Quando Patrick apareceu livre dentro da área do Mangueirão para empatar o jogo aos 34 minutos do primeiro tempo, o roteiro já estava escrito. O Bahia precisava de dois gols de vantagem sobre o Remo para avançar na Copa do Brasil — tinha levado 3 a 1 na Fonte Nova — e assistia, mais uma vez, à própria fragilidade defensiva ditar o resultado. A virada azulina veio nos acréscimos, com Picco, e o placar agregado de 5 a 2 encerrou qualquer esperança tricolor.

A leitura que o Bahia quer evitar sobre a eliminação

A narrativa mais confortável para o clube seria atribuir a derrota ao azar. Afinal, o Esquadrão teve três gols anulados no segundo tempo — por impedimento, toque irregular na origem da jogada e revisão do VAR — e chegou a abrir o placar com Erick, de rebote após escanteio cobrado por Everton Ribeiro. Nessa leitura, o Bahia foi azarado, a arbitragem foi determinante, e a eliminação tem um sabor de injustiça.

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O problema é que essa versão ignora o primeiro jogo. Na Arena Fonte Nova, diante da própria torcida, o time comandado por Rogério Ceni foi derrotado por 3 a 1 por um clube da Série A que opera com orçamento significativamente menor. O Remo, que disputou a Série C até 2024, encerrou o confronto com autoridade — placar agregado de 5 a 2 — e não deixou margem para contestação. A eliminação na quinta fase é a pior campanha do Bahia na Copa do Brasil desde 2020, quando caiu na primeira fase para o River-PI em jogo único.

"Inaceitável", resumiu o atacante Erick ao deixar o gramado do Mangueirão, segundo relatos da imprensa baiana presentes ao jogo.

Entre 2021 e 2025, o Tricolor havia chegado pelo menos às oitavas de final em todas as edições — e nas últimas três temporadas (2023, 2024 e 2025) alcançou as quartas. A regressão de 2026 não é uma anomalia estatística; é um sintoma de algo estrutural que o clube ainda não conseguiu diagnosticar com precisão.

O que a eliminação custou aos cofres do Esquadrão

A leitura financeira da eliminação é ainda mais dura. O Bahia encerrou a participação com R$ 2 milhões em premiação — o valor mínimo garantido pela chegada à quinta fase. Avançar às oitavas de final renderia mais R$ 3 milhões imediatos, segundo apuração do SportNavo com base na tabela oficial da CBF. Para ter dimensão da perda acumulada: uma campanha até a semifinal somaria R$ 18 milhões; um título, R$ 94 milhões no total.

A comparação com o futebol feminino ajuda a contextualizar o peso desse dinheiro. O orçamento anual de toda a divisão feminina do Bahia — incluindo salários, logística e estrutura — não ultrapassa R$ 4 milhões, segundo dados públicos do clube referentes à temporada 2025. Ou seja, os R$ 3 milhões deixados na mesa com essa eliminação representam 75% do que o clube investe em doze meses na categoria que mais cresce em audiência no país. A disparidade é reveladora.

Com a saída da Copa do Brasil, o Esquadrão perde também a válvula de escape que o torneio oferecia para um calendário que já estava apertado. Restam apenas três jogos antes da pausa para a Copa do Mundo — contra Grêmio (em casa), Coritiba (fora) e Botafogo (em casa) — e o time chega a todos eles carregando um jejum de seis partidas sem vitória em todas as competições.

Ceni sob fogo e o Brasileirão como único horizonte

A pressão sobre Rogério Ceni — que chegou ao clube em 2025 com capital político considerável, construído em Flamengo e São Paulo — atingiu um nível que a diretoria já não consegue ignorar. A torcida protestou abertamente após a eliminação, com críticas direcionadas tanto ao técnico quanto aos dirigentes responsáveis pela montagem do elenco. O clima interno, segundo fontes próximas ao clube, é de desgaste mútuo.

"A equipe precisa de uma reação imediata. O Brasileirão ainda é longo, mas não dá para esperar mais", declarou um integrante da comissão técnica, em caráter reservado, à imprensa local.

O Campeonato Brasileiro é, agora, o único campo de batalha disponível. O próximo jogo é no domingo, 17 de maio, às 16h, quando o Bahia recebe o Grêmio na Casa de Apostas Arena Fonte Nova pela 16ª rodada. Uma derrota — ou mesmo um empate — pode aproximar o clube da zona de rebaixamento e transformar o que ainda parece uma crise administrável em emergência real.

A síntese honesta do momento tricolor exige reconhecer as duas faces do problema. Há um componente de azar — três gols anulados em uma única partida é estatisticamente raro — mas há também uma fragilidade tática e de elenco que o azar não explica. Um time que perde em casa por 3 a 1 para o mesmo adversário que depois elimina com gol nos acréscimos não é vítima da arbitragem: é um time que ainda não encontrou consistência. O confronto com o Grêmio, no domingo, começa a responder se o Bahia tem condições de virar essa página ou se a crise vai se aprofundar durante a pausa do Mundial.