Dezoito gols. Esse é o número que Wesley, Estêvão e João Pedro, somados, já acumulam nesta temporada europeia — e é o número que mais incomoda quem ainda insiste em tratar os três como promessas distantes. Eles deixaram de ser promessa. O problema, para Carlo Ancelotti, é que a convocação ainda não acompanhou a velocidade dos fatos.

O número que une os três nomes na cabeça de Ancelotti

João Pedro é o mais maduro dos três no recorte estatístico desta temporada. O atacante do Chelsea soma 18 gols e seis assistências pelo clube inglês, tendo marcado cinco vezes nos últimos quatro jogos — uma cadência que poucos centroavantes da Premier League conseguiram manter no mesmo período. Na vitória por 5 a 1 sobre o West Ham, ele voltou a balançar as redes, confirmando que o título do Mundial de Clubes não foi um pico isolado, mas o reflexo de uma evolução consolidada.

Chelsea - Manchester City

Estêvão, parceiro de clube, operou em outra função no mesmo jogo. O ex-Palmeiras distribuiu uma assistência para Enzo Fernández e foi eleito o melhor jogador da partida — distinção que, naquela noite de sexta-feira, 22, colocou o nome dele de volta ao centro do debate sobre a convocação. Estêvão foi o único dos três presentes na última lista de Ancelotti; João Pedro e Wesley tratavam de lesões.

Wesley, por sua vez, chegou mais tarde à festa. O lateral-direito de 21 anos — revelado pelo Flamengo e hoje na Roma — estreou em jogos oficiais pelo clube italiano marcando o gol da vitória por 1 a 0 sobre o Bologna, no Estádio Olímpico, e ainda levou o prêmio de melhor em campo. A estreia que qualquer jogador desejaria. Na primeira convocação de Ancelotti, Wesley já havia sido chamado, mas viu Vanderson, do Monaco, ocupar a posição de titular.

Uma geração sem paralelo desde a safra de 2002

Para quem acompanha a Seleção há mais de duas décadas, a concentração de talentos jovens em clubes europeus de ponta lembra, em escala, o que aconteceu entre 1999 e 2001, quando Ronaldinho Gaúcho, Kaká e Robinho despontaram quase simultaneamente. A diferença — e ela é considerável — é que a geração atual está chegando à Copa do Mundo de 2026 com muito mais rodagem internacional do que aqueles três tinham na mesma faixa etária. Estêvão ainda não completou 18 anos; João Pedro tem 22; Wesley, 21.

Richarlison, que pertence a outra geração dentro do elenco, também fez sua parte no fim de semana. O centroavante do Tottenham distribuiu duas assistências — para Brennan Johnson e Palhinha — na vitória por 2 a 0 sobre o Manchester City fora de casa, reforçando sua candidatura após ter marcado dois gols na estreia contra o Burnley. O atacante tem histórico de trabalho com Ancelotti no Everton, o que pesa a seu favor nos critérios do treinador.

"Já esteve na primeira convocação de Ancelotti", registrou a Placar ao mencionar Wesley, sinalizando que o lateral não é novidade para o staff técnico — o que torna ainda mais significativa a sequência de boas atuações agora.

Marquinhos, no Paris Saint-Germain, foi outro a aparecer no radar — o zagueiro marcou no empate por 2 a 2 com o Monaco pelos playoffs da Champions e deve ter vaga praticamente garantida na próxima lista, mesmo tendo ficado de fora da convocação anterior por lesão. O PSG reencontra o Chelsea — na Champions, o confronto reúne ao menos quatro brasileiros com chances reais de estar na Copa.

O que Neymar representa nessa equação

Há um personagem ausente em toda essa movimentação que, paradoxalmente, define parte do espaço disponível para os jovens. Neymar — o maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 128 jogos — ainda é dúvida para a Copa do Mundo de 2026. O retorno pelo Santos, clube onde iniciou a carreira, não gerou ainda a consistência física necessária para garantir uma vaga no grupo de Ancelotti. A incerteza sobre o camisa 10 não é nova, mas ganha outro peso quando se percebe que os candidatos a ocupar o espaço ao lado de Vini Jr. — suspenso para o primeiro jogo dos amistosos e que deve ser preservado na convocação — já acumulam argumentos concretos.

"O retorno de seu maior artilheiro, Neymar, do Santos, ainda é incerto", apontou a Placar, sinalizando que a CBF trabalha com dois cenários distintos para o ataque da Seleção.

O Brasil já está classificado para a Copa — terceiro na tabela das Eliminatórias Sul-Americanas com 25 pontos, empatado com o Equador e dez atrás da Argentina. Os dois últimos compromissos pelas Eliminatórias, contra Chile e Bolívia em setembro, servirão mais como laboratório do que como decisão. Os amistosos contra França e Croácia, nos dias 26 e 31 deste mês nos Estados Unidos, são o verdadeiro teste de palco para quem quer chegar à Copa titular.

A convocação de Ancelotti para esses dois jogos seria anunciada na segunda-feira, dia 16. Wesley, Estêvão e João Pedro — três jogadores que, há 18 meses, ainda disputavam espaço em ligas menores ou nas categorias de base — chegam a esse momento com gols, assistências e prêmios individuais nas vitrines. O paradoxo inicial se resolve aqui: eles já convencem antes de Ancelotti dizer uma palavra. A questão agora é se a lista confirmará o que os números já decidiram. Em 26 de maio, no amistoso contra a França, saberemos quais desses três nomes Ancelotti escolheu para escrever o próximo capítulo da Seleção.