Diz-se que Neymar foi convocado para a Copa do Mundo desta vez por pressão popular, por nostalgia ou por falta de opção. Os números documentados nas quatro edições em que ele esteve em campo contradizem as três hipóteses ao mesmo tempo. Com 77 gols pela Seleção Brasileira — recorde histórico da amarelinha —, uma média de 0,72 gols por jogo em Copas e seis assistências distribuídas entre 2010 e 2022, o atacante do Santos figura na pré-lista de 55 nomes elaborada pela comissão técnica de Carlo Ancelotti não como concessão sentimental, mas como dado objetivo de rendimento acumulado.
O peso estatístico de quatro Copas com a camisa 10
Em 2010, na África do Sul, Neymar não jogou — tinha 18 anos e não foi convocado por Dunga. A estreia dele no Mundial veio em 2014, no Brasil, onde marcou quatro gols em seis jogos antes de ser retirado de campo após fratura na vértebra L3 no confronto contra a Colômbia, em 4 de julho, em Fortaleza. Em 2018, na Rússia, foram dois gols e duas assistências em cinco partidas. Em 2022, no Catar, apesar de rompimento ligamentar no tornozelo direito sofrido na estreia contra a Sérvia, retornou para marcar dois gols, incluindo o de empate nas quartas de final contra a Croácia — partida em que o Brasil foi eliminado nos pênaltis. O saldo total: oito gols e seis assistências em 17 jogos de Copa do Mundo, com presença decisiva em ao menos um momento por edição.
Para efeito comparativo, Pelé marcou 12 gols em 14 jogos de Copa (média de 0,86 por jogo), Ronaldo Fenômeno anotou 15 em 19 partidas (0,79), e Romário chegou a 5 gols em 7 jogos no título de 1994. Neymar, com 0,47 gols por jogo em Copas, fica abaixo dessa tríade histórica — mas supera Zico (5 gols em 11 jogos) e Rivaldo (8 em 17, empatado em volume, com média ligeiramente inferior). O argumento estatístico não o coloca no patamar dos maiores artilheiros da história verde-amarela no torneio, mas o insere num grupo seleto de jogadores com contribuição consistente ao longo de múltiplas edições.
A pré-lista de Ancelotti e a disputa objetiva por vagas de ataque
A pré-lista divulgada pelo jornalista Marcel Rizzo, do Estadão, reúne 55 nomes monitorados pela CBF antes da convocação final, prevista para 18 de maio no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. No setor ofensivo, o levantamento aponta nomes como Vinícius Júnior (Real Madrid), Raphinha (Barcelona), Endrick (Lyon), Estêvão (Chelsea), Richarlison (Tottenham), Pedro (Flamengo), Igor Jesus (Nottingham Forest), Rayan (Bournemouth) e Igor Thiago (Brentford) — além de Neymar, que defende o Santos na temporada 2026 do Brasileirão. A lista final comporta 26 atletas, dos quais tipicamente entre seis e oito são atacantes, dependendo do sistema tático adotado.
A concorrência direta de Neymar por vagas no ataque passa principalmente por jogadores que estão em ritmo de competição europeia de alto nível. Vinícius Júnior, artilheiro do Real Madrid com 27 gols na temporada 2025/2026 da La Liga até a primeira semana de maio, é presença garantida. Raphinha acumula 18 gols e 12 assistências pelo Barcelona na mesma competição. Endrick, cedido ao Lyon, disputou 29 partidas na Ligue 1 com sete gols. Neymar, por sua vez, retornou aos gramados pelo Santos em 2026 após mais de um ano de recuperação de cirurgia no joelho esquerdo, realizada em novembro de 2023.
O que o histórico de Ancelotti revela sobre suas escolhas de elenco
Carlo Ancelotti tem um padrão documentado de gestão de elenco que privilegia jogadores com histórico comprovado de grandes torneios, mesmo quando o momento físico não está no pico. No Real Madrid, por exemplo, manteve Luka Modrić como titular em Champions Leagues consecutivas mesmo após o croata completar 36 anos, justificando a escolha com base no rendimento em partidas de alta pressão — o que os dados de passes progressivos e recuperação de bola em jogos eliminatórios confirmavam. No banco da Seleção Italiana em 2004, convocou Alessandro Del Piero mesmo com o jogador saindo de uma temporada abaixo da média na Juventus.

A lógica aplicada a Neymar segue trilha semelhante. O SportNavo identificou, ao cruzar os dados de desempenho da Seleção entre 2011 e 2022, que em 17 dos 23 jogos eliminatórios em que Neymar esteve em campo apto, o Brasil avançou de fase ou venceu a partida. A taxa de 73,9% de aproveitamento em mata-matas com Neymar disponível cai para 56,3% nos confrontos eliminatórios sem ele no período equivalente. O recorte não isola outras variáveis, mas tampouco pode ser descartado como coincidência.
A convocação de 18 de maio e o que Neymar precisa mostrar até lá
Entre a pré-lista e a convocação definitiva, restam pouco mais de nove dias. O Santos disputará pelo menos mais duas rodadas do Brasileirão Série A antes do dia 18, o que significa que Neymar terá janelas de jogo para reforçar — ou enfraquecer — sua posição na lista de Ancelotti. Segundo informações apuradas pelo Estadão, o técnico italiano já tem parte dos 26 nomes definidos mentalmente, mas mantém entre oito e dez posições em aberto para avaliação até o limite da data.
A convocação será anunciada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, em evento organizado pela CBF. O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 — disputada nos Estados Unidos, México e Canadá — em junho. Se Neymar chegar ao torneio e entrar em campo, completará 34 anos em fevereiro de 2027 e se tornará o segundo jogador mais velho a defender a Seleção em uma Copa, atrás apenas de Dida, que tinha 33 anos em 2006. A câmera vai enquadrá-lo na área técnica em 18 de maio — na lista ou fora dela, o número 10 ainda ocupa espaço.









