— Cara, você viu o que o Neymar fez com o Robinho Jr. no treino?
— Vi. Rasteira e tapa no rosto. Num garoto da base.
— E o vestiário? Fechou com quem?

Essa é exatamente a pergunta que o Santos precisa responder antes de qualquer jogo. No domingo (3), durante atividade no CT Rei Pelé, Neymar se irritou após ser driblado por Robinho Jr., aplicou uma rasteira e desferiu um tapa no rosto do jovem. O episódio não ficou restrito ao campo: o estafe do garoto formalizou uma notificação extrajudicial ao clube, acusando o camisa 10 de xingamentos ofensivos e agressão física, e solicitou reunião com a diretoria para discutir rescisão contratual por "ausência de condições mínimas de segurança" no ambiente de trabalho.

O que a notificação extrajudicial revela sobre o ambiente no Santos

Há quem diga que briga em treino é coisa corriqueira no futebol, que o vestiário resolve por dentro e pronto. Felipe Bastos, ex-jogador e comentarista do SporTV, foi nessa direção no programa Troca de Passes:

"Tem coisas dentro do futebol que são resolvidas lá dentro. O mundo do futebol te obriga a ser homem, dentro do campo. Se resolve ali dentro, briga dentro. Não leva para fora."

O argumento soa razoável até o momento em que se lê o teor do documento protocolado. Uma notificação extrajudicial com pedido de rescisão não é briga de treino — é ruptura institucional. Reparemos no detalhe: o próprio Bastos contradisse sua tese na sequência da fala, ao admitir que "agressão não está certo" e que os jogadores precisam repreender Neymar internamente. Se a solução fosse tão simples quanto um aperto de mão no vestiário, não haveria advogado envolvido.

"O Neymar não está certo, agressão não está certo. Tive um companheiro de trabalho que deu um tapa na cara de um menino, na base, e a gente repreendeu no vestiário. Os jogadores têm que repreender o Neymar", completou Bastos.

Cuca entre o jogo decisivo e o impacto emocional no camisa 10

O Santos embarcou para o Paraguai com Neymar entre os relacionados, mas o técnico Cuca avalia poupar o atacante diante do Deportivo Recoleta, no Estádio Monumental Río Parapití, em Ponta Porã, pela quarta rodada da Copa Sul-Americana. A comissão técnica entende que o jogador ficou abalado com as consequências do episódio. Neymar reconheceu o erro, pediu desculpas a Robinho Jr., à família do jovem e ao restante do elenco — o que demonstra consciência do excesso, mas não apaga o fato.

O timing é péssimo. O Santos ocupa a última posição do Grupo D da Sul-Americana, com apenas dois pontos, e acumula seis partidas sem vitória. Abrir mão de Neymar num jogo que o clube precisa vencer para manter qualquer chance de classificação seria como tentar atravessar um temporal sem trovão — você sente a pressão no ar, mas não sabe de onde vem o raio. A decisão de Cuca vai revelar o quanto o episódio realmente abalou o grupo.

O SportNavo acompanhou a repercussão do caso desde o domingo e o que chama atenção é a velocidade com que o clube tentou fechar o assunto: a direção santista declarou internamente que o incidente estava encerrado, sem sinal de desgaste maior no vestiário. Mas uma notificação extrajudicial com pedido de rescisão não se encerra por decreto da diretoria.

O que falta resolver para o Santos seguir em frente

A versão oficial do clube é de que Neymar e Robinho Jr. mantêm boa relação desde o início de 2025, quando o camisa 10 passou a acolher mais de perto os jovens do elenco. Essa narrativa serve para conter o dano imediato, mas ignora o fato de que o estafe do garoto já acionou mecanismos jurídicos — o que significa que a resolução não depende mais apenas da vontade das partes dentro do CT.

A reunião solicitada pela família de Robinho Jr. com a diretoria do Santos ainda não aconteceu. Até que ela ocorra — e até que o clube apresente uma resposta concreta sobre as condições de trabalho do jovem —, o vestiário santista vai carregar esse peso. Neymar pediu desculpas. Isso é necessário, mas não suficiente. O Santos joga contra o Deportivo Recoleta nesta terça-feira (5), às 21h30 (horário de Brasília), precisando vencer para não ser eliminado da Sul-Americana antes do tempo.