Não é o aproveitamento de 52,1% que mais preocupa a diretoria do São Paulo. O número, isolado, seria tolerável em qualquer diagnóstico de início de ciclo. O que incomoda é o padrão das derrotas — e o clássico deste domingo (10) contra o Corinthians entregou mais uma amostra precisa desse padrão.

O vestiário antes do Majestoso e os sinais que já estavam lá

Nos bastidores do Morumbi, a escalação com Bobadilla e Danielzinho no meio-campo era lida por parte do grupo como uma aposta de risco. Marcos Antonio, peça de maior capacidade de cobertura e transição no setor, ficou fora. A ausência pesou: sem ele, o miolo ficou exposto na saída de bola do Corinthians e foi exatamente por ali que Raniele abriu o placar antes dos 15 minutos do primeiro tempo, aproveitando cruzamento de escanteio no primeiro pau pelo lado direito — uma falha de marcação posicional que os próprios jogadores reconheceram como inaceitável.

Luciano empatou ao explorar vacilo de Raniele e Hugo Moura, mas a produção tricolor praticamente encerrou naquele lance. No segundo tempo, o São Paulo não criou, não ameaçou com consistência e não encontrou respostas táticas para reverter a vantagem alvinegra.

Roger Machado em campo — as respostas que não vieram no intervalo

Em 16 jogos sob Roger Machado, o São Paulo soma sete vitórias, quatro empates e cinco derrotas. O aproveitamento de 52,1% fica abaixo dos 55,71% que o treinador registrou no Internacional, onde comandou 73 partidas com 34 vitórias, 20 empates e 19 derrotas. A queda de rendimento, ainda que marginal nos percentuais, acontece num contexto de maior pressão institucional.

O que ampliou o desconforto no domingo foi a gestão de jogo: Roger não realizou mudanças no intervalo com o placar em 1 a 1 e só reagiu depois de já estar perdendo por 3 a 1. A demora custou pontos e credibilidade.

"Quando um técnico não mexe no intervalo num clássico empatado, ele está apostando que o time vai se ajustar sozinho. Às vezes funciona. Quando não funciona, a conta vem dobrada", avaliou um comentarista esportivo que acompanhou a partida na cabine de transmissão.

A confusão nas arquibancadas acrescentou outro capítulo ao jogo. Após o gol de empate, Luciano comemorou próximo à bandeirinha de escanteio do Corinthians fazendo gesto de "arma" apontado para o brasão rival. A reação da torcida alvinegra foi imediata: Calleri foi atingido por um óculos e um isqueiro arremessados das arquibancadas. O jogo parou por dez minutos enquanto o VAR analisava também o gesto de Bobadilla após o primeiro gol. O árbitro Anderson Daronco foi ao monitor e optou por não punir o atleta.

Nas palavras do próprio Daronco, captadas pelo sistema de áudio:

"Após revisão, percebo o jogador do São Paulo comemorando o gol. Ele não encosta a mão na sua genitália. Ele comemora como situação de raça, ok? Sem cartão."

A mesa de decisão e o que a diretoria do São Paulo precisa calcular agora

O ambiente de cobrança em torno de Roger não é novo — ele convive com pressão desde o anúncio de sua contratação, ainda no final de 2025, e nunca conquistou adesão irrestrita da torcida tricolor. Dois meses depois, a relação segue tensa: nenhum clássico vencido, falhas defensivas que se repetem com frequência e um meio-campo que oscila conforme as peças disponíveis.

A diretoria avalia o cenário com atenção, mas sem pressa imediata de ruptura. O São Paulo tem uma oportunidade concreta de alterar a narrativa já na quarta-feira: enfrenta o Juventude em Caxias do Sul, pelo jogo de volta da quinta fase da Copa do Brasil, com vantagem mínima construída no jogo de ida. Uma classificação não resolve os problemas estruturais identificados nas últimas semanas — meio-campo sobrecarregado, fragilidade em bolas paradas defensivas, baixa produção ofensiva após o primeiro gol marcado — mas abriria margem de manobra para o treinador trabalhar com menor pressão imediata. Perder, por outro lado, colocaria a questão do cargo em pauta de forma direta.