"É mentiroso o conteúdo da nota conjunta divulgada na quarta-feira (6) por Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense e Clube de Regatas do Flamengo."A frase, publicada pelo Palmeiras no X na manhã desta quinta-feira (7), não deixou espaço para interpretação diplomática. O clube alviverde não apenas desmentiu os rivais — anunciou sua saída da Libra horas antes, na quarta-feira, tornando o comunicado uma espécie de acerto de contas público com dois dos maiores parceiros do bloco.
O acordo que Flamengo e Grêmio celebraram — e o que o Palmeiras nega ter assinado
Na tarde de quarta-feira (6), Flamengo e Grêmio divulgaram nota conjunta informando que firmaram, no último fim de semana, um acordo interno à Libra sobre a distribuição da verba de audiência. Segundo o comunicado, essa parcela corresponde a 30% da remuneração fixa total prevista no contrato de direitos de transmissão com a Globo, vigente até 2029. O texto afirma que o entendimento ampliará a participação dos dois clubes nessa fatia de receita em relação ao modelo anterior.
O Palmeiras, porém, sustenta que não assinou nenhum documento que implique receitas adicionais ao Grêmio. Mais do que isso: o clube paulista revela que a estrutura do acordo com a TV Globo obriga o próprio Grêmio — e os demais signatários — a pagar um valor fixo anual ao Flamengo, invertendo a narrativa de que todos ganharam de forma equânime. A diferença entre as duas versões não é semântica; é financeira e juridicamente relevante.
O Palmeiras ainda afirma não ter participado de eventual entendimento celebrado por Flamengo e Grêmio fora do âmbito institucional da Libra — linguagem que, no jargão de contratos associativos, sugere que as duas agremiações teriam negociado bilateralmente antes de apresentar o resultado ao coletivo como um consenso.
A cronologia que expõe a fratura dentro do bloco
A sequência de eventos em menos de 48 horas revela a velocidade com que o racha se aprofundou. Na terça-feira (6), a própria Libra havia anunciado que a disputa sobre o rateio da verba de audiência estava encerrada. Horas depois, ainda na quarta-feira, o Palmeiras formalizou sua saída do grupo. Na manhã de quinta (7), veio a nota acusando os rivais de mentira — três movimentos em dois dias que expõem uma governança frágil para um contrato bilionário.
Para dimensionar o que está em jogo, um indicador útil é a receita por ponto de audiência — métrica análoga ao xG no futebol de campo, que tenta isolar a contribuição real de cada clube para o valor do produto televisivo, independentemente de outros fatores. Quanto maior a audiência que um clube gera, maior deveria ser sua fatia; o debate dentro da Libra é exatamente sobre qual fórmula mede isso com menos viés. Flamengo e Grêmio defendem um modelo que reconheça essa capacidade individual de gerar valor econômico; os demais clubes resistem a um critério que concentra receita nos maiores.

O Palmeiras deixou claro que entende a saída do bloco como uma questão de princípio de governança:

"O Palmeiras entende que a construção de um modelo sólido de governança para o futebol brasileiro exige correção e transparência, além do compromisso inegociável com a verdade — e não com falsas narrativas."
Quanto pesa financeiramente a briga e o que muda para cada lado
O contrato coletivo da Libra com a Globo cobre o período de 2026 a 2029. A verba de audiência em disputa representa 30% do valor fixo total — fatia que, dependendo do montante bruto do acordo, pode significar centenas de milhões de reais distribuídos de forma diferente entre os clubes ao longo de quatro temporadas.
Para o Flamengo, o arranjo atual já prevê um valor fixo anual pago pelos demais signatários ao clube carioca — estrutura que o Palmeiras descreve como uma das principais distorções do modelo. Para o Grêmio, a ampliação da participação na verba de audiência representaria receita adicional relevante num momento em que o clube gaúcho ainda reconstrói sua base financeira após os efeitos das enchentes de 2024.
Ao sair da Libra, o Palmeiras abre mão da segurança de um contrato coletivo, mas também se libera para negociar direitos de transmissão de forma independente ou dentro de outro bloco — possivelmente o modelo vinculado à CBF, que o clube já sinalizou como alternativa. A decisão tem custo de oportunidade imediato, mas pode ser estrategicamente racional se o clube conseguir condições superiores fora da Libra.
Do lado de Flamengo e Grêmio, a credibilidade da nota conjunta ficou comprometida publicamente. Um comunicado que celebrava consenso foi desmentido, no dia seguinte, por um dos membros mais relevantes do bloco — o que enfraquece a narrativa de que o acordo representa uma solução sustentável para o futebol brasileiro.
A questão concreta que define os próximos passos é esta: se o Palmeiras formalizar adesão a um bloco rival antes do início das rodadas do Brasileirão 2026 com transmissão em vigor, a Globo precisará renegociar ao menos parte das condições do contrato com a Libra — e esse custo de renegociação, dependendo das cláusulas de saída, pode recair sobre os clubes que permanecerem no grupo. Quem paga a conta de uma ruptura unilateral é o detalhe que os contratos ainda não tornaram público.
Se outros clubes da Libra seguirem o Palmeiras e também abandonarem o bloco nas próximas semanas, a estrutura do acordo com a Globo se sustenta?








