É um relógio suíço com pavio curto.
A metáfora se encaixa com precisão cirúrgica no mecanismo que governa as grandes convocações da Seleção Brasileira: funciona com exatidão técnica, mas explode quando a pressão sobe. Há vinte e quatro anos, esse mecanismo detonou na figura de Romário. No dia 6 de maio de 2002, Luiz Felipe Scolari anunciou os 23 convocados para a Copa do Mundo do Japão e Coreia do Sul — e o nome do artilheiro que havia marcado 26 gols em 24 jogos pelo Vasco naquele mesmo ano não estava na lista. A bomba caiu. Agora, às vésperas da Copa do Mundo de 2026, o mecanismo voltou a ticar com o nome de Neymar.
O que Felipão fez em 2002 e o que ninguém esqueceu
Romário chegou à convocação de 2002 em estado de graça. Havia encerrado a temporada de 2001 como o jogador mais produtivo do futebol brasileiro — 40 gols em 39 partidas com a camisa do Vasco. No ano seguinte, até a divulgação da lista, já somava 26 gols em 24 jogos, incluindo um marcado na véspera do anúncio. Não havia argumento técnico ou físico capaz de sustentar a exclusão — e Felipão optou por um critério que nunca foi inteiramente revelado, possivelmente ligado a atritos extracampo após um jogo contra o Uruguai em Montevidéu, no ano anterior. O Brasil foi ao Japão, ganhou o pentacampeonato com Ronaldo marcando dois gols na final contra a Alemanha, e a ausência do Baixinho ficou registrada não como derrota, mas como polêmica eternamente inconclusa.
Décadas depois, o próprio Romário foi direto ao rejeitar qualquer equiparação entre os dois casos.
"Não fui para a Copa não pela minha condição física ou técnica, no meu entendimento. No final o treinador disse que eu tecnicamente não caberia na seleção dele", declarou ele ao canal ESPN durante o FutSummit Rio. A distinção que o Baixinho traça é objetiva: em 2002, ele estava em plena forma. Em 2026, Neymar acumula um histórico de lesões graves que tornam a equação mais complexa.
Neymar em 2026 — o corpo que tarda, o argumento que persiste
O maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em jogos oficiais, tem 34 anos e retornou ao Santos após uma ruptura do ligamento cruzado anterior que o tirou de campo por mais de um ano. A recuperação foi lenta, os jogos pelo Brasileirão 2026 foram pontuais, e a regularidade ainda é uma incógnita. No domingo, 17 de maio, após a derrota do Santos para o Coritiba por 3 a 0 na Neo Química Arena, Neymar apareceu na zona mista com um casaco verde e amarelo — presente, segundo ele próprio, do filho de David Beckham. A escolha de roupa não passou despercebida. Questionado sobre a convocação de Carlo Ancelotti, marcada para a segunda-feira (18), ele foi econômico e preciso:
"Fisicamente estou em um bom momento, melhorando a cada jogo. Amanhã seja o que Deus quiser. Independentemente do que acontecer, Ancelotti escalará os 26 para esta guerra."
Neymar está entre os 55 pré-convocados divulgados pela CBF. A redução para 26 nomes é o passo que define sua presença ou ausência na Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos, México e Canadá. Não há tragédia: há contabilidade. Ancelotti precisa equilibrar uma equipe que já demonstrou coesão nos amistosos contra França e Croácia com a variável de um jogador que, quando saudável, altera qualquer prognóstico.
Romário, as vaidades e a pressão que Ancelotti herda
Foi no Esporte Record, em conversa com Cléber Machado, que Romário entregou o diagnóstico mais revelador sobre a situação. Questionado diretamente se Neymar merece ir à Copa, o tetracampeão de 1994 respondeu que sim — mas com uma condição que vai além da física. Para ele, o risco real não é o joelho de Neymar, mas o vestiário. Romário alertou que, se o camisa 10 for convocado, não pode ser atrapalhado por "vaidades" e por "moleques" que temam perder espaço para ele na amarelinha. O recado é endereçado ao ambiente interno do grupo, e não ao técnico italiano.
No FutSummit Rio, Romário foi igualmente categórico sobre as chances do Brasil sem Neymar. A palavra que usou foi "quase impossível". Não é retórica: é a avaliação de quem conhece o peso específico de um jogador diferenciado dentro de uma Copa do Mundo. Ao mesmo tempo, quando perguntado que conselho daria ao atual camisa 10, o Baixinho recuou com elegância.
"Não dou conselho nem para o meu filho. O que posso falar é que continuo com o pensamento positivo e que a gente continua na torcida."

Decidiu.
Ancelotti, que aprovou a lista de amistosos com critério técnico e recebeu elogios do próprio Romário pelas escolhas recentes, carrega agora a decisão mais carregada de simbolismo da sua gestão à frente da Seleção. O italiano conhece bem a lógica dos veteranos em fim de ciclo — conduziu Zlatan Ibrahimović, Clarence Seedorf e Andrea Pirlo em momentos similares ao longo da carreira. A diferença é que nenhum desses casos tinha o peso histórico e emocional que Neymar representa para o Brasil. Convocar é assumir uma aposta física. Não convocar é assumir uma aposta coletiva. Nenhuma das duas opções vem sem custo.
A lista com os 26 convocados de Ancelotti foi divulgada nesta segunda-feira (18), no Rio de Janeiro. O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 em junho, com data e adversário a serem confirmados pela FIFA na fase de grupos. A partir da convocação, o debate sobre vaidades, joelhos e hexa deixa o campo das opiniões e entra no único espaço que importa: o gramado.









