Uma chama que não apaga nem quando o combustível acaba.

É essa a imagem que melhor descreve o que os quatro sobreviventes brasileiros do voo LaMia 2933 fizeram com o tempo que o destino lhes devolveu em 29 de novembro de 2016. Setenta e uma pessoas morreram naquela madrugada próxima ao Cerro El Gordo, na Colômbia, quando o avião que levava a delegação da Chapecoense à final da Copa Sul-Americana caiu durante o procedimento de aproximação. A narrativa popular que se cristalizou desde então é a do milagre — seis sobreviventes entre 77 a bordo, quatro deles brasileiros, todos destinados a virar símbolo. Mas reduzir essas trajetórias ao rótulo de "milagre" é ignorar as fraturas, as amputações, as aposentadorias forçadas e as reconstruções profundas que vieram depois.

O que Follmann ergueu além da taça da Sul-Americana

Jakson Follmann foi o último dos quatro sobreviventes brasileiros a receber alta hospitalar — quase 50 dias após o acidente, no dia 24 de janeiro de 2017, pelo Hospital da Unimed em Chapecó. Ele saiu em cadeira de rodas, com parte da perna direita amputada abaixo do joelho, mas com uma fala que desconcertou quem esperava apenas lágrimas:

"Saio feliz, forte, praticamente curado de tudo. Tenho muito orgulho de como meu corpo está hoje." — Jakson Follmann, na coletiva de alta hospitalar, janeiro de 2017.

Três dias antes da alta, Follmann já havia aparecido em público para erguer o troféu da Copa Sul-Americana na Arena Condá, no amistoso entre Chapecoense e Palmeiras — uma cena que parou o futebol brasileiro. A partir daí, ele construiu uma segunda carreira completamente fora dos gramados: passou pela equipe de comentaristas da Fox Sports, venceu o reality musical PopStar da TV Globo em 2019, gravou um álbum no ano seguinte e consolidou uma atuação como influenciador digital e palestrante. O vínculo com a Chapecoense se manteve, mas como embaixador do clube, não como atleta.

Alan Ruschel trocou de assento e voltou a jogar — esse detalhe não é metáfora

Alan Ruschel foi a primeira vítima resgatada do avião. O lateral sofreu fratura na décima vértebra e compressão na tíbia — lesões que, para qualquer prognóstico razoável, encerravam uma carreira profissional. A história, porém, tomou outro rumo. Ele foi também o único dos atletas sobreviventes que voltou a jogar futebol em alto nível. Em 2020, foi peça importante na campanha que levou a Chapecoense de volta à Série A, e na temporada seguinte assinou contrato com o Cruzeiro.

O detalhe que o próprio Ruschel carrega como marca permanente foi revelado ao Fantástico: ele sobreviveu porque trocou de lugar no avião durante o voo, indo sentar ao lado de Follmann. A poltrona que ocupava anteriormente ficou em uma das áreas de maior impacto na queda. Quando voltou à sua cidade natal, Nova Hartz, no Rio Grande do Sul, ele se emocionou ao recordar esse momento — não como sinal divino, mas como uma escolha banal que mudou tudo.

O que Follmann ergueu além da taça da Sul-Americana Oito anos depois, o que fico
O que Follmann ergueu além da taça da Sul-Americana Oito anos depois, o que fico
"Fui sentar com o Follmann" — Alan Ruschel, em depoimento ao Fantástico, ao explicar por que sobreviveu à tragédia da LaMia.

A trajetória de Ruschel desmonta a ideia de que sobreviver ao acidente significava, automaticamente, encerrar a vida no futebol. Ele provou o contrário com rendimento em campo, não com discurso.

Rafael Henzel, Neto e a disputa que ainda não acabou nos tribunais

O jornalista Rafael Henzel, que cobria a Chapecoense pela rádio Oeste Capital, retomou a carreira na comunicação após a recuperação — uma das histórias de reinvenção mais simbólicas entre os sobreviventes, porque representou a volta ao exato ofício que o colocou naquele avião. Henzel faleceu em abril de 2019, vítima de infarto, mas deixou registrado o quanto a retomada profissional foi central para sua recuperação após o acidente.

O zagueiro Neto, último a ser resgatado com vida dos destroços, tentou retornar aos gramados, mas anunciou aposentadoria definitiva em 2019 em entrevista à NSC TV, declarando que as dores físicas superavam o prazer de jogar. Assumiu a função de superintendente de futebol da Chapecoense e, segundo apuração do SportNavo, segue atuando como palestrante e como uma das vozes mais ativas na defesa dos familiares das vítimas em disputas judiciais que ainda tramitam oito anos depois — contra a companhia LaMia e demais responsáveis pela operação do voo.

A narrativa do milagre, portanto, precisa ser lida com mais rigor. Dois dos quatro atletas brasileiros não voltaram a jogar profissionalmente. Um deles morreu três anos depois. As famílias de 71 vítimas ainda aguardam desfecho judicial. O que existe não é um final feliz coletivo, mas quatro trajetórias distintas de pessoas que reconstruíram identidade, profissão e propósito a partir de um ponto de fratura absoluto — e isso é mais complexo, e mais real, do que qualquer versão simplificada da história. Para quem quiser entender melhor esse processo de luto e reconstrução no futebol brasileiro, acompanhar os próximos desdobramentos judiciais do caso LaMia — previstos para 2026 nos tribunais colombianos — é o próximo capítulo concreto desta história.