A última vez que um clube brasileiro manteve invencibilidade tão prolongada com rotação sistemática de elenco foi o Palmeiras de 2022, quando Abel Ferreira alternava titulares e reservas na fase de grupos da Libertadores sem perder consistência tática. Quatro anos depois, o mesmo princípio se repete — mas com uma camada a mais de sofisticação. Na noite de quarta-feira (13), no Estádio do Café, em Londrina, um time majoritariamente formado por reservas goleou o Jacuipense por 4 a 1 e carimbou a 28ª classificação do clube às oitavas de final da Copa do Brasil.
O placar agregado foi de 7 a 1. Dezesseis jogos sem derrota na temporada. Dezenove vitórias e seis empates nos últimos 26 jogos desde fevereiro.
O esquema que Abel mantém independente de quem joga
A escalação contra o Jacuipense tinha Marcelo Lomba no gol, Gustavo Gómez na zaga, Jefté na lateral esquerda e Emiliano Martínez na função de segundo volante — combinação que seria considerada alternativa em qualquer outro grande clube brasileiro. No Palmeiras, ela produziu três gols em 14 minutos no primeiro tempo.
O mecanismo é reconhecível: bloco médio compacto fora de posse, transição ofensiva veloz pelos halfspaces e mobilidade dos atacantes para criar superioridade numérica na linha de pressão adversária. Felipe Anderson operou pela esquerda como pivô de saída, atraindo marcadores e liberando Mauricio pela direita. O primeiro gol, aos 22 minutos, saiu exatamente dessa dinâmica — Anderson driblou três adversários, encontrou Mauricio em posição limpa para finalizar.
Um minuto depois, o segundo. Mauricio iniciou a jogada pela direita, combinou com Luighi e Anderson concluiu. A velocidade das transições não deu tempo ao Jacuipense de reorganizar a linha defensiva entre os dois gols.
Felipe Anderson como catalisador do sistema reserva
O dado que melhor traduz a partida é a participação de Felipe Anderson nos quatro gols palmeirenses — direta ou indiretamente. Ele assistiu o primeiro, marcou o segundo, tabelou com Erick Belé no terceiro e sofreu o pênalti convertido por Luighi no quarto. Esse nível de envolvimento em todas as jogadas de gol revela um jogador operando como articulador central do sistema, não como extremo convencional.
Erick Belé, 19 anos, marcou o terceiro após tabela com Anderson e saiu cara a cara com o goleiro Marcelo. Luighi converteu o pênalti que ele mesmo sofreu, aos seis minutos do segundo tempo. O Jacuipense só chegou ao gol aos 42 minutos da etapa final, em sua primeira finalização na partida — dado que evidencia o nível de compactação defensiva palmeirense mesmo com os reservas em campo.
Por que a profundidade do elenco é estrutural no Palmeiras
A análise publicada pelo SportNavo ao longo desta temporada mostrou que Abel Ferreira opera com dois blocos táticos de qualidade equivalente, não com um time titular e um banco. O que muda entre eles é a intensidade do pressing e o volume de posse — os reservas tendem a absorver mais o jogo e explorar transições, enquanto os titulares sustentam mais a bola e pressionam alto.

Gustavo Gómez, que jogou contra o Jacuipense, atingiu 26 partidas pelo clube na Copa do Brasil — a 10ª posição histórica no ranking da competição, ao lado de Márcio Araújo. Ele também superou Raphael Veiga, Valdivia e Marcos Assunção em número de vitórias pelo Verdão no torneio, chegando a 15. São números que indicam um jogador de referência, não de rotação.
Jhon Arias, outro que atuou na partida, chegou a 21 jogos pelo Palmeiras e se isolou na 9ª posição do ranking de colombianos com mais partidas pelo clube. A construção desse elenco não foi acidental.
O precedente histórico e o que ele revela sobre 2026
Em 2022, quando o Palmeiras venceu a Libertadores com rotação intensa, a crítica recorrente era que o calendário brasileiro forçava o rodízio e que o nível das partidas não permitia conclusões definitivas. O argumento perdeu força diante dos resultados: o clube foi campeão continental com jogadores que somavam funções distintas conforme o adversário.
O cenário atual tem uma diferença relevante: a invencibilidade de 16 jogos abrange três competições simultaneamente — 10 pelo Brasileirão, quatro pela Libertadores e duas pela Copa do Brasil. Não é um desempenho concentrado em uma frente. Como visitante, são nove partidas sem derrota, incluindo empates com Junior Barranquilla na Colômbia e Cerro Porteño no Paraguai, e vitória sobre o Sporting Cristal no Peru.
A comissão técnica portuguesa acumula 72 confrontos de mata-mata pelo Palmeiras, com 50 classificações ou títulos. Na Copa do Brasil especificamente, são 15 confrontos, um título e nove classificações. A gestão de elenco em jogos eliminatórios é uma das marcas mais consistentes do ciclo.
O adversário do Palmeiras nas oitavas de final será definido em sorteio da CBF, ainda sem data confirmada. Mas quem sair do pote vai encontrar um clube que goleou por 4 a 1 com os reservas — e que tem outro elenco inteiro esperando no banco.









