Quantos técnicos campeões invictos em uma das cinco grandes ligas europeias foram demitidos antes de completar oito meses no emprego seguinte? Real Madrid demitiu Xabi Alonso em janeiro de 2026, após derrota para o Barcelona na final da Supercopa da Espanha — e o espanhol, que havia transformado o Bayer Leverkusen em campeão alemão sem perder uma única partida na Bundesliga, saiu pela porta dos fundos de Valdebebas com 24 vitórias, seis derrotas e quatro empates em 34 jogos. Os números não são de um fracasso técnico. São de um choque de culturas.

O Chelsea sabe disso. Segundo o The Athletic e o jornal espanhol AS, o clube londrino já enviou uma proposta formal ao representante de Alonso e trata o treinador como principal alvo para a temporada 2026/27. A diretoria de Stamford Bridge, que demitiu Liam Rosenior no fim de abril e nomeou Calum McFarlane como interino, busca um perfil específico: jovem, metódico e capaz de desenvolver um elenco repleto de contratações caras que ainda não encontrou identidade coletiva.

O Real Madrid revelou o lado frágil de Alonso sob pressão imediata

No Leverkusen, Alonso construiu seu método ao longo de três temporadas — chegou em outubro de 2022, quando o clube estava na última colocação da Bundesliga, e só ergueu o troféu alemão em maio de 2024. O processo foi gradual, com margem para erro e aprendizado. No Real Madrid, essa margem não existia. A derrota para o Barcelona por 5 a 2 na final da Supercopa, em janeiro de 2026, foi suficiente para encerrar o ciclo. Menos de oito meses no cargo, 72 gols marcados e 38 sofridos — o ataque funcionou, a defesa nunca se estabilizou.

Segundo o The Telegraph, dirigentes do Chelsea enxergam nessa passagem não um estigma, mas uma lição de gestão de tempo. A leitura interna no clube inglês é de que Alonso foi inserido em um ambiente onde o resultado imediato supera qualquer projeto. Stamford Bridge, sob o grupo proprietário liderado por Todd Boehly, tenta há três temporadas construir exatamente o oposto: um projeto de médio prazo. A ironia é que o Chelsea já trocou de treinador duas vezes nesta temporada — Enzo Maresca saiu, Rosenior entrou e saiu — o que coloca em xeque essa narrativa de estabilidade.

A Premier League decide o tamanho do desafio que Alonso vai encontrar

O Chelsea ocupa a 9ª colocação na Premier League neste momento, fora da zona de classificação para competições europeias. A final da FA Cup contra o Manchester City, marcada para o próximo sábado (16), às 11h (horário de Brasília), pode mudar esse quadro: um título garante vaga direta na fase de grupos da Europa League. Essa distinção importa para a negociação com Alonso. Um Chelsea na Europa League atrai um perfil de contratação diferente de um Chelsea sem competição continental — e o espanhol, acostumado a disputar Champions com o Leverkusen e o Real Madrid, precisa avaliar o que aceita como ponto de partida.

Pense em um maestro que regeu a Filarmônica de Berlim e recebeu uma proposta para reconstruir uma orquestra municipal. O desafio não é menor — é diferente. Alonso teria em Londres um elenco com valores acumulados que ultrapassam 1 bilhão de euros em contratações nos últimos três anos, mas sem coesão tática demonstrável. Andoni Iraola, que deixa o Bournemouth ao fim da temporada, e Filipe Luís, recém-saído do Flamengo, também estão na lista dos Blues, segundo o AS e o O Reporter. Mas o favoritismo de Alonso é reconhecido publicamente pelas fontes britânicas consultadas.

O contrato que o Chelsea precisa desenhar para não repetir o erro do Madrid

A grande questão nos bastidores não é se Alonso aceita a proposta — é sob quais condições ele aceita. No Leverkusen, o espanhol tinha autonomia sobre contratações e um presidente, Fernando Carro, que blindava o trabalho de curto prazo. No Real Madrid, essa blindagem não existiu. O Chelsea, para fechar o acordo, precisará incluir cláusulas que garantam ao técnico pelo menos duas janelas de transferências sem demissão por resultado imediato — algo que a diretoria de Boehly nunca ofereceu a nenhum treinador desde que assumiu o clube, em 2022.

A definição do nome deve ocorrer antes do início da pré-temporada europeia, prevista para julho. Se o Chelsea vencer o Manchester City na FA Cup no sábado, chega à mesa de negociação com um troféu na mão e uma vaga europeia garantida. Se perder, negocia em posição fragilizada — e Alonso, que já sabe o que é aceitar um cargo sem as condições certas, pode recusar.

Xabi Alonso tem a proposta. O Chelsea tem a necessidade. O sábado decide o preço.