Se Robinho Jr. tivesse apenas reclamado nos bastidores, o episódio do CT Rei Pelé morreria num pedido de desculpas e numa mensagem no WhatsApp. Não foi isso que aconteceu. O atacante de 18 anos — filho do ex-jogador Robinho — formalizou a queixa por meio de notificação extrajudicial entregue ao Santos nesta segunda-feira (4), descrevendo três condutas específicas de Neymar durante o treino de domingo (3): xingamentos ofensivos, uma rasteira e um tapa no rosto. A partir desse momento, o caso saiu do campo das rusgas internas e entrou no terreno jurídico.

O que mudou

A diferença entre um desentendimento de vestiário e uma notificação formal é a materialidade. O estafe de Robinho Jr. não se contentou com o pedido de desculpas que Neymar fez ainda no CT — e depois reforçou por ligação e mensagens à família do garoto. O documento protocolado pela defesa do jovem exige quatro providências concretas do clube: abertura de sindicância, acesso às imagens do treino em até 48 horas, manifestação oficial sobre as medidas tomadas e agendamento de reunião para discutir possível rescisão indireta por "ausência de condições mínimas de segurança". O Santos reagiu rápido: o presidente Marcelo Teixeira autorizou a sindicância ainda no domingo, e o departamento jurídico do clube assumiu a condução formal da investigação.

AO VIVO! GE CORINTHIANS ANALISA DERROTA NO BRASILEIRÃO, LIBERTADORES E MAIS! #podcast | ge.globo

A chave do caso está nas imagens.

O que mudou O que Robinho Jr. precisa provar para ve
O que mudou O que Robinho Jr. precisa provar para ve

Sem vídeo, a palavra de Robinho Jr. enfrenta a palavra de Neymar — e, num clube em que o camisa 10 carrega o peso comercial e institucional de toda uma reconstrução pós-Série B, esse desequilíbrio é real. O treino de domingo reuniu apenas os atletas que não foram relacionados para o clássico contra o Palmeiras, no Allianz Parque, em 2 de maio — empate em 1 a 1 pelo Brasileirão. Isso limita o número de testemunhas diretas. Se as câmeras do CT Rei Pelé registraram o momento da rasteira e do tapa, a sindicância tem substância para avançar. Se não registraram, a investigação dependerá de depoimentos de companheiros que, convenhamos, dificilmente vão querer se posicionar contra o maior salário do elenco.

"O Santos FC informa que por determinação da presidência foi instaurado, logo após a ocorrência dos fatos, processo de sindicância interna para analisar o episódio que envolveu os atletas Neymar Jr. e Robson de Souza Jr (Robinho), durante o treino deste último domingo (03/5), no CT Rei Pelé. O Departamento Jurídico do Clube está responsável pela condução da sindicância."

Por que agora

O timing da notificação não é acidental. Neymar está numa corrida contra o relógio para garantir presença na convocação da Seleção Brasileira, que Carlo Ancelotti divulgará em 18 de maio, menos de duas semanas depois do incidente. O camisa 10 foi relacionado para o jogo do Santos contra o Deportivo Recoleta, pela 4ª rodada da Copa Sul-Americana, nesta terça (5), às 21h30, exatamente porque precisa de minutagem. O estafe de Robinho Jr. sabe disso. A notificação numa segunda-feira, com prazo de 48 horas, pressiona o clube num momento em que qualquer escândalo ampliado pode comprometer a imagem de Neymar diante da comissão técnica da Seleção.

A apuração do SportNavo mostra que a relação entre os dois sempre foi apresentada como a de padrinho e apadrinhado — Neymar chegou a levar Robinho Jr. ao seu camarote na Vila Belmiro durante a recuperação de lesão em 2025 e elogiava publicamente o garoto nas redes sociais. O que para o futebol argentino seria tratado como uma briga de vestiário resolvida na base do abraço e do asado, no futebol brasileiro — com seus contratos de imagem milionários e sua exposição midiática continental — vira notificação extrajudicial e manchete no jornal catalão Sport, que classificou o caso como "mais uma gafe de Neymar". O Marca, de Madri, chegou a definir o episódio como "quase um problema nacional no Brasil".

"Neymar tem estado envolvido em todo o tipo de controvérsias desde que regressou ao Santos, além de ter sofrido várias lesões que deixaram a sua equipe sem um jogador fundamental em momentos cruciais", avaliou o jornal Sport.

A repercussão internacional chegou ainda ao francês Le Parisien, que detalhou a reação de Neymar após levar o drible do garoto durante o coletivo. Três continentes cobrindo uma briga de treino diz muito sobre o nível de escrutínio ao qual o atacante está submetido a seis semanas da Copa do Mundo.

O que vem em seguida

O prazo de 48 horas dado pelo estafe de Robinho Jr. vence na quarta-feira (7). Se o Santos não entregar as imagens e não agendar a reunião sobre rescisão, a defesa do jovem promete acionar a Justiça — pedindo indenização por danos morais e materiais, além de pleitear a rescisão indireta do contrato. Para que essa ação prospere, o advogado da família precisará demonstrar que houve agressão física documentada, não apenas uma discussão acalorada. As imagens do CT são, portanto, a peça central: sem elas, a narrativa de que "a situação foi resolvida internamente" — como fontes ligadas ao Santos afirmaram ao portal ge — tende a prevalecer juridicamente.

O Santos joga contra o Recoleta nesta terça e enfrenta o Red Bull Bragantino em 10 de maio pelo Brasileirão. Neymar e Robinho Jr. foram ambos relacionados para o jogo desta semana, o que significa que os dois dividirão o mesmo espaço de trabalho enquanto a sindicância corre. A diretoria do clube tem até sexta-feira para mostrar que a investigação interna tem dentes — ou assistir ao caso migrar para o Tribunal de Justiça Desportiva e, potencialmente, para a Justiça comum.