152 partidas com a camisa do México — esse é o número que Guillermo Copa do Mundo Ochoa carrega no peito ao entrar, nesta segunda-feira, na sua última concentração com La Tricolor. O goleiro de 40 anos anunciou nas redes sociais que o Mundial de 2026 encerra seu ciclo com a seleção, e a declaração foi ao mesmo tempo manifesto e epitáfio de uma geração.

"Voltar a vestir esta camisa nunca foi rotina… foi um privilégio. Hoje começa minha última concentração. Mas desta vez a vejo de forma diferente. Com o coração mais cheio, com mais cicatrizes, mais lembranças… e a mesma ilusão daquele menino que um dia sonhou em defender este escudo", escreveu Ochoa.

Caso entre em campo na competição, o arqueiro — atualmente no AEL Limassol, do Chipre — atingirá seis participações em Copas do Mundo, marca que o equipara a Lionel Messi e Cristiano Ronaldo. Ochoa só ganhou a convocação após a lesão do então titular Malagón, o que torna sua presença ainda mais carregada de significado simbólico: o veterano que volta pela porta dos fundos e pela grandeza da história.

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Ochoa e a matemática do impossível nas grandes competições

Ser o terceiro jogador com mais partidas pela seleção mexicana não é dado decorativo. Num torneio em que a métrica de Post-Shot Expected Goals (PSxG) — que mede quantos gols um goleiro deveria ter sofrido com base na qualidade dos chutes recebidos — costuma expor a vulnerabilidade de arqueiros de alto nível, Ochoa construiu sua reputação exatamente ao inverter essa lógica: em 2014, no Brasil, defendeu chutes de Neymar, David Luiz e Hulk com uma taxa de salvamento que estatísticos do futebol ainda usam como referência para explicar o conceito de goleiro acima da expectativa. Sua atuação naquele jogo virou caso de estudo sobre como um único atleta pode distorcer resultados esperados.

A Copa de 2026, disputada em solo norte-americano, tem para o México um apelo territorial que amplifica a pressão sobre o elenco comandado por Javier Aguirre. Jogar em casa, com Ochoa como símbolo de continuidade, é tanto ativo emocional quanto fardo institucional.

Dzeko aos 40 e a Bósnia que chegou primeiro à lista de convocados

O drama das despedidas não é exclusividade mexicana. A Bósnia e Herzegovina tornou-se a primeira seleção a divulgar seus 26 convocados para o Mundial, e o técnico Sergej Barbarez manteve Edin Dzeko, 40 anos, como peça central do ataque. O centroavante — hoje no Schalke 04, clube que também abriga o defensor Nikola Katic — acumula 73 gols em 148 partidas pela seleção, média de 0,49 por jogo, o que o torna o maior artilheiro da história do país.

Será a segunda Copa da Bósnia, doze anos depois da estreia em 2014, no Brasil, quando a equipe caiu na fase de grupos com duas derrotas — 2 a 1 para a Argentina e 1 a 0 para a Nigéria — e uma vitória, justamente com gol de Dzeko, sobre o Irã por 3 a 1. A seleção está no Grupo B, com estreia marcada para 12 de junho contra o Canadá, em Toronto. Além do veterano, a lista inclui nomes como Ermedin Demirovic, do Stuttgart, e Sead Kolasinac, da Atalanta, indicando que o elenco tem mais camadas do que a narrativa centrada no capitão sugere.

Romário na CazéTV e o colapso institucional de Curaçao

Enquanto despedidas se organizam em campo, o entorno do torneio também se movimenta. A CazéTV confirmou a contratação de Romário, tetracampeão mundial em 1994 e atual senador, para integrar a equipe de transmissão diretamente dos Estados Unidos. O canal exibirá todos os 104 jogos da competição, com 52 em exclusividade, e já havia utilizado o ex-atacante na cobertura da final do Mundial de Clubes de 2025. A estreia do Brasil está marcada para 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

O contraste com Curaçao não poderia ser mais agudo. A seleção caribenha, debutante em Copas do Mundo e integrante do Grupo E ao lado de Alemanha, Costa do Marfim e Equador, perdeu nesta segunda-feira o técnico Fred Rutten, que deixou o cargo após apenas três meses e dois amistosos — derrotas por 2 a 0 para a China e 5 a 1 para a Austrália. A justificativa oficial aponta para instabilidade interna e falta de apoio de parte dos jogadores.

"Não pode haver um clima que prejudique as relações profissionais saudáveis dentro da equipe ou da comissão técnica. É por isso que renunciar é a decisão certa. O tempo está passando, e Curaçao precisa seguir em frente", declarou Rutten em comunicado oficial.

A federação local tem agora menos de cinco semanas para nomear um substituto antes da estreia, marcada para 14 de junho contra a Alemanha. A crise de governança esportiva em Curaçao é, nesse sentido, o reverso estrutural das histórias de Ochoa e Dzeko: enquanto estes encerram trajetórias construídas ao longo de décadas, a seleção caribenha chega à sua primeira Copa sem saber quem vai sentar no banco.