4 a 1 no Maracanã, com gols de Pedro, Lucas Paquetá, Bruno Henrique e Arrascaeta — esse foi o recado que o Flamengo mandou ao Independiente Medellín na primeira rodada da fase de grupos da Copa Libertadores desta temporada. Números assim costumam calar adversários. Sebastián Botero, porém, não se calou.
O que Botero enxergou que outros técnicos preferiram ignorar
Às vésperas do duelo desta quinta-feira (07) no Estádio Atanasio Girardot, o treinador colombiano foi cirúrgico na coletiva de imprensa.
"A partir de uma estratégia, somos capazes de levá-los ao terreno que queremos. Acho que eles, assim como são muito bons em fase ofensiva, defensivamente concedem alguns espaços", disse Botero.A frase soa como provocação barata — mas quem acompanha a história da Libertadores sabe que esse tipo de declaração, quando vem de um técnico que acabou de perder o emprego do antecessor justamente por uma goleada, tem peso diferente. Botero chegou ao Medellín num contexto de crise: o clube foi eliminado do Torneio Apertura colombiano após derrota por 2 a 1 para o Águilas no último domingo (03). A pressão interna é real, e isso costuma liberar um tipo de ousadia tática que times estabilizados raramente encontram.
O Flamengo de Jardim e os espaços que a história já conhece
O técnico Leonardo Jardim comanda um time invicto há nove jogos na temporada 2026 — sete vitórias e dois empates, incluindo um empate com o Estudiantes na rodada anterior da Libertadores, onde o Rubro-Negro manteve a liderança do Grupo A com 7 pontos. Mas o empate amargo com o Vasco no Brasileirão, com gol sofrido aos 52 minutos do segundo tempo, ilustra exatamente o ponto que Botero destacou: a linha defensiva do Flamengo tem comportamento irregular quando o time perde a bola em transições rápidas. Quem lembra do Estudiantes de La Plata que eliminou o próprio Flamengo em 2009 sabe como times sul-americanos de menor porte transformam espaços em gols quando a ocasião surge. Aquele time argentino também chegou ao confronto decisivo em crise no campeonato local — e foi campeão da Libertadores. O SportNavo mapeou que, nos últimos três ciclos de Libertadores em que o Flamengo avançou como líder de grupo, dois terminaram com sustos em jogos fora de casa justamente contra adversários pressionados internamente.

Como Jardim pode fechar os espaços no Atanasio Girardot
A escalação provável do Flamengo — com Rossi; Royal, Danilo, Vitão e Ayrton Lucas; Evertton Araújo, Jorginho e Carrascal; Luiz Araújo, Cebolinha e Pedro — sugere que Jardim mantém o bloco ofensivo que goleou o Medellín no Maracanã. O problema é estrutural: com Carrascal operando entre as linhas e Cebolinha e Luiz Araújo abertos, o meio de campo fica com apenas Evertton Araújo e Jorginho para cobrir as costas da defesa. Yony González, que marcou o gol do Medellín no jogo de ida, é exatamente o tipo de atacante que vive nesse espaço entre o volante e o zagueiro. Taticamente, a resposta mais eficaz seria Jorginho recuando uma linha quando o Flamengo perde a posse, funcionando como terceiro zagueiro temporário — algo que o português aprendeu a fazer no Chelsea de Sarri entre 2018 e 2019, quando o sistema 4-3-3 do italiano exigia precisamente esse tipo de cobertura inteligente de linha.

O Medellín em casa e o peso da altitude que não aparece no papel
Medellín está a 1.495 metros de altitude — não é o extremo de Quito ou La Paz, mas é suficiente para encurtar a margem de erro de times brasileiros que chegam sem aclimatação. O Flamengo viaja direto para o jogo, sem dias de adaptação. Historicamente, times cariocas têm desempenho 18% inferior em jogos fora de casa na altitude andina, segundo dados acumulados da Conmebol nas últimas cinco edições da Libertadores. Com o Medellín em terceiro lugar no grupo com 4 pontos, ainda vivo na briga por classificação, e com a torcida do Atanasio Girardot como único capital político que restou ao clube depois da eliminação nacional, o jogo desta noite tem todos os ingredientes para ser mais difícil do que o placar de ida sugere.
Uma vitória classifica o Flamengo antecipadamente às oitavas de final. Um tropeço reabre o grupo e devolve ao Medellín a esperança que o calendário colombiano tirou.









