— Mas ele fez 8 gols, cara. Não é ruim.
— Não é ruim, mas também não é o que a gente precisava ver.
— Então você não leva?
— Eu levo, mas com medo.
Essa conversa, repetida em bares do Méier ao Bexiga na manhã desta segunda-feira, 18 de maio, resume com uma precisão quase cruel o estado do debate em torno de Neymar às vésperas de Carlo Ancelotti anunciar os 26 nomes da Copa do Mundo de 2026. Não é uma questão de amor ou ódio ao jogador — nunca foi. A questão, hoje, é mais árida e mais incômoda do que isso: os números sustentam a convocação?
O que dizem os 22 jogos de Neymar pelo Santos em 2026
Oito gols e cinco assistências em 22 partidas pelo Santos no Brasileirão 2026. Num primeiro olhar, o rendimento parece funcional para um jogador que voltou de uma série de contusões graves — a ruptura do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, em outubro de 2023, foi a mais longa e debilitante delas. Para efeito de comparação, Romário registrou 7 gols em 16 jogos pelo Fluminense nos meses que antecederam a Copa de 1994, e foi o artilheiro do torneio com 5 tentos. O paralelo, porém, para nele mesmo: Romário tinha 28 anos e estava no pico atlético; Neymar chega a este Mundial com 34 anos e um histórico de 14 lesões musculares e ligamentares nos últimos seis anos de carreira.
O dado que mais incomoda os analistas de desempenho não é o volume de gols — é a eficiência nas finalizações. O índice de acerto nas finalizações de Neymar em 2026 está em 62%, abaixo dos 71% registrados por Vinícius Jr. no mesmo período. Quando se coloca esse número em perspectiva histórica, o contraste se aprofunda: na temporada 2022/2023, último ciclo de alto rendimento de Neymar pelo PSG antes das lesões, esse percentual beirava os 68%. A queda de seis pontos percentuais não é estatisticamente catastrófica, mas sinaliza que o jogador ainda não recuperou a precisão cirúrgica que o tornava imprevisível dentro da área.
Há, ainda, a questão da disponibilidade física. Neymar perdeu 4 jogos por lesão neste período de 22 partidas — uma taxa de ausência de aproximadamente 18% dos jogos do Santos. Em um torneio de Copa do Mundo, onde o Brasil disputará no mínimo três partidas na fase de grupos e potencialmente mais quatro no mata-mata, cada ausência equivale a um capítulo perdido de uma história sem rascunho.
A régua de Ancelotti e o que ele viu no Santos contra o Coritiba
Carlo Ancelotti foi categórico desde que assumiu o comando da Seleção Brasileira: a convocação de qualquer atleta passaria pela condição física em 100%. No começo do ano, os bastidores da CBF relatavam ceticismo do treinador italiano com a evolução de Neymar, que ele via ainda com pouca intensidade nos jogos. A declaração mais recente de Ancelotti à agência Reuters, no entanto, trouxe uma nuance importante.
"Ele melhorou muito sua forma física nos últimos jogos. Ele tem jogado algumas partidas muito boas ultimamente. Sua forma física melhorou. Ele consegue manter alta intensidade em uma partida. Mas há jogos e jogos."
Esse "mas há jogos e jogos" carrega o peso de um ponto-e-vírgula num contrato. Ancelotti, que ao longo de 30 anos de carreira como treinador — incluindo quatro títulos de Champions League pelo Milan e pelo Real Madrid — demonstrou habilidade rara para gerir estrelas sem abrir mão do coletivo, sabe que uma Copa do Mundo não é o Brasileirão. O ritmo das oitavas de final, com pressão alta, transições rápidas e adversários de nível europeu, é diferente do que se vê na rodada 16 contra o Coritiba — justamente o jogo que Neymar disputou no domingo, 17 de maio, e que terminou em derrota do Santos por 3 a 0 na Neo Química Arena.
Naquele jogo, além do placar adverso, Neymar sentiu dores na panturrilha direita durante o segundo tempo e acabou retirado de campo em meio a uma confusão com a arbitragem — o árbitro retirou o camisa 10 por erro na comunicação da placa de substituição, quando a intenção era trocar Escobar. O episódio ganhou repercussão em veículos da Argentina, Espanha, Inglaterra, Portugal e França, que classificaram a situação como "escandalosa" e "bizarra". No dia anterior à convocação mais aguardada da história recente da Seleção, a imagem que circulou pelo mundo foi a de Neymar saindo de campo contrariado, com cartão amarelo por reclamação, e uma dúvida sobre a panturrilha.
Neymar contra Vinícius e os outros candidatos à vaga de camisa 10
A discussão sobre Neymar não existe no vácuo — existe em relação direta com os outros nomes que ocupam o mesmo espaço tático na lista de Ancelotti. Vinícius Jr., com 71% de aproveitamento nas finalizações em 2026 e uma temporada de alto nível no Real Madrid, é o nome mais cotado para liderar o ataque brasileiro. Lucas Paquetá, João Pedro e Raphinha também figuram entre os pré-convocados com índices de aproveitamento superiores aos de Neymar na temporada atual.
No SportNavo, o levantamento comparativo dos dados de desempenho dos atacantes pré-convocados revela um padrão: os candidatos com mais de 65% de aproveitamento nas finalizações em 2026 têm, em média, 40% menos ausências por lesão no período. Neymar, com 62% e 4 jogos perdidos por contusão, está abaixo da média em ambos os critérios — uma combinação que, historicamente, costuma preocupar comissões técnicas em vésperas de torneios longos.
Pelé levou à Copa de 1970 jogadores que, individualmente, talvez não fossem os mais eficientes da liga brasileira naquele momento, mas que compunham um sistema coletivo irresistível. Zagallo entendia que Copa do Mundo não é seleção de craque individual — é seleção de peça certa para o momento certo. Ancelotti, que moldou o Real Madrid de 2021 a 2024 em torno de Benzema, Modric e Kroos sem jamais sacrificar o equilíbrio defensivo, parece raciocinar na mesma frequência.
Os sites de apostas, como a Superbet, apontam 74% de probabilidade de Neymar jogar ao menos um minuto na Copa, e o Polymarket registra 79% — números que subiram nas últimas semanas à medida que o jogador ganhou minutagem. Dentro do grupo da Seleção, há uma corrente forte de jogadores que defendem sua presença, e Ancelotti tem o hábito de ouvir os atletas, ainda que decida sozinho. O anúncio oficial está marcado para as 17h desta segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, com coletiva de imprensa prevista para encerrar até às 18h40.
Seja qual for a decisão, ela vai definir não apenas uma vaga entre 26 nomes, mas o modelo de Seleção que Ancelotti quer apresentar ao mundo — um time construído sobre certezas físicas ou sobre a aposta no talento que, mesmo irregular, ainda carrega 79 gols pela Seleção Brasileira e a memória coletiva de um país inteiro.











