Reserva. Colombiano. Segundo tempo. Três palavras que, juntas, já explicam o papel de Kevin Serna no Fluminense de 2026 — e também a encruzilhada em que o clube se encontra quando precisa que um substituto faça o trabalho que o time titular não conseguiu.
O Brasileirão e o peso de quatro jogos sem vencer
A 15ª rodada do Campeonato Brasileiro, disputada na noite deste sábado (9) no Maracanã, colocou o Fluminense diante de uma aritmética desconfortável: 27 pontos, terceiro lugar, mesma pontuação do Flamengo — mas com o rival tendo um jogo a menos e o Palmeiras liderando com folga, somando 33. O empate por 2 a 2 com o Vitória foi o quarto jogo consecutivo sem vitória, sequência que inclui derrotas para Bolívar (2 a 0, em La Paz) e Internacional (2 a 0, no Beira-Rio), além do empate com o Independiente Rivadavia (1 a 1, na Argentina). Para um clube que se apresentou ao Brasileirão como candidato ao título, a conta não fecha.
O roteiro da partida contra o time baiano condensou os problemas recentes do Tricolor. John Kennedy abriu o placar ainda no primeiro tempo, o Fluminense dominou as ações iniciais e chegou a criar chances claras de ampliar logo na segunda etapa — numa jogada de mais de 30 segundos de troca de passes que terminou com finalização de letra do próprio Kennedy, defendida pelo goleiro Arcanjo. Mas um pênalti assinalado sobre Luan Cândido, convertido por Renato Kayzer, e um chute preciso de Renê — o do Vitória, não o do Fluminense — no cantinho de Fábio em cinco minutos viraram o placar e deixaram o Maracanã em polvorosa.
A virada do Vitória e o apagão tricolor no segundo tempo
Perder dois gols em cinco minutos dentro de casa, após dominar o adversário, é o tipo de colapso que não se explica apenas por falhas técnicas — há algo de psicológico nessa fragilidade recorrente. Zubeldía reagiu com cinco substituições: saíram Alisson, Nonato e Soteldo para as entradas de Hércules, Castillo e Serna; depois, Savarino e Samuel Xavier cederam lugar a Riquelme e Guga. As trocas não agradaram a parcela da torcida presente, e o técnico argentino foi alvo de coros de "burro" nas arquibancadas.
Em entrevista coletiva após a partida, Zubeldía respondeu com compostura e sem evasivas:
"Quando o resultado não vem, as consequências nós sabemos. Os torcedores estão no direito de apoiar ou reprovar, por isso pagam ingresso. Até o gol de empate, a equipe tinha controle do jogo."
O treinador também não se esquivou quando questionado sobre pressão no cargo:
"Todos estão expostos a críticas. Não tenho muito a dizer, apenas demonstrar que podemos voltar a cumprir os objetivos do clube. Somos os terceiros do Brasileirão, hoje esperávamos ganhar e não ganhamos, é normal a reprovação. É normal haver reprovação ao técnico, tenho que assumir isso."
Quem, neste elenco, tem a frieza de aparecer nos acréscimos e decidir quando o ambiente é de pressão máxima?
Serna e a arte de aparecer quando ninguém espera
Aos 44 minutos do segundo tempo, Kevin Serna respondeu àquela pergunta da única maneira que importa no futebol: marcando. O gol igualou o placar em 2 a 2 e evitou uma derrota que teria agravado ainda mais o cenário do Fluminense. Não foi um acidente — foi a segunda vez em 2026 que o colombiano, saindo do banco de reservas no segundo tempo, salvou o Tricolor nos acréscimos. No futebol brasileiro há um ditado que se aplica com precisão cirúrgica a este momento: quem não tem cão caça com gato. O Fluminense tem titulares de alto nível, mas tem encontrado nos reservas a última linha de resistência quando o jogo escapa do controle.
Serna não é novidade no clube, mas tampouco é o protagonista do projeto. Entrou em campo nesta noite como quinta opção ofensiva de Zubeldía, depois que Soteldo deixou o gramado. Num time que conta com Lucho Acosta, Savarino e o próprio John Kennedy como referências no ataque, o colombiano opera nas margens — e é justamente nesse espaço reduzido que tem construído uma narrativa própria em 2026. Dois gols salvadores em acréscimos, ambos saindo do banco: são números que poucos jogadores titulares podem apresentar nesta temporada.
Historicamente, o Fluminense já foi salvo por reservas em momentos decisivos. Quem acompanhou as campanhas tricolores dos anos 2000 lembra de jogadores que entravam no segundo tempo e mudavam o destino de partidas importantes — mas raramente com a consistência que Serna demonstra neste quesito específico. Dois gols em acréscimos, ambos saindo do banco, nos primeiros cinco meses do ano: é uma marca que merece registro.
O que vem pela frente para o Fluminense
O empate, porém, não resolve os problemas imediatos do clube. Na terça-feira (12), às 12h30, o Fluminense recebe o Operário-PR no Maracanã pela volta da quinta fase da Copa do Brasil — o jogo de ida terminou empatado em Ponta Grossa, e o Tricolor precisa de uma vitória simples para avançar às oitavas. Uma igualdade leva a decisão para os pênaltis. Depois, em 19 de maio, o desafio é ainda maior: o Bolívar visita o Maracanã pela fase de grupos da Libertadores, e o Fluminense precisa vencer por três gols de diferença para encaminhar a classificação às oitavas do torneio continental. Entre os dois jogos, em 16 de maio, há ainda o duelo contra o São Paulo pelo Brasileirão. Três partidas em casa, três obrigações distintas — e Kevin Serna, por ora, esperando no banco para aparecer quando o time mais precisar.









