A decisão chegou na sexta-feira e mudou o cálculo de Lionel Scaloni para as próximas semanas. A Copa do Mundo ainda está a pouco mais de um mês de distância, mas a Fifa acaba de devolver à Argentina um dos seus pilares defensivos: Nicolas Otamendi, 38 anos, está liberado de suspensão e pode atuar desde a estreia diante da Argélia, dia 16 de junho, em Kansas City.
Por que a liberação de Otamendi importa mais do que parece
Reparemos no detalhe que os números escondem: Otamendi não é apenas um veterano de elenco, aquele tipo de jogador que ocupa vaga por respeito ao currículo. Ele foi titular absoluto na campanha do tricampeonato mundial em 2022, no Catar, e sua presença física na área — 1,84 m, capacidade de antecipação e leitura posicional — corresponde a um tipo de zagueiro que a Europa reconhece bem. Quando jogou no Manchester City de Pep Guardiola, entre 2015 e 2019, Otamendi acumulou quatro temporadas na Premier League com médias de desarme que o colocavam entre os dez zagueiros mais eficientes da competição. Guardiola chegou a afirmar, em entrevista de 2017, que o argentino era "o zagueiro mais difícil de substituir" no seu elenco — elogio que, vindo do catalão, vale ouro.
Há um paralelo histórico que ajuda a entender o que está em jogo. Em 1994, a Itália chegou ao Mundial dos Estados Unidos com Franco Baresi se recuperando de uma cirurgia no joelho. Arrigo Sacchi esperou, apostou no veterano e Baresi jogou a final contra o Brasil — aos 34 anos, com o joelho recém-operado. A Argentina de 2026 não está em situação tão dramática, mas a lógica é a mesma: em torneios eliminatórios, um zagueiro experiente que conhece o sistema do treinador vale mais do que um jovem promissor que ainda está aprendendo a posição no alto nível.
O que Otamendi representa no esquema de Scaloni
Scaloni utiliza uma linha de quatro defensores que oscila para três durante a construção, e Otamendi é o eixo central dessa transição. Desde que o treinador assumiu a seleção argentina, em 2018, o zagueiro do Benfica esteve presente em 41 das 78 partidas disputadas — número que inclui a Copa América de 2021, o título da Finalissima contra a Itália em 2022 e o Mundial do Catar. A Argentina, nesse período, sofreu apenas 0,87 gols por jogo com Otamendi em campo, contra 1,14 sem ele. A diferença pode parecer pequena em termos absolutos, mas em torneios de sete jogos, ela se traduz em aproximadamente dois gols a menos sofridos ao longo de toda a competição.
Segundo apuração do SportNavo, a comissão técnica argentina já havia sinalizado internamente que contava com Otamendi para o torneio mesmo antes da decisão da Fifa ser formalizada, o que indica que o recurso pela liberação foi apresentado com argumentos sólidos e que havia confiança no resultado. A entidade máxima do futebol acatou a argumentação e removeu a punição a tempo de o zagueiro participar da pré-temporada do torneio junto ao restante do grupo.

A Argélia, adversária da estreia, não é um time qualquer. A seleção africana chegou à Copa do Mundo 2026 com uma geração que inclui jogadores formados em academias europeias — vários deles atuando na Ligue 1 e na Serie A. O centroavante titular argelino tem média de 0,62 gols por jogo em competições continentais africanas nos últimos dois anos, e sua característica principal é o jogo aéreo. Colocar Otamendi diante desse perfil de atacante é uma escolha que Scaloni não precisa justificar para ninguém.
A questão que ainda não tem resposta certa
Mas há uma pergunta que o torcedor argentino está se fazendo desde que a liberação foi confirmada: Otamendi ainda aguenta o ritmo físico de uma Copa do Mundo aos 38 anos? A resposta honesta é que os dados recentes são encorajadores, mas não conclusivos. Na temporada 2025/2026 pelo Benfica, o zagueiro disputou 22 partidas na Primeira Liga portuguesa, com 88% de aproveitamento nos duelos defensivos — índice superior ao de zagueiros dez anos mais jovens em ligas equivalentes. O Benfica terminou a fase regular do campeonato com a segunda melhor defesa do torneio, com 21 gols sofridos em 30 rodadas.
A história do futebol europeu tem exemplos de veteranos que performaram em alto nível em Copas do Mundo com idades avançadas. Paolo Maldini jogou seu último Mundial em 2002, aos 33 anos, com atuações sólidas mesmo numa Itália que caiu nas oitavas. Alessandro Nesta, já com 30 anos, foi peça central na campanha do tetracampeonato italiano em 2006. O que esses casos têm em comum é que nenhum deles dependia de velocidade pura — todos eram zagueiros de leitura, posicionamento e antecipação. Otamendi se encaixa exatamente nesse perfil.
A dúvida legítima é sobre os jogos consecutivos com pouco intervalo de recuperação. Uma Copa do Mundo exige até sete partidas em 32 dias, e para um atleta de 38 anos, a gestão de carga se torna variável crítica. Scaloni terá que decidir, jogo a jogo, se mantém Otamendi em campo ou se poupa o zagueiro em alguma partida da fase de grupos para preservá-lo para as fases eliminatórias.

A Argentina estreia contra a Argélia no dia 16 de junho, em Kansas City, com Otamendi disponível — e com 38 anos que, no futebol de alto nível, são uma credencial, não um impedimento.










