Decidiu. Mohamed Ouahbi encerrou a última dúvida da preparação marroquina para a Copa do Mundo de 2026 ao transformar o amistoso desta terça-feira, 26 de maio, contra Burundi — transmitido ao meio-dia no horário de Brasília — em um mecanismo formal de seleção. Não foi um jogo de cortesia. Foi uma peneira com câmeras, comissão técnica e consequências diretas na lista de convocados que seria divulgada horas depois do apito final.
A construção de um projeto que começou antes do Catar
Para entender o que Marrocos apresentará ao Brasil na estreia do Grupo D, é preciso recuar até novembro de 2022. Os Leões do Atlas encerraram a Copa do Mundo do Catar na quarta colocação — melhor resultado de uma seleção africana em toda a história do torneio. O feito não foi acidente: foi produto de uma política esportiva nacional articulada entre a Federação Real Marroquina de Futebol (FRMF) e o Estado, com investimento crescente em infraestrutura de base e na captação de jogadores da diáspora europeia.
O mercado de patrocinadores marroquino respondeu de forma mensurável. Segundo dados do setor, a receita comercial da federação cresceu mais de 40% entre 2022 e 2024, alavancada pelo desempenho no Catar e pela visibilidade gerada em mercados como França, Espanha e Bélgica — países com grandes comunidades de origem marroquina. Esse capital simbólico e financeiro agora financia a preparação para 2026, incluindo amistosos estratégicos e a metodologia de seleção adotada por Ouahbi.
O técnico assumiu a seleção em um momento de transição geracional. Walid Regragui, responsável pela campanha histórica de 2022, deixou o cargo em 2024, e Ouahbi herdou um grupo com peças consolidadas — como o meio-campista Sofyan Amrabat, que passou pelo Manchester United — e jovens em ascensão nos principais campeonatos europeus. A missão era transformar herança em continuidade.
O amistoso contra Burundi como laboratório de pressão
A escolha de Burundi como adversário no jogo-peneira não foi aleatória. O time da África Oriental ocupa a 131ª posição no ranking FIFA, o que permitia a Ouahbi testar jogadores em situação de superioridade técnica controlada — um ambiente ideal para observar tomada de decisão, posicionamento e adaptação ao esquema tático sem o ruído de um adversário de alto nível.
Segundo o entorno da comissão técnica marroquina, Ouahbi havia comunicado aos jogadores convocados para o amistoso que a atuação individual seria critério direto de inclusão na lista final para a Copa. A mensagem criou um ambiente de alta pressão competitiva dentro de um jogo que, em condições normais, seria tratado como mero aquecimento.
Essa metodologia — usar um jogo oficial como parte do processo seletivo de uma Copa do Mundo — é incomum no futebol de alto rendimento. A maioria das seleções define suas listas antes dos amistosos pré-torneio, usando os jogos apenas para ajustes táticos. Ouahbi inverteu a lógica, o que indica um nível de incerteza real sobre ao menos três ou quatro posições na lista final — e, portanto, um potencial de surpresas na convocação que o Brasil precisará monitorar.
As posições mais disputadas, de acordo com o acompanhamento da imprensa especializada europeia, estavam nas alas e na função de segundo atacante. Jogadores atuando em ligas da Arábia Saudita, Turquia e Segunda Divisão espanhola figuravam na lista ampliada, o que amplia o espectro de perfis táticos que Ouahbi pode acionar no Grupo D.
Possíveis surpresas na lista final
- Ala direita — disputa acirrada entre jogadores da Premier League e da liga saudita, com perfis físicos distintos.
- Segundo atacante — candidatos oriundos de ligas de menor visibilidade midiática podem surpreender analistas brasileiros acostumados a monitorar apenas os grandes campeonatos europeus.
- Goleiro reserva — posição com histórico de reviravoltas nas últimas convocações marroquinas, incluindo a Copa de 2022.
O que o Brasil enfrenta no Grupo D e o que os números revelam
O Grupo D da Copa do Mundo 2026 reúne Brasil, Marrocos, Portugal e Croácia. Do ponto de vista comercial, a FIFA identificou este como um dos grupos de maior apelo global: a soma das audiências potenciais dos quatro países — considerando diásporas e mercados de transmissão — ultrapassa 600 milhões de espectadores regulares de futebol. Para o torneio expandido a 48 seleções, com receita projetada superior a US$ 11 bilhões (ante US$ 7,5 bilhões em 2022), a fase de grupos precisa gerar confrontos de alto impacto, e o Brasil contra Marrocos é apontado internamente pela FIFA como um dos jogos de maior audiência potencial da primeira rodada.
Do ponto de vista tático, Marrocos chegará ao confronto com um modelo consolidado: bloco defensivo baixo, transições rápidas e aproveitamento de bolas paradas — padrão que rendeu eliminações de Portugal e Espanha no Catar. A seleção brasileira, que vem de um processo de reconstrução técnica e identitária desde 2023, terá diante de si um adversário que não apenas conhece seus limites, mas os transforma em estratégia.
Nas palavras do próprio Ouahbi em entrevista à imprensa marroquina em março de 2026, "a Copa de 2022 nos ensinou que organização coletiva supera talento individual quando a preparação é séria". A frase resume a filosofia de um projeto que não depende de um único nome — e que, por isso, é mais difícil de neutralizar.
A receita de transmissão do jogo Brasil x Marrocos já é objeto de negociação entre emissoras do Oriente Médio, Europa e América do Sul, reflexo direto do capital simbólico acumulado pelos Leões do Atlas desde 2022. Para o futebol africano, uma segunda campanha histórica em 2026 representaria não apenas prestígio esportivo, mas alavancagem concreta nas negociações de direitos de transmissão do continente para os próximos ciclos.
A lista oficial de Ouahbi, divulgada após o apito final do amistoso contra Burundi, será o primeiro documento concreto que a comissão técnica brasileira analisará com lupa. Cada nome incluído — especialmente os das posições de disputa — revelará não apenas quem joga, mas qual modelo tático Marrocos pretende impor ao Brasil na abertura do Grupo D. É o mesmo cenário que a França viveu em 2022 ao subestimar a leitura tática marroquina nas quartas de final — só que agora a aposta é diferente, e o Brasil tem a vantagem de não poder dizer que não foi avisado.








