A última vez que um atacante brasileiro chegou a uma Copa do Mundo carregando tantas dúvidas sobre a própria condição física foi em 2006, quando Ronaldo Fenômeno disputou o direito de uma vaga na lista de Parreira com apenas 16 jogos na temporada pelo Real Madrid. Ele foi convocado, marcou três gols na Alemanha e saiu do torneio como artilheiro histórico. Neymar, aos 34 anos, não é o Fenômeno — mas o paralelo serve como régua para entender por que a comissão técnica da Copa do Mundo voltou a colocar seu nome sobre a mesa.
Os nove jogos que mudaram o debate interno na CBF
Desde o encerramento da última Data Fifa, Neymar entrou em campo em nove das doze partidas do Santos — um intervalo de 42 dias que, na prática, reproduz a carga de uma fase de grupos mais oitavas de final. Nesse recorte, o camisa 10 registrou 3 gols e 2 assistências, números que, sozinhos, não impressionam, mas que ganham peso quando combinados com a sequência de disponibilidade. Antes desse ciclo, ele era tratado internamente como quase descartado; agora, segundo informações da ESPN, seu nome é debatido como possibilidade real.
No Brasileirão 2026 especificamente, os dados são mais cautelosos: média de 1,2 finalizações por jogo — abaixo dos 2,1 que registrava em sua última temporada completa pelo PSG — e 78% de passes certos, índice que coloca Neymar em patamar razoável, mas inferior ao de criadores de jogo como Raphinha, que opera acima de 84% na mesma métrica pela Seleção. Com 14 jogos no ano e entrando em campo em nove dos últimos 12, ele afastou minimamente a ideia de que não aguentaria uma sequência de alta intensidade.

O que ex-companheiros enxergam nos números
O debate extrapolou os bastidores da CBF e chegou a vozes históricas do futebol brasileiro. Cafu, capitão do penta em 2002, foi direto ao ponto:
"A qualidade técnica do Neymar é indiscutível. Óbvio que se ele estiver bem, jogando, motivado, claro que ele vai ser convocado, sem sombra de dívida."
Casemiro, volante titular da Seleção e companheiro de Neymar em ciclos anteriores, foi ainda mais preciso na proposta de uso:
"Se dependesse de mim, eu o levaria para a Copa do Mundo. Minha decisão seria dizer: 'Neymar, você não precisa jogar todas as partidas'. Para mim, o ideal é ele entrar quando o jogo estiver aberto."
A fala de Casemiro sintetiza o argumento central dos favoráveis à convocação — Neymar como recurso pontual, não como titular fixo. Mas essa lógica tem um custo: ocupa uma das 26 vagas com um atleta cuja minutagem seria restrita, o que pressiona nomes como João Pedro, do Chelsea, que vê sua posição ameaçada justamente por essa dança de cadeiras.
O jogo de domingo como vitrine final antes da lista
Neste domingo, 17 de maio, o Santos recebe o Coritiba na Neo Química Arena pela 16ª rodada do Brasileirão — com ingressos esgotados e o clube na 15ª posição, a um ponto da zona de rebaixamento. Será a última apresentação de Neymar antes do anúncio da convocação, marcado para segunda-feira, 18 de maio, às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Carlo Ancelotti — que renovou contrato com a CBF até 2030 — reforça ao seu círculo mais próximo que a decisão sobre Neymar só será tomada momentos antes da divulgação da lista.
Internamente, a CBF ainda está dividida: uma ala acredita que Ancelotti tem habilidade para gerenciar a situação com Neymar dentro do grupo; outra avalia que, sem o impacto técnico de outros tempos, a solução tem mais chances de virar problema nos Estados Unidos. A resposta oficial chega em menos de 72 horas.
O que os dados indicam sobre a probabilidade real
Analisando friamente os números, Neymar apresenta em 2026 um perfil de jogador funcional — não dominante. A média de 1,2 finalizações por jogo é modesta para um atacante de referência em Copa do Mundo; em 2014 e 2022, ele operava acima de 2,4 por partida com a Seleção. A taxa de 78% de passes certos no Brasileirão é compatível com um meio-campista de construção, não com um camisa 10 que deve desequilibrar individualmente. O que mudou, comparado aos meses anteriores, foi a consistência de presença — e esse é o argumento mais sólido que Neymar tem sobre a mesa de Ancelotti.
No domingo, sob os holofotes de uma Neo Química Arena lotada, Neymar entra em campo com a chance de fechar seu dossiê com um número a mais — gol, assistência, ou simplesmente 90 minutos sem recair. Ancelotti assiste de longe. A lista sai na segunda.









