Diz-se que convocações às vésperas de Copa do Mundo servem para confirmar o óbvio — a espinha dorsal já está formada, os titulares estão definidos, e os novatos aparecem apenas para preencher protocolo. Copa do Mundo de 2026, porém, chegou com Carlo Ancelotti invertendo essa lógica com uma clareza desconcertante: para os amistosos de março contra França (dia 26) e Croácia (dia 31), o técnico italiano chamou oito jogadores que jamais haviam integrado uma lista sua à frente da Seleção Brasileira. Não é improviso — é uma declaração de que a lista de 26 que parte para os Estados Unidos em junho ainda está em disputa aberta.
Igor Thiago, Rayan e Endrick — os atacantes que forçaram a porta
O número que mais impressiona nessa convocação vem de um centroavante surgido no Cruzeiro e hoje vestindo a camisa do Brentford na Premier League. Endrick aparece na lista, mas é Igor Thiago, 24 anos, quem rouba o holofote estatístico: vice-artilheiro da Premier League na temporada 2025/2026, com 18 gols, atrás apenas de Erling Haaland. Para contextualizar o peso desse número — nenhum brasileiro havia terminado uma temporada inteira entre os dois primeiros artilheiros do campeonato inglês desde Firmino em 2017/2018, e mesmo assim sem chegar perto do topo. Igor Thiago não apenas chegou: está lá.
Rayan, do Bournemouth, é outro nome inédito no ciclo Ancelotti — atacante de 20 anos que acumula minutos relevantes na Premier League e representa a aposta do técnico no binômio juventude e ritmo europeu. Endrick, que já havia sido convocado anteriormente, retorna em um momento de crescimento no Lyon — clube que o recebeu depois de sua passagem pelo Real Madrid — e carrega a expectativa de quem precisa de uma Copa do Mundo para dar o salto definitivo de projeção. São três perfis distintos de atacante, e Ancelotti quer ver os três funcionando antes de fechar o raciocínio.
"Só pretendo convocar jogadores que estejam em plenas condições físicas", afirmou Ancelotti ao ser questionado sobre as ausências de nomes titulares no ciclo.
A frase parece simples, mas carrega um subtexto direto: Militão, Bruno Guimarães e Estêvão — todos em recuperação de lesão — provavelmente estarão na lista final de 18 de maio, mas precisam chegar a essa data funcionando. Ancelotti não abre exceção por nome, e essa postura — rara entre técnicos de seleções grandes sob pressão de imprensa e torcida — é o que torna esses oito convocados inéditos mais do que figuração.
Bremer, Ibañez e Léo Pereira disputam vagas na zaga com argumentos diferentes
Na defesa, as três novidades têm contextos radicalmente distintos. Bremer, da Juventus, é o nome de maior peso internacional — zagueiro titular de um clube histórico da Serie A, com experiência em Champions League e um perfil físico que Ancelotti valoriza. Ibañez, que defende o Al Ahli na Arábia Saudita, é um caso curioso: o desempenho fora das ligas europeias levanta dúvidas sobre o nível de competição, mas o técnico claramente não descartou o jogador do radar.
Léo Pereira, do Flamengo, é talvez o caso mais justo da convocação. Melhor zagueiro do melhor time do Brasil no Brasileirão 2026 — o Flamengo lidera a competição com folga —, Léo Pereira chega com a legitimidade de quem vem sendo o mais consistente na posição dentro do futebol nacional. O SportNavo acompanhou o rendimento do defensor desde o início da temporada: são 12 jogos, apenas três gols sofridos nas partidas em que atuou os 90 minutos completos. Números que justificam a convocação sem precisar de argumento extra.
Paquetá, Danilo e Sara — o meio-campo que ainda não tem dono
Danilo, do Botafogo, e Gabriel Sara, do Galatasaray — ambos inéditos no ciclo — chegam para disputar espaço em um setor que Ancelotti ainda não fechou. Sara, especificamente, tem sido um dos melhores meias da Süper Lig turca nesta temporada, com participação direta em 14 gols entre passes e finalizações. Danilo, por sua vez, é o tipo de volante que o Botafogo usa como pivô de saída de bola — uma função que a Seleção às vezes perde quando os titulares somem por lesão.
E então há Lucas Paquetá. O meia do West Ham não estava na lista de março, mas Ancelotti foi direto ao ser questionado: as portas seguem abertas para a convocação de 18 de maio. A situação jurídica do jogador — investigado pela FA por suposta manipulação de apostas — permanece pendente, e a polêmica que acompanha seu nome é real. Mas o técnico recusou fazer julgamento antecipado e deixou a decisão para o momento da lista definitiva. Paquetá, quando em ritmo, é o meia com maior capacidade de condução e criação do elenco brasileiro — esse dado não desaparece por decreto.
"As portas estão abertas", disse Ancelotti ao ser questionado diretamente sobre a possibilidade de Paquetá integrar a lista final para a Copa do Mundo.
Sobre Neymar, o técnico foi na mesma linha — abertura formal, sem garantia — mas a diferença entre os dois casos é de contexto físico: Paquetá joga, acumula minutos e está ativo na Premier League. Neymar segue em processo de recuperação no Santos, e a última convocação, em 18 de maio, vai encontrar um jogador que precisará mostrar condição de jogo, não apenas boa vontade.
O Brasil estreia na Copa do Mundo em 13 de junho contra o Marrocos. A lista de 26 jogadores será divulgada em 18 de maio. Entre hoje e essa data, Ancelotti vai observar os amistosos de março — dois jogos de alto nível, contra França e Croácia — e tomar decisões sobre cada uma das oito novidades. Igor Thiago com 18 gols na Premier League tem argumento forte. Léo Pereira com regularidade no Flamengo também. Mas se Paquetá entrar na lista final, e Neymar também estiver disponível, quem Ancelotti deixa fora do meio-campo para acomodar os dois?









