O foguete passou a milímetros do rosto de Thales Generoso às 5h39 da manhã do dia 2 de maio — e o som da explosão foi tão violento que o deixou com zumbido no ouvido por horas. O videomaker pedalava na orla da Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, a caminho de um trabalho de filmagem, quando um carro entrou pela contramão e o motorista apontou um foguete aceso diretamente para a sua face.
"Eu 'tô' vindo, e um carro começa a colar em mim, aqui do lado contrário, e ele simplesmente 'tá' com o foguete aceso, apontando para a minha cara. Eu simplesmente congelei. E eu acho que ele passou um pouquinho de mim quando o foguete explodiu na minha cara", relatou Thales Generoso.
Explodiu. O relato do videomaker sintetiza o que dois ataques consecutivos — em 28 de abril e 2 de maio — fizeram com a rotina de um dos circuitos de corrida mais movimentados de Minas Gerais. A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) identificou o suspeito: um adolescente de 15 anos que usava o carro do irmão para circular pela orla e disparar fogos de artifício contra atletas. Ouvido na 2ª Delegacia de Venda Nova, ele confessou os atos e afirmou ter agido "em tom de brincadeira". Os dois episódios são investigados como tentativa de homicídio.
O que viveram os atletas da Pampulha naquelas madrugadas
O primeiro ataque, registrado às 5h40 do dia 28 de abril, atingiu um grupo de aproximadamente 35 corredores de Contagem, na Grande BH, reunidos próximo ao Mirante do Sabiá. Um dos atletas foi atingido de raspão nas costas, sem ferimentos graves. O professor Flávio Lopes, que acompanhava o treino, descreveu a cena com precisão:
"Mirou para nós e começou a soltar [os foguetes]. Então, foi aquele desespero, né... gente correndo para lá e para cá. Parece que foi premeditado, já que aconteceu mais de uma vez. Quer dizer que ele sai com essa intenção mesmo, de assustar ou machucar alguém", disse Lopes.
Câmeras de segurança de uma residência próxima capturaram o segundo episódio com precisão de timestamp: 5h39 do dia 2 de maio. As imagens mostram o veículo — uma Fiat Fiorino branca, segundo relatos de atletas nas redes sociais — em movimento, com foguetes sendo disparados em direção à calçada. Thales Generoso, que havia chegado ao local minutos antes para iniciar sua jornada de trabalho, foi quem localizou o morador e solicitou as imagens que acabaram fundamentando a investigação policial.
O que os números revelam sobre segurança na Pampulha
A orla da Lagoa da Pampulha é um dos espaços de treino mais utilizados por atletas amadores e profissionais em Belo Horizonte — com dezenas de grupos organizados que iniciam atividades ainda antes das 6h da manhã, exatamente o horário dos dois ataques. Segundo apuração do SportNavo, a PCMG encaminhou o caso à Delegacia de Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente (DOPCAD), responsável pelos procedimentos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A Polícia Militar, questionada sobre medidas preventivas para o local, não havia respondido até o momento da publicação das primeiras reportagens sobre o caso.
Esse vácuo de resposta é o dado mais preocupante do episódio. Dois ataques em locais públicos, com intervalo de quatro dias, ambos no mesmo horário, contra grupos de atletas identificáveis por sua rotina — e nenhuma medida de patrulhamento adicional foi comunicada antes da identificação do suspeito. O perfil de vulnerabilidade é claro: atletas que treinam antes do amanhecer, em vias públicas, sem iluminação reforçada e sem cobertura policial sistemática.
O que precisa mudar para proteger quem treina em espaços públicos
O caso da Pampulha expõe uma lacuna estrutural que vai além do episódio isolado de um adolescente. Grupos de corrida e ciclismo que operam nas madrugadas de grandes capitais dependem integralmente do policiamento ostensivo e da infraestrutura de câmeras — que, neste caso, existiu apenas em câmeras privadas de moradores, não em equipamento público instalado pela prefeitura ou pelo estado. A identificação do suspeito só foi possível porque Thales Generoso teve a presença de espírito, mesmo traumatizado, de bater na porta de um vizinho e solicitar as imagens do circuito particular.
Gestores de grupos de corrida ouvidos após os ataques já discutem mudanças operacionais para os treinos matinais: alteração de horários, comunicação em tempo real com a polícia via aplicativos institucionais e registro fotográfico de veículos suspeitos. Enquanto o adolescente responde ao processo no âmbito do ECA e o adulto proprietário do veículo ainda aguarda definição sobre eventual responsabilização, os atletas da Pampulha voltaram a treinar — mas com o olhar mais atento a cada carro que se aproxima antes do amanhecer. Para quem usa a orla regularmente, registrar a placa de veículos com comportamento suspeito e acionar o 190 imediatamente pode ser a diferença que o episódio do dia 2 de maio quase não teve.








