, um símbolo do momento do clube: tecnicamente confortável em campo, politicamente em ebulição fora dele.








