— O Inter aprovou as contas, mas ficou apertado, né?
— Apertado como? Passou com maioria.
— Maioria de 111 votos em 247. Quase metade votou contra ou com ressalvas. Isso não é confortável.
Essa conversa, repetida em variações nos bares ao redor do Beira-Rio na noite de segunda-feira (11), resume com precisão o que aconteceu na segunda Sessão Ordinária do Conselho Deliberativo do Internacional. As contas de 2025 foram aprovadas — fato. Mas o placar interno de 111 a favor, 72 com ressalvas e 64 contrários, num universo de 247 conselheiros, revela uma gestão que ainda não conquistou consenso.
O que os números do balanço do Inter realmente dizem
Receita bruta de R$ 776 milhões, superávit de R$ 8,9 milhões e redução nominal do endividamento. Esses três indicadores formam o tripé que a diretoria de Alessandro Barcellos apresentou como argumento central para a aprovação. Em termos absolutos, o superávit de R$ 8,9 milhões sobre uma receita de R$ 776 milhões representa uma margem de apenas 1,1% — estreita, mas positiva.
A compactação da dívida nominal é o dado mais relevante para a saúde financeira de médio prazo. Clubes brasileiros que reduziram endividamento nominal entre 2022 e 2025 — como Athletico-PR e Fortaleza — conseguiram ampliar capacidade de investimento em elenco sem recorrer a venda forçada de ativos. O Inter parece trilhar essa linha.
O problema está em como se chegou a esses números — e aí entra a LFU.
A recompra dos direitos da LFU e a divergência contábil no coração do debate
O ponto de maior fricção na sessão foi o lançamento de R$ 109 milhões referente à recompra dos direitos de TV junto à Liga Forte União. O Conselho Fiscal recomendou a aprovação com ressalvas, alegando divergências na interpretação econômica da operação. Traduzindo: não há consenso sobre como esse valor deve ser classificado no balanço — se como ativo intangível, despesa diferida ou outra rubrica.
Segundo a direção colorada, a operação foi sustentada por parecer do Conselho Federal de Contabilidade, que respaldou tecnicamente os lançamentos financeiros apresentados no balanço de 2025.
A questão não é trivial. Um lançamento contábil de R$ 109 milhões pode alterar significativamente o resultado do exercício dependendo de como é tratado. Se classificado como despesa imediata, o superávit de R$ 8,9 milhões desaparece. Se amortizado ao longo de anos, o impacto anual é diluído — e o balanço fica mais favorável no curto prazo.
A LFU, formada por clubes que migraram da antiga Libra, negocia coletivamente direitos de transmissão. A recompra desses direitos pelo Internacional implica que o clube recuperou controle sobre sua janela de negociação — o que tem valor estratégico, especialmente num momento em que o mercado de TV do futebol brasileiro está em reconfiguração acelerada.
O SportNavo já mapeou como operações semelhantes de recompra de direitos têm sido contabilizadas de forma heterogênea entre clubes brasileiros, o que torna o parecer do CFC um elemento de legitimação importante, mas não suficiente para eliminar o debate técnico.
O que a votação apertada revela sobre o poder político de Barcellos
Do total de 247 conselheiros presentes, apenas 44,9% aprovaram integralmente as contas — menos da metade. A soma dos votos contrários e com ressalvas chega a 136, ou seja, 55,1% dos presentes tinham alguma objeção ao balanço apresentado.
Esse dado político é tão relevante quanto o financeiro.
A aprovação foi garantida porque os 72 votos "com ressalvas" foram computados no campo favorável para fins de validação formal. Sem eles, a gestão Barcellos teria sido derrotada. Isso cria um precedente delicado: a diretoria venceu a batalha do balanço, mas a guerra por legitimidade interna segue aberta.
O Conselho Fiscal, ao recomendar aprovação com ressalvas, sinalizou que a operação da LFU merece acompanhamento rigoroso nos próximos exercícios — uma posição que não é de oposição direta, mas também não é endosso pleno.
Clubes com governança sólida — e o Internacional historicamente se enquadra nessa categoria — tendem a ter aprovações mais amplas em seus balanços. Uma margem de 44,9% de aprovação integral é um sinal de alerta que a gestão não pode ignorar.
A próxima sessão ordinária do Conselho Deliberativo, prevista para o segundo semestre de 2026, será o termômetro real: se a operação da LFU for amortizada conforme o cronograma previsto e o clube apresentar crescimento de receita — a meta implícita seria superar os R$ 776 milhões de 2025 — a base de apoio tende a se consolidar. Caso contrário, a ressalva do Conselho Fiscal de 2025 vira argumento de oposição em 2027.
R$ 109 milhões em direitos de TV aprovados. Gestão Barcellos segue, mas sem folga.










