A última vez que um atacante do Liverpool criticou publicamente a identidade tática do clube, o técnico da vez era Gérard Houllier, em 2002, e o time levava três anos sem vencer a Premier League. Agora, em maio de 2026, é Mohamed Salah — 33 anos, mais de 250 gols pela camisa vermelha, terceiro maior artilheiro da história do clube — quem aciona o alarme. Após a derrota por 4 a 2 para o Aston Villa no dia 15 de maio, o egípcio pediu publicamente o retorno ao futebol heavy metal que definiu a era Jürgen Klopp.

O número que resume o colapso do Liverpool sob Arne Slot

Dezenove derrotas. Esse é o dado que sintetiza a temporada 2025-26 dos Reds — 12 delas apenas na Premier League. Para efeito de comparação, o Liverpool de Klopp encerrou a temporada 2019-20 com apenas três derrotas no campeonato nacional e 99 pontos, maior pontuação da história da divisão. O abismo entre os dois momentos não é apenas de resultado: é de filosofia.

Arne Slot chegou ao Anfield em 2024 com reputação de treinador que privilegia posse de bola e organização posicional — um modelo mais próximo do Guardiola do que do Klopp. O problema é que o Liverpool foi construído, peça por peça, para funcionar como uma máquina de pressão alta, transições rápidas e intensidade física. Encaixar esse elenco num sistema de controle é como tentar tocar heavy metal com uma orquestra de câmara: tecnicamente possível, artisticamente errado.

"I have witnessed this club go from doubters to believers, and from believers to champions. It took hard work and I always did everything I could to help the club get there. Nothing makes me prouder than that."

A frase, publicada por Salah nas redes sociais no próprio sábado (16), não é apenas nostalgia. É um diagnóstico. O atacante deixa claro que a identidade vencedora do clube — aquele futebol de pressão incessante que Klopp chamava de gegenpressing e a mídia inglesa batizou de heavy metal football — não é negociável.

O número que resume o colapso do Liverpool sob Arne Slot O que Salah quis dizer
O número que resume o colapso do Liverpool sob Arne Slot O que Salah quis dizer

O que Klopp inventou e Slot não conseguiu preservar

Quando Klopp chegou a Anfield em outubro de 2015, o Liverpool acumulava 25 anos sem título inglês. Em cinco temporadas completas, o alemão transformou o clube: 97 pontos em 2018-19, título europeu aquele mesmo ano, e a Premier League em 2019-20 com recorde histórico de pontuação. O segredo nunca foi segredo — era trabalho físico brutal, linhas compactas e transições em alta velocidade que sufocavam os adversários antes que eles organizassem a saída de bola.

Quando faz pressão alta nos primeiros 30 metros, o Liverpool de Klopp forçava erros e criava chances em série. Quando faz posse controlada no terço médio, o Liverpool de Slot perde velocidade, previsibilidade e — como os 4 a 2 para o Aston Villa demonstraram — consistência defensiva. São duas identidades incompatíveis num mesmo elenco.

Na avaliação do SportNavo, o problema de Slot não é competência — é contexto. Treinadores de posse funcionam melhor quando moldam elencos desde a base do processo. Assumir um time construído para o caos organizado e pedir calma é receita para o tipo de temporada que o Liverpool está vivendo.

A despedida de Salah e o que ainda está em jogo em Anfield

Quando faz críticas públicas desta magnitude, Salah sabe que não há volta. Confirmada sua saída ao final da temporada — anunciada em março de 2026 —, o egípcio não tem mais nada a perder institucionalmente. O que ele tem a ganhar é deixar o clube numa posição competitiva: o Liverpool ainda precisa de um resultado positivo contra o Brentford, em 24 de maio, para garantir vaga na próxima Liga dos Campeões.

Perder essa classificação seria o ponto final mais amargo possível para uma era que produziu um dos maiores atacantes da história da Premier League. O jogo contra o Brentford, dia 24 de maio, em Anfield, é o último capítulo concreto que Salah pode influenciar — dentro ou fora de campo.