O silêncio caiu sobre Bollaert no minuto 67. Um chute rasteiro, bem colocado, destinado ao ângulo — e então as mãos de Mikhail Safonov apareceram. Defesa seca. Arquibancada gelada. O Lens havia encontrado a brecha, mas o goleiro russo fechou a porta com uma frieza que lembrou, e muito, aquela noite de dezembro no Mundial Intercontinental. O Ligue 1 pertence ao PSG pela quinta vez consecutiva. E, de novo, Safonov é o nome que ninguém esperava pronunciar no topo.

O título que parecia protocolo virou batalha em Bollaert

A narrativa dominante dizia que seria simples. O PSG entrou em campo nesta quarta-feira (13) com 6 pontos de vantagem sobre o Lens e precisava apenas de um empate para selar matematicamente o 14º título da história do clube. Kvaratskhelia abriu o placar no primeiro tempo, e Mbaye ampliou para 2 a 0 — dois nomes, dois momentos de qualidade técnica indiscutível. Parecia resolvido.

Mas o futebol não funciona assim. O Lens pressionou no segundo tempo com uma intensidade que desafiou toda a lógica do placar. Foi aí que a versão confortável da história começou a rachar. Safonov não apenas segurou o resultado — ele redefiniu o que significa ser titular no gol do PSG em 2026. Segundo relatos do entorno do clube, Luis Enrique foi ao vestiário no intervalo e pediu ao goleiro russo que tratasse cada bola como se o placar fosse 0 a 0.

"Safonov jogou como se a taça dependesse de cada defesa. Porque dependia", segundo a avaliação da comissão técnica parisiense após a partida.

Safonov não é surpresa para quem viu o que ele fez contra o Flamengo

A memória coletiva é seletiva. Quando o PSG derrotou o Flamengo no Mundial Intercontinental, boa parte da imprensa brasileira focou nos erros ofensivos do time carioca. Safonov ficou em segundo plano — um goleiro de reserva que havia assumido a titularidade por lesão de Donnarumma e que, na visão de muitos, era apenas um coadjuvante de luxo numa noite de sorte.

Naquela partida, o russo fez ao menos três intervenções de alto nível, incluindo uma defesa em cima da linha que travou o empate flamenguista. Hoje, com o pentacampeonato da Ligue 1 no bolso e uma final da Champions League no horizonte, fica difícil sustentar a tese do goleiro sortudo. Safonov tem 27 anos, saiu do Krasnodar por 20 milhões de euros no verão europeu de 2024 e acumula atuações que já justificam cada centavo.

"Ele é um dos melhores goleiros que já treinei. Não há mais discussão sobre isso", teria dito Luis Enrique em conversa reservada com a diretoria, segundo fontes próximas ao clube.

O PSG pentacampeão que mira Budapeste com Safonov entre os titulares

A síntese é esta: o PSG não conquistou a Ligue 1 apesar de Safonov. Conquistou também por causa dele. Os 74 pontos acumulados na temporada — contra 68 do vice-líder Lens — refletem uma equipe que encontrou equilíbrio entre a genialidade ofensiva de Kvaratskhelia e a solidez defensiva que o russo impõe a cada partida. Desde a era Qatar Sports Investments, que assumiu o clube em junho de 2011, apenas Monaco (2016/17) e Lille (2020/21) conseguiram interromper o domínio parisiense na França. Nenhum dos dois conseguiu fazer isso duas vezes seguidas.

Com o campeonato resolvido e uma rodada ainda por jogar, o PSG já vira a chave para o dia 30 de maio. No Puskás Aréna, em Budapeste, a equipe de Luis Enrique enfrenta o Arsenal às 13h (horário de Brasília) pela final da UEFA Champions League. Safonov, o mesmo goleiro que parou o Flamengo e travou o Lens, estará entre os titulares — e desta vez, ninguém vai chamá-lo de coadjuvante.

O silêncio caiu sobre Bollaert no minuto 67. Um chute rasteiro, bem colocado, destinado ao ângulo — e então as mãos de Mikhail Safonov apareceram. Agora, porém, aquele silêncio tem nome.