A declaração saiu no vestiário, antes mesmo de o avião decolar para o Rio de Janeiro. Alejandro Orfila, técnico do Cusco, pediu em público que a diretoria comprasse uma passagem aérea de última hora para o meia Quillahuamán, de 19 anos — porque o clube simplesmente não havia planejado a viagem com o jogador na lista. A cena, digna de um clube de quarta divisão espanhola lutando contra o rebaixamento, acontece às vésperas de uma partida da Copa Libertadores, contra o Flamengo, no Maracanã, nesta terça-feira (26), às 21h30 (horário de Brasília), pela sexta rodada da fase de grupos.

O que Orfila revelou sobre o elenco disponível para o Maracanã

Orfila chegou a citar dois casos concretos que ilustram o grau de desorganização institucional do clube peruano. O primeiro é o de Bellota, jovem de apenas 15 anos que o treinador queria levar à delegação — mas que sequer foi inscrito oficialmente pela diretoria. O segundo é o de Miguel Auca, meio-campista que sofreu lesão no joelho e pode precisar de cirurgia, mas cuja situação nunca foi comunicada formalmente à imprensa ou à torcida.

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"Tenho apenas 17 jogadores para viajar. Ainda no vestiário, pedi que comprassem uma passagem para trazer Quillahuamán. Se dependesse de mim, também levaria Bellota, mas isso não é possível porque ele ainda não está registrado", disse Orfila, com evidente irritação.

No futebol europeu de alto nível, a gestão de elenco para viagens internacionais é tratada com meses de antecedência. No Barcelona, onde acompanhei de perto a estrutura do clube entre 2014 e 2018, havia departamentos inteiros dedicados à logística de delegações para a Champions League. O que Orfila descreve no Cusco lembra, no pior sentido possível, o improviso que ainda assombra parte do futebol sul-americano — e que o pressing institucional da Conmebol ainda não conseguiu eliminar.

Por que a falta de comunicação médica agrava ainda mais a crise peruana

Além da questão logística, Orfila foi ainda mais direto ao criticar a ausência de boletins médicos oficiais do clube. A situação de Auca — lesionado há pelo menos quinze dias, com diagnóstico indefinido sobre a necessidade de cirurgia — nunca foi divulgada formalmente. O resultado prático é que o técnico vira alvo de críticas da torcida por não escalar jogadores que, na realidade, estão indisponíveis.

"É um erro institucional que acaba me prejudicando. Depois, o incapaz sou eu ou os jogadores. O que estou dizendo é que estamos falhando na comunicação, e, no futebol de hoje, a comunicação é vital", afirmou o treinador.

Quem não tem cão caça com gato — e Orfila, literalmente, vai ao Maracanã com o que tem: 17 jogadores, dois lesionados graves fora da lista e um jovem de 15 anos que nem inscrito está.

O paralelo com o futebol europeu é inevitável. Clubes como o Atlético de Madrid, mesmo em momentos de crise financeira sob Simeone, nunca abriram mão da comunicação institucional como ferramenta de gestão de expectativas. O tiki-taka de informações entre clube, imprensa e torcida é parte do que separa organizações profissionais de amadores bem-intencionados.

Como a desorganização do Cusco transforma o Flamengo em favorito ainda mais confortável

Então a pergunta que realmente importa ao torcedor rubro-negro é esta: o caos no Cusco é vantagem real ou apenas ruído de bastidor?

A resposta está nos números. Com apenas 17 atletas disponíveis — número que mal cobre um onze titular mais seis reservas — o técnico Orfila não terá margem para rotações táticas, ajustes de ritmo ou respostas a eventuais lesões durante a partida. No gegenpressing moderno, que exige alta intensidade e trocas frequentes, jogar com elenco reduzido é uma desvantagem estrutural que nenhum esquema tático compensa.

O Flamengo, por sua vez, chega ao confronto com o Maracanã como palco e a possibilidade de consolidar sua posição no Grupo D da Libertadores. A atmosfera do estádio, que já funcionou como décimo segundo jogador em noites europeias memoráveis, tende a amplificar ainda mais o desequilíbrio entre as delegações.

O Cusco entra em campo nesta terça-feira (26) já derrotado em termos de planejamento. A diretoria peruana terá muito a responder após o apito final — seja qual for o placar. O Flamengo joga às 21h30 no Maracanã, e uma vitória pode aproximar o clube da classificação antecipada à próxima fase da competição.