Confesso: eu subestimei a fragilidade física de Vitor Roque quando ele voltou ao Palmeiras após o tratamento no tornozelo esquerdo. Escrevi, em março, que o atacante havia superado o pior e que Abel Ferreira poderia contar com ele de forma consistente no segundo semestre. Quinze minutos contra o Jacuipense, na última quinta-feira no Allianz Parque, foram suficientes para me mostrar que a conta ainda não fechou.

A vitória que não esconde o alarme aceso em São Paulo

O Palmeiras cumpriu o roteiro esperado e venceu por 3 a 0 na ida da terceira fase da Copa do Brasil. Ramón Sosa foi o nome da noite — marcou duas vezes, teve outros dois gols anulados e entregou uma das melhores atuações individuais desde que chegou ao clube. Felipe Anderson completou o placar em momento decisivo para manter a tranquilidade no Allianz. Com 70% de posse de bola e 35 finalizações contra apenas cinco do adversário, o Verdão dominou de ponta a ponta, favorecido ainda pela expulsão de JP Talisca aos 36 minutos do primeiro tempo.

A leitura imediata, portanto, é confortável: vantagem construída, elenco rodado, moral elevado para o confronto de volta no dia 13 de maio, no Estádio do Café, em Londrina. Mas reparemos no detalhe que a goleada tende a encobrir — o camisa 9 que Abel escalou como titular, justamente para reinseri-lo em ritmo de jogo após semanas de recuperação, não completou nem um quarto de hora em campo.

A vitória que não esconde o alarme aceso em São Paulo O tornozelo de Vitor Roque
A vitória que não esconde o alarme aceso em São Paulo O tornozelo de Vitor Roque
"A postura faltosa do Jacuipense acabou custando caro e tirou o atleta de combate", registrou a cobertura da Gazeta Esportiva sobre o episódio que forçou a saída precoce do atacante.

O histórico que pesa mais do que um único jogo

A interpretação dominante no entorno palmeirense é a de que se trata de um susto isolado, um episódio de má sorte provocado pelo ímpeto faltoso de um adversário de menor expressão. Há lógica nessa leitura — o Jacuipense, clube baiano que disputa a Série D do Brasileirão, claramente adotou uma postura física para compensar a diferença técnica. Mas a contra-leitura exige honestidade: Vitor Roque já acumulou interrupções por problemas físicos desde que chegou ao futebol brasileiro, e o tornozelo esquerdo especificamente o tirou de ação por semanas antes desta partida.

Historicamente, o Palmeiras de Abel Ferreira construiu sua hegemonia — dois títulos da Libertadores, em 2020 e 2021, e múltiplos campeonatos nacionais — sobre uma base de profundidade de elenco. O técnico português sempre soube redistribuir responsabilidades quando peças importantes saíam. Flaco López, por exemplo, parou em um milagre do goleiro Marcelo nos acréscimos da etapa final contra o Jacuipense, mostrando que há alternativas operacionais. Mas Vitor Roque representa um investimento de outra magnitude — e uma lacuna tática específica que nem López nem os demais atacantes do grupo preenchem da mesma forma.

"Abel optou por levar a campo um time misto, preservou alguns titulares e deu minutos a outros jogadores", segundo o relato da Gazeta Esportiva — estratégia que funcionou no placar, mas não pôde ser testada com o centroavante que o treinador mais quer ver em ritmo de jogo.

O que a sequência de maio exige do Palmeiras sem garantias no ataque

A síntese que o momento pede não é catastrofista, mas tampouco é tranquilizadora. O Palmeiras tem pela frente uma sequência que combina rodadas do Campeonato Brasileiro com compromissos pela Libertadores — competição em que o clube busca o tricampeonato continental. Nesse contexto, a disponibilidade de Vitor Roque não é um detalhe de rotação; é uma variável que pode definir o perfil ofensivo da equipe nos momentos de maior exigência.

O histórico que pesa mais do que um único jogo O tornozelo de Vitor Roque e o qu
O histórico que pesa mais do que um único jogo O tornozelo de Vitor Roque e o qu

Ramón Sosa demonstrou, contra o Jacuipense, que pode carregar responsabilidade ofensiva quando necessário. Felipe Anderson segue como opção de qualidade técnica. Mas Abel Ferreira escalou o camisa 9 como titular justamente porque precisava que ele acumulasse minutos — e o plano durou menos de um quarto de hora. O diagnóstico médico das próximas horas dirá se a nova interrupção é curta ou longa, mas o padrão de recorrência já é, por si só, um dado que a comissão técnica não pode ignorar ao planejar maio e junho.

O Palmeiras volta a campo pelo Brasileirão antes do confronto de volta contra o Jacuipense, e Abel precisará decidir se arrisca Vitor Roque novamente ou se o preserva até que haja mais certeza sobre sua condição física. Uma boa música só se completa quando todas as notas chegam no compasso certo — e o Palmeiras ainda espera que o seu centroavante encontre o ritmo sem quebrar a melodia no meio do caminho.