O Vitória tem 25 pontos no Campeonato Brasileiro — e apenas cinco deles foram conquistados fora de Salvador. Um time que vence em casa e não pontua como visitante não está em crise: está dividido em dois times distintos, um deles tecnicamente inviável para permanecer na Série A. Esse é o paradoxo que a temporada do Leão da Barra impõe a qualquer análise séria.
Quatorze jogos, zero vitórias e um saldo que denuncia o colapso defensivo
Depois da derrota por 4 a 3 para o Vasco em São Januário, no último dia 5 de outubro, o Vitória chegou a 14 partidas como visitante no Brasileirão sem uma única vitória — cinco empates e nove derrotas. O aproveitamento de 11,9% é o pior entre todos os times da Série A. Para ter parâmetro: o Juventude, segundo pior visitante, também soma cinco pontos fora de casa, mas pelo menos já venceu uma partida.
O argumento mais frequente entre os defensores do clube é o de que o calendário como visitante foi ingrato, com adversários qualificados. Há alguma consistência nisso. Cruzeiro (3º), Bragantino (9º) e Palmeiras (líder) ainda entram nessa conta. Mas o problema é que o Vitória perdeu também para adversários diretos na luta contra o rebaixamento — e o saldo de gols sofridos fora de casa, 32 contra apenas 12 marcados, não é explicado apenas pela qualidade do adversário. É um colapso defensivo sistêmico.
O técnico Jair Ventura colocou o dedo na ferida ao comentar os desfalques para o jogo contra a Chapecoense:
"Quando você abre mão de um cara na primeira ou segunda linha para ter alguém lá na frente, você abre mão de alguém para defender. É um cobertor curto. A gente já sabe o que tem que fazer. Hoje a principal situação é como reagir aos gols sofridos. Isso não pode permanecer, se não vamos ficar como no ano passado, refém de vencer em casa."A frase é um diagnóstico involuntário: o clube reconhece o padrão e ainda não encontrou o antídoto.
O jejum que reescreve a história recente do clube em pontos corridos
Em doze participações no Campeonato Brasileiro desde a adoção do formato de pontos corridos, o Vitória nunca havia chegado ao segundo turno sem ao menos uma vitória como visitante. O recorde anterior de demora era de 2010, quando o clube só venceu fora na 15ª rodada, no oitavo jogo longe do Barradão. Agora, com 14 partidas disputadas e ainda zerado em triunfos, o clube ultrapassou essa marca com folga.

A comparação histórica é ainda mais severa quando se olha o aproveitamento. Em 2004 — quando 24 equipes disputavam a competição, ou seja, o Vitória jogava quatro rodadas a mais fora de casa — o clube somou sete pontos como visitante, com 9,7% de aproveitamento. Os atuais 11,9% superam esse número percentualmente, mas o contexto é diferente: em 2004 havia mais jogos para recuperar. Hoje, com cinco compromissos restantes fora de Salvador, contra Santos, Cruzeiro, Bragantino, Sport e Palmeiras, a margem de recuperação é estreita e o calendário, desfavorável.
A última vitória do Vitória como visitante na Série A data de 20 de novembro de 2024, quando o time venceu o Criciúma por 1 a 0 no Heriberto Hülse, com gol de Janderson e assistência de Matheuzinho — jogadores que já deixaram o clube. Desde então, são 16 jogos consecutivos fora de Salvador sem vitória, contabilizando as rodadas finais da edição anterior: sete empates, nove derrotas, e uma diferença de gols de -20.

O que os números da UFMG dizem sobre a sobrevivência do Leão
O Departamento de Matemática da UFMG calcula o risco de rebaixamento do Vitória em mais de 81%, com o clube na 17ª colocação e 25 pontos. Para escapar da Série B, a equipe precisaria de pelo menos 45 pontos — ou seja, mais 20 nas 13 rodadas restantes. A projeção é que, mesmo vencendo todos os sete jogos que restam no Barradão, o clube chegaria a 43 pontos, ainda com 11,57% de risco de queda. A matemática é clara: não há salvação sem pontuar fora de casa.
O problema concreto é que as cinco partidas restantes como visitante incluem o Cruzeiro, terceiro colocado, e o Palmeiras, líder da competição. Os dois adversários mais acessíveis são o Santos (16º) e o Sport (20º), ambos também na briga contra o rebaixamento. Pontuar nesses dois jogos seria o mínimo razoável — e ainda assim, insuficiente se os resultados em casa não forem maximizados.
O Vitória enfrenta o Bahia no Barradão no dia 16 de outubro, pela 28ª rodada, antes de viajar para a Vila Belmiro enfrentar o Santos. Conseguir vencer o clássico BaVi e, na sequência, quebrar o jejum de quase um ano fora de Salvador contra um adversário direto na tabela: é essa sequência específica de dois jogos que vai definir se o Leão ainda tem condições reais de escapar. Qual resultado você considera mais provável — empate no Barradão e vitória em Santos, ou o caminho inverso?








