Um tribunal pode ser ao mesmo tempo o lugar da verdade e o palco das contradições mais irreconciliáveis. Na quinta audiência do segundo julgamento pela morte de Diego Maradona, realizada nesta terça-feira (18) nos Tribunais de San Isidro, nos arredores de Buenos Aires, depoimentos de pessoas que estiveram ao lado do Diez nos últimos dias de vida revelaram versões que se cruzam, se completam e, às vezes, se anulam. O paradoxo do processo é esse: quanto mais testemunhos chegam, mais difuso fica o contorno de quem, de fato, decidiu o destino de Maradona.
Ojeda aponta dois nomes e apresenta um áudio de mais de uma hora
O depoimento mais aguardado do dia foi o de Verónica Ojeda, ex-companheira de Diego e mãe de Dieguito Fernando. Diante dos juízes, ela foi direta: o médico de cabeceira Leopoldo Luque e a psiquiatra Agustina Cosachov foram os responsáveis pela decisão de internar Maradona em regime domiciliar, na casa do country San Andrés, em Tigre, onde o ex-jogador morreu em 25 de novembro de 2020. A Clínica Olivos, segundo o que já havia sido narrado no primeiro julgamento — anulado em maio de 2025 por conduta inadequada de uma juíza —, recomendou que o tratamento pós-cirúrgico ocorresse em uma clínica de reabilitação.
Ojeda foi além das palavras e pediu a incorporação de uma gravação ao processo: um áudio de mais de uma hora da reunião em que se definiu a internação domiciliar. O juiz Alberto Gaig aceitou o pedido com a seguinte justificativa, reproduzida pela imprensa argentina:
"Entendemos que não é prova nova, mas entendemos que resulta pertinente. É necessário para estabelecer os fatos e, em particular, para avaliar a integridade do material previamente incorporado, frente ao qual se disse que podiam existir indícios de corte."
No detalhe humano do depoimento, Ojeda também descreveu visitas ao country durante a internação. "Lo vi, estaba bien. Estaba tomando una sopa", disse ela, em espanhol, ao tribunal — uma imagem doméstica que contrasta, de forma quase cruel, com o que viria dias depois.
Rita Maradona e a versão da família mais próxima do sangue
Antes de Ojeda, quem abriu a sessão foi Rita Maradona, irmã de Diego, cujo testemunho concentrou a perspectiva da família consanguínea sobre a qualidade do atendimento recebido pelo ex-jogador. Rita é uma das vozes que mais contrasta com a narrativa da equipe médica acusada — os sete profissionais de saúde que respondem ao processo por possível abandono de pessoa e negligência durante a internação domiciliar.
O depoimento de Rita funcionou como uma espécie de moldura para o que viria depois com Ojeda: enquanto a irmã falou sobre a atenção geral dispensada a Diego, a ex-companheira detalhou a cadeia de decisões que levou à escolha do domicílio em vez da clínica. As duas versões se complementam sem se sobrepor — um arranjo narrativo que o SportNavo identificou como central para entender a estratégia da acusação neste segundo debate oral.
Falha técnica interrompe a audiência no momento mais tenso
A sessão desta terça não chegou ao fim. Um problema nos microfones da sala forçou o tribunal a declarar um recess — um intervalo que se estendeu até a próxima quinta-feira. O psicólogo Carlos Díaz, um dos sete imputados, havia pedido para ampliar sua própria indagatória, mas não chegou a falar. Ojeda tampouco concluiu seu depoimento, que será retomado na próxima sessão.
A ironia operacional não passou despercebida: num julgamento que debate se havia estrutura mínima para cuidar de Maradona numa residência particular, foi a infraestrutura técnica do próprio tribunal que falhou. A audiência, que seguia como uma engrenagem bem azeitada após o trauma do primeiro processo anulado, parou por causa de um microfone.
O que está em jogo para os sete imputados antes da quinta-feira
O segundo debate oral teve início em 14 de abril e já acumula doze audiências. Além de Luque — principal acusado, cujos advogados confirmaram que ele voltará a depor após o episódio da semana passada, quando exibiu um vídeo da autopsia de Maradona que causou crise nervosa em Gianinna Maradona — e de Cosachov e Díaz, outros quatro profissionais de saúde também respondem ao processo.
Na quinta-feira, o tribunal escutará o áudio recém-incorporado da reunião na Clínica Olivos, Ojeda retomará seu depoimento e Díaz terá a chance de ampliar sua defesa. Será também o dia em que Jana Maradona, filha caçula de Diego, de 30 anos, está prevista para depor — ela que, no primeiro julgamento, declarou que Luque "estaba indignado" quando a clínica sugeriu a reabilitação institucional. O tribunal de San Isidro, nessa quinta, vai ouvir exatamente a voz que pode transformar o áudio de Ojeda num elo definitivo da cadeia de responsabilidades.










