A comemoração pela vitória sobre o Red Bull Bragantino ainda ecoava nos corredores da Vila Belmiro quando o presidente Marcelo Teixeira entrou no vestiário e encontrou um ambiente bem diferente do que esperava. Jogadores cobraram, em voz alta, os atrasos no pagamento — e o dirigente saiu de lá com uma promessa que ainda não virou depósito bancário.
O que os números revelam sobre a dívida com o elenco do Santos
O Santos acumula três parcelas consecutivas de direitos de imagem sem pagamento. A terceira venceu neste domingo, 11 de maio. Além disso, o clube não quitou o salário registrado em carteira referente ao mês de abril e deixou de recolher o FGTS dos atletas — uma obrigação trabalhista cujo descumprimento já configura, por si só, motivo para rescisão indireta. Há ainda premiações atrasadas, o que amplia o passivo total com o elenco. A maior parte dos jogadores recebe sua remuneração dividida entre o contrato CLT e os direitos de imagem — modelo padrão no futebol brasileiro que, juridicamente, equipara a verba de imagem a salário quando há habitualidade e dependência financeira.
O que dizem os protagonistas dentro e fora do campo
Segundo apuração do UOL Esporte, Teixeira prometeu pagar "o antes possível" os salários de abril e pelo menos uma das parcelas de direitos de imagem em aberto. A frase, vaga em prazo e valor, não acalmou o elenco.
"O antes possível", teria dito Marcelo Teixeira aos jogadores no vestiário após a vitória sobre o Bragantino, segundo relato de pessoas presentes na reunião.
O técnico Cuca, que figura entre os maiores salários do clube, também não recebeu. A comissão técnica está no mesmo barco que os atletas — o que transforma a insatisfação de vestiário em algo mais estruturado do que uma reclamação isolada. Funcionários que recebem os menores vencimentos, por sua vez, estão em dia, segundo a mesma apuração.
O risco real de perder jogadores sem receber nada em troca
A legislação trabalhista brasileira é clara: três meses de atraso em verbas que configuram salário abrem caminho para a rescisão indireta — o equivalente a uma demissão sem justa causa, mas de iniciativa do empregado. Na prática, o atleta entra com ação na Justiça do Trabalho, obtém o reconhecimento do vínculo rescindido e sai do clube sem qualquer multa contratual. O Santos, nesse cenário, perderia o jogador de graça — sem receber a cláusula de transferência — e ainda teria de quitar todas as verbas atrasadas corrigidas.
Até o momento, nenhum atleta formalizou ação trabalhista, mas o prazo para isso se encurta a cada semana que passa sem depósito. A Copa do Brasil coloca pressão imediata sobre esse quadro: na quarta-feira, 14 de maio, o Santos enfrenta o Coritiba em jogo decisivo pela competição, e a comissão técnica reconhece que a insatisfação financeira contamina a preparação. Jogar com a cabeça dividida entre o campo e o extrato bancário é o tipo de desgaste que nenhum esquema tático resolve — esse é o peso invisível que Cuca carrega agora.
Quem acompanha o Santos de perto deve monitorar os próximos cinco dias com atenção: se o clube não depositar ao menos uma parcela de direitos de imagem e o salário de abril antes da partida de quarta, o risco de uma ação trabalhista pioneira — que poderia abrir precedente para outros jogadores do elenco — se torna concreto. Vale acompanhar o desfecho dessa negociação com o mesmo cuidado que se reserva para uma final de Copa do Brasil.








