6 anos, mais de 200 jogos, uma liderança silenciosa que moldou gerações de zagueiros na Luz — e uma conversa de sexta-feira que encerrou tudo. Nicolás Otamendi comunicou a José Mourinho que não renovará o contrato com o Benfica, e a vitória por 3 a 1 sobre o Estoril, no último sábado, foi, segundo o jornal português A Bola, sua última partida com a camisa encarnada. Aos 38 anos, o zagueiro argentino se prepara para retornar à Argentina e vestir a camisa do River Plate após a Copa do Mundo.
O que Mourinho sabia e quando soube
A cena tem algo de shakespeariano — seria injusto chamar de era o ciclo de Otamendi no Benfica, mas é uma era em escala doméstica. Mourinho recebeu a notícia na véspera do jogo contra o Estoril e, a rigor, não foi surpreendido: nas últimas semanas, o treinador português já havia tratado publicamente do futuro do defensor, afirmando que a decisão estaria
«nas mãos de Otamendi». Uma delegação elegante, que agora se confirma como despedida. O argentino tem vínculo apenas até o fim da temporada europeia 2025/2026, e os bastidores apontam que nenhuma proposta de renovação chegou a avançar de forma concreta.
Otamendi no Benfica e o paralelo com a geração Mourinho-Chelsea de 2004
Quando Otamendi chegou a Lisboa em 2020, vindo do Manchester City de Guardiola, havia quem duvidasse da longevidade de um zagueiro já na casa dos 32 anos num clube de exigência europeia. O paralelo histórico mais justo talvez seja o de Marcel Desailly no Chelsea entre 1998 e 2004: um campeão mundial que cruzou o Atlântico em fim de ciclo e ainda entregou mais cinco temporadas de alto nível antes do adeus. Otamendi fez algo parecido — campeão do mundo com a Argentina em 2022, no Catar, foi peça-chave nas campanhas do Benfica que o levaram de volta à elite da Champions League. Antes de Lisboa, o zagueiro passou por Vélez Sarsfield, Porto, Valencia e Manchester City, acumulando uma trajetória que poucos defensores sul-americanos da sua geração conseguiram replicar no futebol europeu.
Por que o River Plate ganha com essa jogada
Quem sai ganhando de forma imediata é o River Plate — e não é pouca coisa.
O clube argentino, do qual Otamendi é torcedor declarado, receberá um zagueiro com DNA de Champions League, experiência de Copa do Mundo e, o que é mais raro, a liderança de vestiário que faz diferença no futebol argentino, historicamente marcado por elencos jovens e ambiciosos. Nos anos 90, o River de Ramón Díaz já usava essa fórmula ao repatriar jogadores formados na Europa — Jorge Burruchaga em 1994, Hugo Pérez em períodos distintos — como forma de elevar o nível técnico e psicológico do grupo. A volta de Otamendi tem um sabor parecido, com a diferença de que o argentino chega como campeão do mundo, não como veterano em busca de uma última vitrine.
O efeito na seleção argentina antes de julho
O timing do retorno também não é neutro para a seleção de Lionel Scaloni. Otamendi deve disputar a Copa do Mundo de 2026 ainda como jogador do Benfica — seu contrato vai até o fim da temporada europeia — e depois fazer a transição para Buenos Aires. A janela entre o torneio e o início da temporada argentina dá ao zagueiro tempo suficiente para chegar ao River em forma e sem o desgaste de uma pré-temporada completa na Europa. O Benfica encerra a temporada 2025/2026 da Primeira Liga portuguesa nas próximas semanas, e Otamendi deve estar disponível para Scaloni no mês que antecede a Copa, mantendo a rotina de treinos que o técnico prefere para seus defensores titulares.










