Quantas vezes um técnico de futebol chora sozinho depois de um jogo e leva três anos e meio para falar sobre isso publicamente? A pergunta não é retórica por acidente — ela define exatamente o que Tite viveu entre 9 de dezembro de 2022, quando a Copa do Mundo do Catar terminou para o Brasil, e a semana passada, quando o ex-treinador da Seleção Brasileira concedeu sua primeira entrevista exclusiva em mais de três anos e meio ao quadro Abre Aspas, do ge.

O silêncio não foi preguiça nem esquecimento. Foi luto. Um luto que ele mesmo descreveu com uma frase que ficou martelando: "Por que eu?" — indagação que o acompanhou por longo período após a derrota para a Croácia nas quartas de final, resultado que encerrou um ciclo de 81 partidas à frente da Amarelinha.

A entrevista que quebrou esse silêncio durou três horas. E o que saiu dela reorganiza a narrativa que o torcedor construiu sobre aquela noite.

A versão dominante sobre a derrota para a Croácia

A leitura mais difundida desde dezembro de 2022 é simples: Tite errou feio na ordem dos batedores de pênalti, deixou Neymar como quinto cobrador — ele nunca chegou a bater —, e ainda abandonou os jogadores ao ir direto para o vestiário assim que o último pênalti foi desperdiçado. Monja Coen, em vídeos que viralizaram no Instagram, resumiu o sentimento de boa parte do país: "Por que colocaram aquele menino loirinho que acabou de entrar? Não tá com condição, não tem emocional para isso."

Essa narrativa tem base factual. O Brasil perdeu dois dos quatro pênaltis cobrados — Rodrygo e Militão desperdiçaram — e Neymar, o jogador de maior experiência e responsabilidade técnica do grupo, sequer tocou na bola na disputa decisiva. A crítica ao posicionamento do camisa 10 na fila de cobradores é, hoje, reconhecida pelo próprio Tite.

"Todas as críticas feitas a mim pelo Neymar não ter batido o primeiro pênalti estão corretas. Eu errei", declarou o treinador. "Isso asseguraria a vitória? Não sei. Mas ele deveria ter sido o primeiro batedor."

A admissão é direta e sem rodeios. Para quem acompanhou Tite durante os seis anos e meio no cargo — de 2016 a 2022, com 30 jogos de invencibilidade nas Eliminatórias —, o gesto de reconhecer o erro publicamente não é trivial.

A contra-leitura que desafia a culpa exclusiva do técnico

Mas reduzir a eliminação a uma única decisão equivocada na ordem dos pênaltis é ignorar o que o próprio Tite descreveu como uma sensação incomum em sua carreira: a de que o campo o enganou. O Brasil controlou o jogo durante a prorrogação, abriu o placar com Neymar e não sofreu nenhum lance de perigo real da Croácia — até o empate croata a quatro minutos do fim da prorrogação.

"Eu estava olhando o jogo, olhando o jogo... E assisti de novo ao jogo. Não teve nenhum lance de perigo maior da Croácia. Eu tenho o hábito de dizer que o campo fala, a bola fala. (Naquele dia) o jogo não falou. O jogo escondeu", relatou o treinador.

Tite também reconheceu, contudo, que houve falha coletiva no controle dos minutos finais. A Seleção perdeu equilíbrio emocional e tático nos instantes que precederam o gol de empate croata — e esse diagnóstico vai além da escolha dos batedores. Segundo a apuração do SportNavo com base nas fontes disponíveis, o próprio treinador já havia admitido em 2018, após a Copa da Rússia, que as substituições para o início dos jogos deveriam ter sido mais rápidas: "Para início de jogo ela tem de ser mais rápida", disse ele à Gazeta Esportiva à época.

O padrão de autocrítica, portanto, não é novo. O que mudou em 2026 foi a profundidade do relato emocional — e a disposição de falar sobre o que veio depois do apito final.

O isolamento de Tite e o que a culpa ensina sobre liderança

Tite chorou depois de deixar o estádio Lusail, em Doha, na noite de 9 de dezembro de 2022. Ficou isolado por um período que ele não quantificou em tempo exato, mas que resultou em mais de três anos sem conceder entrevistas exclusivas. A dor, nas suas próprias palavras, foi a maior de uma carreira que inclui títulos pelo Grêmio, Corinthians e passagens por clubes do futebol gaúcho e paulista desde os anos 1990.

O questionamento "Por que eu?" carrega uma dimensão que vai além da derrota esportiva. Tite entendia que seu time havia jogado melhor do que a Croácia e que um ciclo de seis anos e meio merecia, no mínimo, uma vaga na semifinal. A sensação de injustiça — rara em treinadores experientes, que costumam aceitar a aleatoriedade do futebol — demorou a se dissipar.

Com o tempo, ele afirma ter encontrado equilíbrio para rever a partida de forma mais analítica. Conversou com os três técnicos que o sucederam na Seleção — Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti — e manteve o hábito de estudar os dados das 81 partidas que comandou. Os 30 jogos sem derrota nas Eliminatórias para a Copa de 2022 seguem como marca de referência no futebol sul-americano.

A saída imediata para o vestiário após o apito final — sem permanecer em campo ao lado dos jogadores — foi outro ponto abordado na entrevista. Tite não apresentou justificativa técnica para a decisão: reconheceu que o impacto emocional foi avassalador e que aquele momento representava o encerramento definitivo de um ciclo que havia consumido mais de seis anos de sua vida. A leitura pública de que ele "abandonou o barco" é uma das que mais o incomodaram desde então.

O que a trajetória de Tite pós-2022 revela, na prática, é um processo de liderança que só se completa quando o responsável aceita a derrota sem transferi-la integralmente para fatores externos. Ele errou na ordem dos pênaltis. Errou na gestão dos minutos finais. E demorou três anos e meio para dizer isso em público — tempo que, paradoxalmente, pode ter sido necessário para que a análise fosse honesta e não defensiva.

A próxima Copa do Mundo, marcada para junho e julho de 2026, com o Brasil estreando no torneio sob o comando de Carlo Ancelotti, será o primeiro Mundial desde o Catar. Tite estará fora do banco, mas a conversa sobre o que aconteceu em dezembro de 2022 — e o que ela ensina sobre decisão sob pressão — provavelmente não se encerra antes da bola rolar em 2026.