Todo mundo sabe que o Irã vai jogar nos Estados Unidos nesta Copa do Mundo. Como ninguém conseguiu prever que a seleção teria de dormir em outro país para isso acontecer é a parte que conta.
A Federação Iraniana de Futebol confirmou nas últimas semanas que a base de treinamentos da equipe será Tijuana, no México — e não Tucson, no Arizona, como estava planejado. A razão é direta: os Estados Unidos se recusaram a conceder vistos a membros da delegação que cumpriram serviço militar obrigatório na Guarda Revolucionária Iraniana (GRI), organização classificada como terrorista por Washington e Ottawa. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum foi quem esclareceu o impasse, ao revelar que um representante da FIFA a procurou perguntando se o Irã poderia pernoitar no México.
"Os EUA não querem que a seleção iraniana passe a noite no país", disse Sheinbaum a repórteres, em declaração relatada pela Associated Press. "Eu respondi: sim, sem problemas. Não temos restrições a isso."
A cena tem uma ironia histórica que qualquer observador de relações internacionais reconhece: em 1980, os EUA boicotaram os Jogos Olímpicos de Moscou por conta da invasão soviética ao Afeganistão. Em 1984, a URSS e seus aliados retaliaram em Los Angeles. O esporte sempre foi palco de guerras frias — mas raramente de guerras quentes em curso, com um dos combatentes competindo no território do adversário. Isso é inédito.
O técnico brasileiro que escapou do Irã por terra
Para entender o que essa seleção carrega, é preciso ouvir quem esteve dentro. O técnico Osmar Loss dirigia o Persépolis, o maior clube iraniano, quando os bombardeios americanos e israelenses começaram em fevereiro de 2026. Ele não estava em Teerã no momento dos primeiros ataques — a delegação estava em intertemporada no Catar —, mas precisou tomar a decisão mais delicada de sua carreira: voltar ou não ao país.
Loss voltou. E quando a situação escalou além de qualquer margem de segurança, saiu do Irã por terra, atravessando a fronteira com a Turquia. Já em solo turco, ele descreveu ao Lance! detalhes que revelam muito sobre o ambiente onde essa seleção foi formada. O clube fornecia aos estrangeiros uma conexão via antena Starlink — tecnologia de Elon Musk que é, tecnicamente, ilegal no Irã.
"A preocupação era a gente estar usando e, daqui a pouco, um cara que nem entende de futebol, que não nos conhece, nos levar para alguma investigação", relatou Loss, explicando que exigiu um documento oficial assinado pelo presidente e pelo CEO do Persépolis autorizando o uso da conexão.
Há algo revelador nesse detalhe: um CEO de clube que pede permissão ao treinador antes de assistir a um treino. Loss mencionou exatamente isso. Quem conhece o futebol europeu — onde dirigentes de clubes como a Juventus dos anos 1990 ou o Barcelona de Joan Laporta interferiam em tudo, de escalação a contratação — reconhece o quanto essa relação é incomum. No Irã, a hierarquia técnica é quase feudal no sentido positivo: o treinador é intocável.
A Guarda Revolucionária e o futebol que ninguém vê
A tensão com os vistos não é apenas burocrática. Ela aponta para uma estrutura de poder que o historiador e professor especialista em Oriente Médio Andrew Patrick Traumann — autor do livro Os militares e os aiatolás: relações Brasil-Irã (1979-1985) — descreve com precisão cirúrgica.

"A Guarda Revolucionária Iraniana é quase que um estado paralelo ali. Eles têm um orçamento próprio para aeronaves, navios, seu próprio exército. Dominam o setor do petróleo, do gás, da infraestrutura — é uma força econômica poderosíssima", explicou Traumann.
Quando a Federação Iraniana exigiu garantias de visto para membros da delegação que passaram pela GRI, estava pedendo algo politicamente impossível para os americanos concederem sem custo doméstico. A solução encontrada pela FIFA — negociada em parte a partir de conversas conduzidas na Turquia, onde os iranianos preparam o Mundial — foi a base em Tijuana. De lá, são 55 minutos de voo até Los Angeles, onde o Irã estreia contra a Nova Zelândia em 15 de junho e depois enfrenta a Bélgica em 21 de junho. O terceiro jogo da fase de grupos é contra o Egito, em Seattle, no dia 26.
Segundo apuração do SportNavo, o comitê organizador americano segue sem se pronunciar publicamente sobre o caso, deixando para a FIFA e para o México o papel de gestores visíveis da crise logística.
A rota Tijuana-Los Angeles como metáfora de um Mundial sem precedente
Quem acompanhou as Copas do Mundo dos anos 1990 lembra que a edição de 1994, também nos EUA, foi marcada por uma certa assepsia política — o mundo pós-Guerra Fria vivia um otimismo ingênuo, e o torneio refletia isso. A Copa de 2002, no Japão e Coreia do Sul, teve tensões geopolíticas na Península Coreana, mas nenhum dos países em conflito jogava no território do outro. O que acontece agora é estruturalmente diferente: uma nação em guerra ativa entra no país do adversário, treina no México, cruza a fronteira de van, joga e volta antes da meia-noite. É um roteiro de thriller, não de festa esportiva.
A FIFA conduz as negociações com extrema cautela, e há razões históricas para isso. Em 1978, a Argentina sediou a Copa durante a ditadura militar, com jogos cujo resultado foi contestado — o 6 a 0 sobre o Peru que eliminou o Brasil ainda divide historiadores. Em 1982, a competição na Espanha aconteceu enquanto a Guerra das Malvinas entre Argentina e Reino Unido estava em curso: os dois países jogaram no mesmo torneio sem se enfrentar, mas a tensão era palpável. Agora, EUA e Irã estão no mesmo grupo — o Grupo G —, mas em chaves que, ao menos na fase inicial, não os colocam frente a frente.
O que ainda pode complicar a passagem iraniana pelos EUA
A solução de Tijuana resolve o pernoite, mas não elimina os riscos. O jogo do dia 26 de junho em Seattle, entre Irã e Egito, adiciona uma camada de complexidade cultural: tanto o Irã quanto o Egito têm legislação severa contra homossexualidade, e Seattle é uma das cidades americanas com maior visibilidade da comunidade LGBTQ+. A presença das duas seleções num estádio naquela cidade, com as câmeras do mundo apontadas, criará pressões que nenhuma nota diplomática consegue antecipar completamente.
Osmar Loss saiu do Irã por terra, via Turquia, carregando na bagagem mais do que roupas — carregava a compreensão de que o futebol iraniano opera dentro de um sistema que o Ocidente raramente entende. Agora esse sistema desembarca em Tijuana, treina de manhã, cruza a fronteira, joga à tarde e retorna antes que alguém precise de um visto para dormir. Todo mundo sabe que o Irã vai jogar nos Estados Unidos nesta Copa do Mundo. O que mudou, ao longo desta leitura, é que agora você sabe o quanto de negociação, fuga e geopolítica coube dentro dessa frase simples.








