É um balanço patrimonial com três linhas de débito abertas e nenhuma receita nova para fechá-las. Só no parágrafo seguinte fica claro o que isso significa para o futebol do São Paulo em 2026.

Na tarde desta segunda-feira (11), um áudio atribuído ao presidente Harry Massis circulou nas redes sociais e foi confirmado pelo ge. Na gravação, Massis fala com um interlocutor identificado apenas como Armando e descreve, em linguagem direta, a situação do caixa tricolor: sem margem para pagar mais uma rescisão contratual. O gatilho imediato foi a derrota por 3 a 2 para o Corinthians no domingo, que intensificou os pedidos da torcida pela saída do técnico Roger Machado.

O que o áudio de Massis revela sobre a herança da gestão Casares

Massis foi vice-presidente sob Julio Casares desde 2021 e assumiu a presidência em janeiro deste ano, após a renúncia do antecessor. No áudio, ele responsabiliza diretamente a gestão anterior pelo rombo: "Eles não pagaram nada o ano passado, está sobrando tudo para mim."

"Nós não temos condição de trocar o técnico. Não temos dinheiro. Será que vocês não entendem que pegamos o São Paulo sucateado? Eu nunca falei que o São Paulo ia ser campeão. Se chegarmos em sexto do campeonato, está ótimo para ir para a Libertadores." — Harry Massis, presidente do São Paulo

A declaração expõe um problema estrutural: a gestão atual carrega no passivo obrigações contratuais firmadas entre 2022 e 2025, período em que o clube trocou de treinador quatro vezes. Cada saída gerou uma multa rescisória que, segundo Massis, não foi liquidada no prazo.

O que o áudio de Massis revela sobre a herança da gestão Casares O São Paulo her
O que o áudio de Massis revela sobre a herança da gestão Casares O São Paulo her

O caso mais recente é Hernán Crespo, demitido em março deste ano após eliminação no Paulistão para o Palmeiras. Segundo apuração do ge, o clube ficou devendo R$ 1,8 milhão ao argentino — equivalente a três salários mensais do treinador. A conta ainda não foi quitada integralmente.

Três nomes no passivo e um número que assusta Massis

O presidente listou no áudio os débitos pendentes com ex-treinadores. Em termos contábeis, o passivo de rescisões do São Paulo reúne:

Três nomes no passivo e um número que assusta Massis O São Paulo herdou dívidas
Três nomes no passivo e um número que assusta Massis O São Paulo herdou dívidas
  • Luís Zubeldía — multa rescisória em aberto, valor não divulgado oficialmente
  • Dorival Júnior — pendências financeiras referentes à saída para a Seleção Brasileira
  • Hernán Crespo — R$ 1,8 milhão (três salários), rescisão de março de 2026
"Estou pagando multa do Dorival Júnior, do Zubeldía, que não tenho nada com isso. Paguei multa do Crespo da primeira passagem, que não tenho nada com isso. Não vou pagar mais uma multa." — Harry Massis

Para calibrar a magnitude do problema, Massis buscou um parâmetro externo. Ele revelou ter consultado Osmar Stábile, presidente do Corinthians, sobre o custo de Dorival Júnior no clube rival: entre R$ 2,8 milhões e R$ 3 milhões por mês, somando treinador e comissão técnica. A diferença entre o que o Corinthians paga mensalmente a Dorival e o que o São Paulo consegue destinar ao seu próprio técnico é da ordem de grandeza de um estado nordestino inteiro — algo do tamanho do orçamento anual de municípios de médio porte em Pernambuco, para usar uma escala que o torcedor comum consiga visualizar.

Por que demitir Roger Machado não é uma decisão técnica agora

A permanência de Roger Machado não decorre de avaliação de desempenho — decorre de aritmética. Adicionar mais uma rescisão ao passivo tricolor, num momento em que o clube ainda honra débitos de 2022 a 2025, comprometeria o fluxo de caixa necessário para manter a folha salarial do elenco em dia.

Do ponto de vista operacional, o São Paulo ocupa a quarta colocação do Brasileirão 2026, com 24 pontos, e ainda disputa Sul-Americana e Copa do Brasil. O clube enfrenta o Juventude na quarta-feira (13), às 19h, no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul, em duelo pela Copa do Brasil — jogo que Massis já enquadrou como parte de uma temporada cujo objetivo declarado é a vaga na Libertadores de 2027, não o título.

A diretoria de futebol, liderada pelo executivo Rui Costa, sofre pressão interna para agir, mas o veto do presidente é explícito e financeiramente fundamentado. Massis sinalizou ainda que pretende se candidatar à presidência nas eleições do clube ainda em 2026, o que torna qualquer decisão de alto custo politicamente inviável neste momento.

O ROI esperado de uma eventual troca de treinador, portanto, seria negativo no curto prazo: saída de caixa imediata com rescisão, custo de contratação de novo profissional e período de adaptação — tudo isso sem garantia de melhora de resultado num elenco que, pelos números do campeonato, não performa mal. O São Paulo está no G-6. Está pagando contas antigas — falta o caixa para fazer escolhas novas.