Não, a Costa do Marfim não é apenas a seleção da saudade de Drogba e Yaya Touré. A pergunta certa não é se os Elefantes têm talento — têm, e sobra. A pergunta é se esta geração tem o contexto tático e emocional para fazer o que a anterior, com todo o seu brilho individual, nunca conseguiu: avançar de uma fase de grupos na Copa do Mundo. O técnico Emerse Faé convocou 26 jogadores nesta sexta-feira (15 de maio), e o Grupo E — com Alemanha, Curaçao e Equador — oferece, talvez pela primeira vez, uma janela real de classificação.
O milagre de Abidjan como ponto de partida
Faé não chegou ao cargo pelo caminho convencional. Era auxiliar técnico durante a Copa Africana de Nações quando o treinador principal foi demitido após uma fase de grupos desastrosa. Assumiu interinamente, conduziu uma recuperação histórica e conquistou o título continental. Nenhum técnico africano nas últimas três décadas acumulou um capital político tão alto em tão pouco tempo — o equivalente, no futebol europeu, seria comparar ao que Arrigo Sacchi fez ao chegar ao Milan em 1987 sem nunca ter treinado um clube de elite: entrou pela porta dos fundos e saiu pela frente com o troféu na mão.
Segundo o técnico Emerse Faé, o título africano deu à seleção a certeza de que nenhuma situação é irreversível — e é exatamente essa mentalidade que ele quer transportar para a Copa do Mundo.
O Grupo E por dentro — onde a Costa do Marfim se encaixa
A Alemanha chega à Copa do Mundo 2026 com a pressão de quem não vence o torneio desde 2014 e ainda carrega o trauma da eliminação na fase de grupos em 2018. É uma seleção em reconstrução, mas tecnicamente superior à média do grupo. Curaçao é a incógnita simpática do chaveamento — estreante ou quase, sem histórico de Copa para pressionar ninguém. O Equador, por sua vez, tem mostrado consistência nas Eliminatórias sul-americanas, e o que para o argentino é uma chateação continental, para o equatoriano virou orgulho de geração. A avaliação do SportNavo é que a Costa do Marfim disputa a segunda vaga com o Equador, e a diferença entre avançar ou não pode ser medida em um único resultado — exatamente como aconteceu em 2010, quando os Elefantes ficaram fora por saldo de gols no grupo que tinha Brasil e Portugal.
O tabu que três gerações não conseguiram quebrar
Em 2006, na Alemanha, a Costa do Marfim caiu no chamado "grupo da morte" com Argentina, Holanda e Sérvia — e ainda assim perdeu para os europeus por apenas 2 a 1. Em 2010, na África do Sul, empatou com Portugal de Cristiano Ronaldo e goleou a Coreia do Norte por 3 a 0, mas foi eliminada no critério de desempate. Em 2014, no Brasil, voltou a cair em grupo difícil com Grécia, Colômbia e Japão. Três participações, zero classificações, e uma geração inteira de jogadores de altíssimo nível que nunca viu uma oitava de final. Estatisticamente, nenhuma seleção africana chegou tão perto tantas vezes sem atravessar essa barreira.
Os jogos que vão definir o destino dos Elefantes
A Costa do Marfim estreia no dia 14 de junho, domingo, às 20h (horário de Brasília), no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. O segundo jogo acontece em 20 de junho, no BMO Field, em Toronto, e o terceiro em 25 de junho, de volta a Filadélfia. A ordem dos adversários ainda não está confirmada, mas uma vitória na estreia — seja qual for o rival — pode reposicionar completamente a psicologia do grupo, que chega ao torneio como campeão africano em exercício. Não, a Costa do Marfim não é apenas a seleção da saudade de Drogba e Yaya Touré — é a seleção que, pela primeira vez, entra numa Copa com um técnico que já provou saber virar o jogo quando tudo parece perdido.








