O São Paulo demitiu o técnico que estava mantendo com o argumento de que não tinha dinheiro para demitir. Esse é o paradoxo que resume os últimos dois meses do Morumbis — e que a eliminação para o Juventude na Copa do Brasil, por 3 a 1 no Alfredo Jaconi, tratou de resolver de maneira abrupta e constrangedora para uma gestão que havia escolhido a cautela como escudo.
O histórico que o São Paulo teimou em ignorar
Não é a primeira vez que o clube paulista entra em um ciclo de trocas de treinadores que custam mais do que entregam. Hernán Crespo e Luis Zubeldía deixaram dívidas que, somadas, ultrapassam R$ 6 milhões ainda não quitados pelo Tricolor. Com a rescisão de Roger Machado, o clube acrescentaria mais R$ 2,1 milhões à conta — tornando-o o quarto treinador com valores a receber do São Paulo sem estar trabalhando no Morumbis. A diferença desta vez é que o precedente financeiro era conhecido antes mesmo de Roger completar um mês no cargo, e mesmo assim a diretoria demorou a agir quando os resultados despencaram.
Quando o presidente Harry Massis Júnior gravou um áudio — que vazou e circulou entre conselheiros e jornalistas — dizendo que o clube não tinha condições de arcar com mais uma demissão, ele não estava errado nos números. Estava apenas ignorando que a conta de manter um técnico sem credibilidade técnica e política também tem preço, só que ele é cobrado em pontos, em audiência e em capital político.
A derrota para o Vasco que mudou o cálculo interno
Roger Machado acumulou 17 jogos à frente do São Paulo, com sete vitórias, quatro empates e seis derrotas — aproveitamento de 49%. Os números por si só não decretariam a saída. O que mudou o humor interno foi a derrota de virada por 2 a 1 para o Vasco, que expôs fragilidades táticas e reabriu a pressão de conselheiros que já vinham atuando nos bastidores desde as primeiras semanas do treinador. A partir dali, a diretoria de futebol comandada por Rui Costa passou a viver sob escrutínio constante — e a Copa do Brasil funcionou como prazo final não declarado.
"Roger Machado vinha sofrendo intensa pressão por parte de conselheiros e outras figuras influentes na presidência, mas vinha sendo bancado pelo presidente Harry Massis Júnior e pela diretoria de futebol", apurou o UOL Esporte nos dias que antecederam a eliminação.
A derrota por 3 a 1 em Caxias do Sul, com o São Paulo desperdiçando a vantagem do empate construído no jogo de ida, encerrou qualquer margem de manobra que a diretoria ainda pudesse alegar. Pouco mais de dois meses depois da contratação, a decisão de demitir foi tomada em questão de minutos após o apito final.
Rui Costa e o preço da autonomia mal calculada
O executivo de futebol Rui Costa havia assumido protagonismo absoluto na demissão de Crespo e na escolha de Roger Machado — uma aposta que transformou sua posição em ativo político dentro do clube. Com a saída do treinador, fontes internas ouvidas pelo SportNavo indicavam que a saída de Rui Costa junto seria tratada como cenário praticamente certo, o que tornaria a conta ainda mais cara: além da multa do técnico, o clube teria de arcar com a rescisão do dirigente e, em seguida, reconstruir um departamento de futebol no meio de uma temporada que já começou sob pressão.
"O São Paulo não tem hoje um plano nem potenciais nomes em estudo para o comando do futebol em caso de uma saída de Rui", conforme apuração do UOL Esporte, que apontou que a reestruturação viria apenas quatro meses depois de o clube ter apostado na autonomia do executivo.
Essa ausência de planejamento para sucessão — tanto no banco quanto na diretoria — é uma marca estrutural do São Paulo nos últimos anos. Entre 2020 e 2026, o clube passou por Hernán Crespo, Dorival Júnior, Thiago Carpini, Luis Zubeldía e agora Roger Machado, sem que nenhuma dessas trocas viesse acompanhada de uma revisão do modelo de gestão esportiva.

Dorival Júnior e a dívida que pode virar negociação
Com a saída de Roger Machado confirmada, o nome que emerge com mais força nos corredores do Morumbis é o de Dorival Júnior — curiosamente, outro técnico que o São Paulo deve. A pendência com o treinador é de pouco mais de R$ 1 milhão, e a avaliação interna é que ela precisaria ser discutida e provavelmente incluída em um eventual acerto financeiro para uma nova contratação. A matemática é tortuosa: o clube cogita contratar quem ainda precisa pagar, usando a dívida como moeda de troca.
O cenário político também não ajuda. Com Harry Massis Júnior começando a se posicionar como candidato nas eleições de dezembro, a vaga de executivo de futebol — que ficaria vaga com a saída de Rui Costa — se tornaria objeto de disputa entre conselheiros, potencial moeda de troca em alianças internas e instrumento de pressão sobre a presidência. O São Paulo, que já enfrentou esse tipo de turbulência na gestão de Julio Casares com Carlos Belmonte, corre o risco de repetir o roteiro.
O Tricolor volta a campo pelo Campeonato Brasileiro, competição em que ainda tem chances reais de brigar por posições no G-6, mas agora sem treinador definido, com o departamento de futebol em xeque e uma conta acumulada de pelo menos R$ 9 milhões em dívidas com técnicos que já foram embora.
O São Paulo demitiu Roger Machado. A dívida ficou.








