Dezenove anos de ausência e, quando o Arsenal voltou a uma final de Champions League, voltou invicto. Esse é o paradoxo que o Emirates Stadium celebrou na noite desta terça-feira (5): o clube que parecia condenado a viver de nostalgia construiu silenciosamente uma das campanhas mais sólidas da história recente do torneio europeu — e agora vai a Budapeste brigar pelo título que nunca teve.

Como o Arsenal desmontou o Atlético sem precisar de espetáculo

A semifinal de volta contra o Atlético de Madrid, vencida por 1 a 0 no Emirates, foi um retrato fiel do que este Arsenal representa taticamente. O time de Diego Simeone montou uma linha de cinco defensores, com Giuliano Simeone funcionando como ala-direito quando o Atleti tinha a bola e recuando para lateral quando perdia. Era uma retranca clássica do Cholo — e o Arsenal não entrou em pânico.

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Declan Rice foi o metrônomo da construção, dando ritmo e progressividade ao jogo inglês. A dupla de zaga formada por William Saliba e Gabriel Magalhães garantiu a solidez defensiva: o Arsenal completou o nono jogo sem sofrer gols nesta edição da Champions, número que fala mais alto do que qualquer discurso. Em termos de PPDA (passes permitidos por ação defensiva) — métrica que mede a intensidade da pressão — o Arsenal tem sido consistentemente um dos times que mais sufocam o adversário na saída de bola, forçando erros antes mesmo da área.

O gol saiu aos 44 minutos do primeiro tempo: Gyokeres recebeu na grande área e inverteu para Trossard, que bateu forte. Oblak espalmou e Bukayo Saka, no rebote, completou para o fundo da rede. Um gol que resume a eficiência do Arsenal — poucos finalizações, alta conversão. Em xG (expected goals), o time de Arteta tem uma das melhores taxas de conversão acima do esperado na competição: marca mais do que os modelos estatísticos preveem, o que indica qualidade técnica real nos finalizadores, não apenas volume.

Como o Arsenal desmontou o Atlético sem precisar de espetáculo O time que perdeu
Como o Arsenal desmontou o Atlético sem precisar de espetáculo O time que perdeu

Arteta, Saka e a reconstrução que ninguém apostou que daria certo

Quando Mikel Arteta assumiu o Arsenal em dezembro de 2019, o clube estava em nono lugar na Premier League e carregava anos de gestão erática. O espanhol não apenas reorganizou o elenco — ele reimplantou uma identidade. A aposta em jovens da base foi central nesse processo, e nenhum nome simboliza isso melhor do que Bukayo Saka.

Saka tinha 18 anos quando Arteta chegou. Hoje, aos 23, é o capitão e o principal nome do time — o autor do gol que colocou o Arsenal na final. Formado inteiramente na academia do clube em Hale End, ele representa algo raro no futebol moderno: um jogador que cresceu dentro da instituição e chegou ao topo sem precisar sair. Em termos de xA (expected assists), Saka é consistentemente um dos dez melhores criadores da Premier League, com capacidade de gerar oportunidades tanto pela condução quanto pelo passe em profundidade.

A campanha na Champions 2025/26 é a prova mais concreta dessa reconstrução: 11 vitórias e 3 empates em 14 jogos, 29 gols marcados e apenas 6 sofridos. O Arsenal foi o único time com 100% de aproveitamento na fase de liga, liderando a classificação geral. Na avaliação do SportNavo, essa consistência ao longo de uma campanha tão longa separa times bons de times verdadeiramente dominantes.

Arteta, Saka e a reconstrução que ninguém apostou que daria certo O time que per
Arteta, Saka e a reconstrução que ninguém apostou que daria certo O time que per

Uma métrica que ilustra bem o modelo de Arteta é o volume de progressive passes — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. O Arsenal é um dos líderes da Premier League nesse indicador, o que explica como o time transita rapidamente da defesa para o ataque sem depender de jogadas individuais.

Budapeste e o peso de uma final inédita

A única final de Champions do Arsenal antes desta foi em 2006, no Stade de France, quando o clube perdeu para o Barcelona por 2 a 1 após prorrogação — uma derrota que ficou marcada pela expulsão precoce de Jens Lehmann e pela resistência heróica com dez jogadores. Thierry Henry estava em campo naquele dia. Saka não tinha nem quatro anos.

Existe algo de Rocky nessa narrativa — não o campeão invicto, mas o lutador que apanha, reconstrói e volta mais inteligente. O Arsenal de 2006 era talentoso e emocional. O de 2026 é talentoso e metódico. A diferença está no processo que Arteta instalou ao longo de seis anos.

O adversário na final da Puskás Arena, em Budapeste, no dia 30 de maio, será definido nesta quarta-feira (6), quando Bayern de Munique e PSG se enfrentam na Allianz Arena. Os franceses venceram o jogo de ida por 5 a 4 no Parque dos Príncipes — um resultado que deixa a semifinal completamente aberta. Se o PSG avançar, o Arsenal enfrenta o atual campeão europeu. Se o Bayern passar, terá pela frente a equipe com a segunda melhor campanha da fase de liga, atrás apenas dos próprios Gunners.

Antes da decisão europeia, o Arsenal ainda tem compromisso doméstico: lidera a Premier League e visita o West Ham no próximo domingo, podendo dar um passo decisivo rumo ao título inglês — o primeiro em 22 anos. Dois troféus em jogo, uma geração formada em casa, e um técnico que transformou um clube à deriva em uma máquina de futebol posicional. A final de 30 de maio em Budapeste não é o destino desta equipe — é apenas o próximo movimento de uma partitura que Arteta vem compondo nota a nota desde 2019.