Diz-se que Pep Guardiola toma decisões com base em dados, em padrões táticos, em métricas de construção de jogo que poucos técnicos do mundo conseguem processar com a mesma velocidade. Na maioria das vezes, isso é verdade. Mas existe pelo menos uma decisão, tomada em 2016, que os números não explicam — e que o próprio Guardiola, dez anos depois, ainda carrega.
O técnico catalão confirmou que deixará o Manchester City após o último jogo da temporada, contra o Aston Villa neste domingo (24). Em entrevista à Sky Sports, ele foi perguntado sobre arrependimentos. Poderia ter falado de finais de Champions League mal aproveitadas, de transferências que não deram certo, de esquemas que falharam em noites decisivas. Escolheu falar de um goleiro.
"Quero confessar algo. Tenho apenas um arrependimento. Não dei a Joe Hart a oportunidade de trabalhar comigo, de me provar o quão bom goleiro ele era. E eu deveria ter feito isso."
O goleiro que não cabia no modelo de Guardiola
Para entender o que aconteceu com Joe Hart em 2016, é preciso entender o que Guardiola exige de um goleiro dentro do seu sistema — e isso vai muito além de defesas espetaculares.
Em um time que opera com pressão alta e construção desde o fundo, o goleiro funciona como um terceiro zagueiro com os pés. As métricas que definem esse perfil são bem específicas. Guardiola precisa de um arqueiro com alto volume de passes progressivos — aqueles que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário — e capacidade de participar ativamente do pass network, a rede de trocas de bola que o City usa para sair da pressão e criar superioridade numérica no meio.
Hart, à época, era um goleiro clássico no sentido mais tradicional da palavra. Quatro Luvas de Ouro da Premier League provam que ele era excelente no que fazia — mas o que fazia não era exatamente o que Guardiola precisava. A solução foi contratar Claudio Bravo, que chegou do Barcelona com credenciais técnicas sólidas com os pés, mas que acabou sofrendo em outros aspectos defensivos fundamentais.
O problema com Bravo ficou evidente rapidamente. O chileno tinha bons números de passes completados e saídas de bola, mas seu xG concedido — métrica que mede a diferença entre os gols esperados pelos adversários e os gols efetivamente marcados — foi negativo durante boa parte da sua passagem. Em termos simples: ele defendia menos do que o esperado para um goleiro do City.
O que os números de Ederson revelam sobre a transição que poderia ter sido diferente
Um ano depois de Bravo, o City foi buscar Ederson no Benfica — e aí sim o projeto de Guardiola ganhou o goleiro que ele precisava. O brasileiro se tornou referência mundial exatamente nas métricas que o técnico catalão prioriza:
- Passes progressivos por 90 minutos: Ederson consistentemente figurou entre os três goleiros com maior volume nessa categoria na Premier League durante suas primeiras temporadas no City
- Lançamentos longos com precisão acima de 60%: uma raridade para goleiros que jogam com os pés na frequência que o sistema de Guardiola exige
- xG concedido positivo: Ederson defendeu mais do que o esperado em múltiplas temporadas, combinando segurança técnica com reflexos de elite
O que a confissão de Guardiola sugere é que essa transição — de Hart para Bravo, e depois de Bravo para Ederson — poderia ter sido conduzida de outra forma. Talvez Hart tivesse a adaptabilidade técnica que Guardiola nunca testou. Talvez não tivesse. Mas a janela de oportunidade nunca foi aberta.
"Todo o respeito ao Claudio, todo o respeito ao Ederson, que foi importante, mas naquele momento eu deveria ter pensado: 'Ok, Joe, vamos tentar juntos e, se não funcionar, a gente muda'. Mas não foi assim que aconteceu. A vida é assim às vezes. Tenho que tomar decisões e às vezes não sou justo o suficiente."
O preço que Joe Hart pagou pela decisão de 2016
Guardiola chamou Hart de "lenda" ao justificar o arrependimento — e o currículo do goleiro no City sustenta o título. Dois títulos da Premier League, uma FA Cup, duas Copas da Liga e quatro Luvas de Ouro compõem um legado respeitável para qualquer jogador.
Mas o empréstimo ao Torino, em 2016, marcou o início de uma queda que foi além das fronteiras do clube. Hart perdeu ritmo na Serie A italiana, depois passou por uma passagem difícil no West Ham, e foi progressivamente perdendo espaço na seleção inglesa. O resultado mais concreto desse processo chegou em 2018: Hart ficou fora da Copa do Mundo da Rússia, substituído definitivamente por Jordan Pickford, que desde então se consolidou como titular absoluto dos Three Lions.
A trajetória de Hart depois de Manchester é um exemplo de como uma única decisão institucional pode reconfigurar completamente a carreira de um atleta. Não foi falta de qualidade — foi falta de oportunidade dentro de um sistema que mudou as regras do jogo para goleiros antes mesmo que Hart pudesse tentar se adaptar a elas.
Guardiola encerra sua era no City no domingo (24/05), contra o Aston Villa, carregando 20 títulos conquistados em dez temporadas — e um nome que nenhum troféu conseguiu apagar da memória. Em junho, quando o clube anunciar oficialmente o sucessor do técnico espanhol, será a primeira vez em uma década que um goleiro do City não precisará se perguntar se atende ao padrão de Guardiola. Joe Hart, agora aposentado desde 2021, soube disso antes de qualquer um.










