Perdeu. Kylian Mbappé, o nome que dominou o imaginário do futebol francês por quase uma década, ficou de fora do pódio mais simbólico da temporada para os jogadores da França que atuam no exterior. Na cerimônia dos Troféus UNFP realizada na segunda-feira, 11 de maio, em Paris, quem subiu ao palco foi Michael Olise, ponta de 24 anos do Bayern de Munique, com 52 participações em gols na temporada 2025/2026 — 22 marcados e 30 servidos. O número não é retórica: é a diferença entre quem dominou o jogo e quem prometeu dominar.

O que os números de Olise no Bayern revelam sobre a temporada

Para entender a dimensão do que Olise construiu em Munique, convém recorrer a um paralelo histórico. Na temporada 1998/99, Rivaldo encerrou seu ano no Barcelona com 24 gols e 15 assistências pela La Liga — números que lhe renderam a Bola de Ouro naquele ciclo. Olise, atuando numa liga tecnicamente mais pressionada defensivamente que a Bundesliga dos anos 90, chegou a 30 assistências sozinhas, superando marcas que jogadores como Arjen Robben e Franck Ribéry raramente atingiram individualmente durante os anos dourados do Bayern entre 2012 e 2015. Ribéry, por exemplo, terminou sua melhor temporada em Munique — a de 2012/13, quando o clube venceu tudo — com 15 assistências na Bundesliga.

O que os números de Olise no Bayern revelam sobre a temporada Olise faz 52 gols
O que os números de Olise no Bayern revelam sobre a temporada Olise faz 52 gols

A campanha de Olise foi peça central em dois objetivos concretos do Bayern: a conquista do título da Bundesliga na temporada 2025/2026 e a chegada até a semifinal da Champions League. Chegar a uma semifinal europeia exige consistência ao longo de oito partidas eliminatórias, e o inglês de origem francesa esteve presente em gols decisivos em praticamente todas as fases. Isso pesa numa votação que não é de popularidade — é de impacto real no campo… e aí vem o problema para Mbappé.

Por que Mbappé ficou para trás na votação da UNFP

A trajetória de Mbappé no Real Madrid nesta temporada foi, para usar um termo da arquitetura, uma fachada sem estrutura. O atacante chegou ao Santiago Bernabéu em 2024 com a promessa de ser o herdeiro natural de Cristiano Ronaldo — o jogador que, entre 2011 e 2018, acumulou quatro Ligas dos Campeões e transformou o clube num projeto pessoal. Mbappé, no entanto, oscilou entre lampejos e sequências de invisibilidade que raramente se viam num jogador de seu calibre. O Real Madrid, que entre 2021 e 2024 havia construído uma das campanhas europeias mais consistentes da história recente, terminou a temporada 2025/2026 sem o título da La Liga e eliminado antes das semifinais da Champions.

O terceiro nome na disputa pelo prêmio, William Saliba, do Arsenal, teve uma temporada sólida na Premier League — o zagueiro é um dos pilares da defesa que permitiu ao clube londrino disputar o título inglês até as rodadas finais. Mas a natureza do prêmio favorece criadores e marcadores, e Saliba, por mais que seja um dos melhores defensores do futebol europeu atual, carrega a desvantagem estrutural de disputar um prêmio cujo imaginário coletivo ainda é moldado por gols e assistências. O SportNavo mapeou as últimas cinco edições do troféu e, em todas elas, o vencedor teve ao menos 18 gols ou assistências diretas na temporada.

Olise e o novo ciclo de hegemonia francesa fora da França

Há um dado geracional que merece atenção: Mbappé tem 27 anos e Olise, 24. A geração que dominou o futebol francês no exterior entre 2018 e 2023 — Mbappé, Kanté, Pogba — está sendo substituída por uma nova leva que cresceu num futebol mais tático, mais físico e mais exigente em termos de volume de trabalho. Olise é filho dessa geração: formado no Crystal Palace, onde Joachim Andersen e Eberechi Eze o cercavam num ambiente de alta pressão, ele chegou ao Bayern já com a maturidade técnica que jogadores como Ribéry levaram três temporadas para desenvolver em Munique.

A cerimônia da UNFP também premiou Ousmane Dembélé como melhor jogador da Ligue 1 pelo Paris Saint-Germain, Désiré Doué como melhor jovem e Pierre Sage, do Lens, como melhor treinador — este último pela campanha que levou o clube ao título da Copa da França e a uma vaga na próxima edição da Champions League. São sinais de que o futebol francês, tanto dentro quanto fora de suas fronteiras, está num momento de renovação de referências. Mbappé ainda é Mbappé — mas, nesta temporada, Olise foi mais.

O próximo capítulo dessa história tem data marcada: a seleção francesa volta a campo em junho pelas eliminatórias da Copa do Mundo, e Didier Deschamps terá de decidir como encaixar Olise numa equipe que ainda constrói sua geometria em torno de Mbappé. Vinte e dois gols e 30 assistências em uma temporada criam um argumento difícil de ignorar — e fácil de colocar na prancheta tática. Como numa partitura onde o solista muda, mas a orquestra precisa aprender a acompanhar um novo timbre.