Primavera de 2026, e o Real Madrid encerra sua temporada europeia com um saldo que nenhum torcedor merengue consegue defender sem algum constrangimento. Saídas precoces, pontos perdidos em partidas que deveriam ser rotina e um estilo de jogo que raramente convenceu — a diretoria de Florentino Pérez já havia sinalizado, ainda em março, que uma mudança no comando técnico era inevitável. O nome que circula nos corredores de Valdebebas com crescente insistência é o de José Mourinho.
Segundo informações divulgadas pelo site The Touchline, a chegada do treinador português é descrita como praticamente certa. O clube já teria inclusive delineado os objetivos concretos que serão exigidos do técnico na temporada 2026/2027 — a começar pela conquista de La Liga e uma presença mínima nas semifinais da Champions League. Há ainda uma terceira missão, menos glamourosa mas talvez a mais urgente: reorganizar um vestiário que, nas últimas semanas, foi descrito internamente como particularmente tenso… e aí vem o problema.
A temporada que forçou o Real Madrid a buscar Mourinho de volta
Para entender a magnitude do que aconteceu nesta temporada, basta comparar com alguns ciclos históricos. O Real Madrid de 1997/1998 — aquele que Fabio Capello havia erguido, com 92 pontos em La Liga — foi substituído por uma equipe que chegou ao sétimo lugar no campeonato seguinte. A crise daquela época custou três técnicos em dois anos antes de Guus Hiddink e, depois, Vicente del Bosque estabilizarem o navio. Algo estruturalmente parecido parece estar em curso agora: uma equipe recheada de talento individual que, coletivamente, não encontrou identidade. Vinicius Jr., Bellingham e Mbappé somaram números individualmente razoáveis, mas a soma das partes ficou muito abaixo do esperado para um elenco de tal calibre.
O Barcelona, que venceu La Liga 2025/2026 com folga, serve de contraponto doloroso. Enquanto os catalães apresentaram coerência tática semana a semana — algo que lembra o Barça de Pep Guardiola nos títulos consecutivos de 2009/2010 e 2010/2011 —, o Real oscilou de forma que analistas espanhóis classificaram como a pior campanha merengue em La Liga desde a temporada 2012/2013. Não por acaso, aquele também foi o último ano de Mourinho no clube, num ciclo que terminou com ruídos e acusações mútuas.
Mourinho e o Real Madrid — uma história que nunca terminou direito
De 2010 a 2013, José Mourinho comandou o Real Madrid em 178 jogos oficiais, com uma taxa de aproveitamento superior a 72%. O título de La Liga na temporada 2011/2012 — conquistado com recorde histórico de 100 pontos — permanece até hoje como a campanha mais dominante de qualquer equipe espanhola no formato de pontos corridos. Aquela temporada, com saldo de gols de +89, é frequentemente citada como parâmetro de excelência em análises táticas europeias.
Mas o treinador português também deixou cicatrizes. A relação com Iker Casillas deteriorou-se publicamente, o conflito com Sergio Ramos gerou episódios que vazaram para a imprensa espanhola, e a derrota nas semifinais da Champions de 2013 para o Borussia Dortmund — por 4 a 3 no placar agregado — marcou o fim de um ciclo que prometia mais. Nas palavras do próprio Mourinho, em entrevista posterior,
"O Real Madrid é o clube que mais amei na minha carreira, e também aquele que me deixou mais incompleto."
Desde então, passagens por Chelsea (duas vezes), Manchester United, Tottenham, Roma e Fenerbahçe construíram uma trajetória irregular mas sempre marcante. Na Roma, entre 2021 e 2024, chegou a conquistar a Conference League de 2021/2022 — o primeiro título europeu da história do clube romano. No Fenerbahçe, encerrou seu contrato em março de 2026 após desentendimentos com a diretoria turca, ficando livre exatamente no momento em que o Real Madrid começava a definir sua reestruturação técnica.
Os objetivos concretos que Florentino colocou na mesa
A diretoria merengue, conforme apurado pelo The Touchline e analisado com detalhamento pelo SportNavo, teria estruturado três pilares centrais para o trabalho de Mourinho. O primeiro — e mais óbvio — é vencer La Liga, preferencialmente superando o Barcelona na disputa. O segundo é chegar às semifinais da Champions League, meta que o clube não alcança há duas temporadas consecutivas. O terceiro é menos mensurável mas politicamente o mais sensível: reestabelecer uma cultura de vestiário coesa, algo que figuras como Luka Modric — ainda no elenco aos 40 anos, em papel de liderança — e o jovem Endrick têm cobrado publicamente.
"Um vestiário dividido não ganha nada, independentemente de quanto você gasta no mercado", declarou uma fonte próxima à diretoria do Real Madrid ao The Touchline.
A cláusula de uma temporada para provar sua utilidade reflete, por um lado, a cautela de Florentino diante das experiências passadas — e, por outro, a consciência de que Mourinho não costuma aceitar contratos sem poder real de decisão. Nos bastidores, há relatos de que o treinador condicionou sua aceitação ao controle sobre contratações de pelo menos dois jogadores posicionais que considera essenciais para seu sistema.
Historicamente, treinadores que retornam a clubes onde já trabalharam carregam um peso específico: a comparação com a própria versão anterior. Carlo Ancelotti viveu isso em sua segunda passagem pelo Real Madrid, iniciada em 2021 — e surpreendeu ao conquistar La Liga em 2021/2022 e a Champions em 2021/2022. Mourinho, contudo, chega num contexto distinto: não como redenção pessoal, mas como resposta de emergência a uma crise real. É o mesmo cenário que o Manchester United viveu em 2016, quando chamou o português para reconstruir o clube depois do caos deixado por Louis van Gaal — só que agora a aposta é diferente.








