Diz-se que o PSG domina Paris com mão de ferro, que a cidade inteira se curva ao projeto qatari. Reparemos no detalhe: na última semana, um clube recém-promovido, com estádio para 20 mil pessoas e orçamento que cabe numa parcela do salário de Kvaratskhelia, olhou para a Ligue de Football Professionnel nos olhos e disse não. O Paris FC recusou sediar a cerimônia de entrega da taça da Ligue 1 ao PSG após o jogo deste domingo, 17 de maio, no Stade Jean Bouin. E essa recusa, pequena na escala do futebol europeu, diz mais sobre o clássico parisiense do que qualquer estatística de posse de bola.

A noite em Bollaert que mudou o roteiro parisiense

Na quarta-feira, 14 de maio, o PSG foi ao Stade Bollaert-Delelis enfrentar o Lens e voltou com o título na bagagem. Uma vitória por 2 a 0, com gols de Khvicha Kvaratskhelia e do jovem Ibrahim Mbaye — 18 anos, senegalês, que recebeu passe preciso de Désiré Doué e acertou a bola na trave antes de ela entrar, num chute que soou como trovão numa tarde que até então parecia morna. Era o 14º título francês do clube, o segundo consecutivo. A festa em Paris tomou as ruas. Faltava apenas um detalhe logístico: onde levantar a taça oficialmente.

A LFP pediu ao Paris FC que hospedasse a cerimônia de premiação depois da partida deste domingo. A resposta veio rápida e direta: não. O clube tinha seus próprios planos para encerrar a temporada — homenagens a jogadores que deixam o clube ao fim do contrato e um show de fogos de artifício para a torcida que acompanhou a estreia histórica na elite do futebol francês. Ceder o palco ao rival, depois do apito final, não estava no script. Segundo o L'Équipe, a LFP inicialmente aceitou a posição do clube e começou a buscar outra data para a entrega da taça. Até quinta-feira à noite, um acordo intermediário ganhava forma: a taça poderia ser entregue ao PSG antes do aquecimento, num formato reduzido, diferente da tradicional cerimônia pós-jogo.

Antoine Kombouare e o Paris FC que não se curva

Há um fio condutor nessa história que começa antes do impasse da taça. O técnico Antoine Kombouare transformou o Paris FC numa equipe que incomoda de verdade. Nesta temporada, a média de gols por partida do clube é de 2,8 — número que coloca os jogos da equipe entre os mais movimentados da Ligue 1. Foram exatas 11 partidas com mais de 3,5 gols em 33 rodadas, o mesmo número registrado pelo PSG no mesmo período. Kombouare pode terminar a temporada com o clube entre os dez primeiros, uma façanha para um time recém-promovido.

A noite em Bollaert que mudou o roteiro parisiense O vizinho recusou a festa e o
A noite em Bollaert que mudou o roteiro parisiense O vizinho recusou a festa e o

O histórico recente entre os dois clubes tem sabor amargo para o PSG. O Paris FC eliminou o rival na Coupe de France com uma vitória por 1 a 0, interrompendo qualquer sonho de treble. Nos últimos seis confrontos entre os dois, o Paris FC venceu apenas uma vez, mas somou três empates — o que, para um clube de menor porte, equivale a pontos de honra acumulados. O SportNavo mapeou que, nos últimos cinco jogos em casa, o Paris FC venceu quatro, o que transforma o Stade Jean Bouin num ambiente hostil mesmo para os campeões franceses.

Para este domingo, há dúvida sobre a presença de Willem Geubbels, artilheiro da equipe ao lado de Marshall Munetsi — ambos com três gols cada na Ligue 1. Mamadou Mbow está suspenso. O provável time do Paris FC começa com Kevin Trapp no gol, ex-Eintracht Frankfurt que acumula três jogos sem sofrer gols nos últimos dez confrontos.

Luis Enrique poupa o elenco e mira o Arsenal em 30 de maio

Do outro lado, o PSG chega ao Stade Jean Bouin com a cabeça em Munique — ou onde quer que seja disputada a final da Champions League contra o Arsenal, marcada para 30 de maio. Luis Enrique deve poupar os titulares mais desgastados. Achraf Hakimi, Willian Pacho e Nuno Mendes estão lesionados, e o treinador espanhol não vai arriscar nenhum nome importante num jogo que, do ponto de vista da tabela, já não tem consequência alguma.

O provável time titular tem cara de laboratório: Matvey Safonov no gol; Warren Zaïre-Emery e Lucas Hernandez nas laterais; Marquinhos e Lucas Beraldo na zaga. No meio, João Neves deve jogar por volta de 60 minutos antes de ser preservado. O jovem Dro Fernandez, 18 anos, entra em seu terceiro jogo consecutivo como titular — uma aposta clara de Luis Enrique na renovação. Na frente, Ibrahim Mbaye, que marcou contra o Lens, deve começar pela direita ao lado de Bradley Barcola e Gonçalo Ramos — o português, alvo de rumores de saída ao fim da temporada, tem mais uma chance de mostrar serviço.

A partida tem o perfil de um jogo com espaços. O Paris FC pressiona bem nos primeiros minutos — como uma maré que sobe rápido antes de a corrente mudar — e o PSG, com um time misto, pode conceder contra-ataques que normalmente não existiriam com o elenco completo. Nos últimos cinco jogos do Paris FC, três terminaram com mais de 3,5 gols no total. A combinação de um time que ataca com liberdade e um rival que protege suas peças principais cria condições para uma tarde de gols no 16º arrondissement.

O jogo começa às 16h (horário de Brasília) deste domingo, 17 de maio, no Stade Jean Bouin. Seja antes do aquecimento ou não, a taça da Ligue 1 vai passar pelas mãos de Marquinhos em algum momento do dia. Depois disso, o PSG tem exatamente duas semanas para preparar o que pode ser o título mais importante de sua história recente: a segunda final consecutiva da Champions League, desta vez diante do Arsenal.